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Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra QUE — FUNDATEC 2022

PortuguêsFunções morfossintáticas da palavra QUE
Código
qq735218
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Tunas - RS
Ano
2022
Nível
Médio

Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.


Aviãozinho


Por Luís Fernando Verissimo


  1. A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo ― literalmente: todas ―
  2. usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não
  3. tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha
  4. sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o
  5. pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de
  6. avião. Para ele, aquilo é apenas outro barulho de mãe.
  7. Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que
  8. não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é
  9. a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da
  10. cena ― "Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho"?! ― isso seria mais causa para espanto do
  11. que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca,
  12. fazendo barulho?
  13. Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e
  14. sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito
  15. a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não
  16. perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível
  17. possível consequência da minha distração ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou,
  18. já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta de que meu corpo
  19. tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido
  20. junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
  21. A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado
  22. de papinha, para me salvar. Pulseira dourada Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos...
  23. Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do
  24. jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo
  25. só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los
  26. Angeles. Meu pai lecionava na UCLA, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa.
  27. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu
  28. caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal
  29. escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma
  30. caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a
  31. levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para ___ menina ― e saí correndo.
  32. Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu,
  33. obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina ― com quem,
  34. aliás, nunca troquei nem um tímido "hello". A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder
  35. tempo. Mas ___ vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados
  36. Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer "Há a questão de
  37. certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Verissimo...". Estar assistindo ___ entrevista de alguma
  38. atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe
  39. entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que
  40. era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida
  41. de crimes acabou ali. Post scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro
  42. em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado.
  43. Tinha sido destruída por um terremoto.


(Disponível em: Cultura Genial – https://www.culturagenial.com/cronicas-engracadas-de-luis-fernando-verissimo-comentadas/ – texto adaptado especialmente para esta prova).

Assinale a alternativa na qual a palavra “que” tenha sido empregada como pronome relativo.
  1. A“Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho” (l. 10).
  2. B“isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca”(l. 10-11).
  3. C“ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo” (l. 13-14).
  4. D“Ou, já que o cérebro estava na cabeça,” (l. 17-18).
  5. E“Eu avisei que você ia perder tempo” (l. 34-35).
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — “ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo” (l. 13-14).

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Funções morfossintáticas da palavra QUE — pronome relativo

Gabarito: letra C. A única ocorrência de “que” como pronome relativo está em “ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo” (l. 13-14), pois esse “que” retoma o antecedente “ameaças e sentenças” e introduz uma oração subordinada adjetiva restritiva. Nas demais alternativas, o “que” é conjunção integrante, conjunção comparativa, conjunção causal ou conjunção integrante — nenhuma retoma termo anterior.

A questão cobra a classificação morfossintática do “que”, um dos tópicos mais recorrentes em provas. Para resolver, aplique o teste do pronome relativo: o “que” é relativo quando substitui um termo já mencionado (o antecedente) e pode ser trocado por o qual / a qual / os quais / as quais, iniciando uma oração adjetiva. Se não houver antecedente ou se o “que” apenas liga orações sem retomar nada, ele é outra classe (conjunção, partícula expletiva etc.).

1Teste: trocar por "o qual/a qual"
Retoma antecedente
Inicia oração adjetiva
2Conjunção integrante
Sem antecedente
Oração substantiva (objeto direto)
3Conjunção comparativa
Locução "do que"
"mais... do que..."
4Conjunção causal
Locução "já que"
= "porque"
QUE — pronome relativo
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QUE — pronome relativo: Teste: trocar por "o qual/a qual" (Retoma antecedente, Inicia oração adjetiva); Conjunção integrante (Sem antecedente, Oração substantiva (objeto direto)); Conjunção comparativa (Locução "do que", "mais... do que..."); Conjunção causal (Locução "já que", = "porque")

Alternativa A — ❌ Incorreta

“Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho” (l. 10).

Aqui o “que” é conjunção integrante: introduz a oração “que lá vai o aviãozinho”, que funciona como objeto direto do verbo “abre” (abre o quê? que lá vai o aviãozinho). Não há termo anterior que ele retome — o teste de trocar por “o qual” falha: “Abre a boquinha a qual lá vai o aviãozinho” não faz sentido. Erro: troca de conceito — confundir conjunção integrante com pronome relativo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“isso seria mais causa para espanto do que para abrir a boca” (l. 10-11).

O “que” integra a locução “do que”, que estabelece comparação (“mais … do que …”). Trata-se de conjunção comparativa, não de pronome relativo. Não há antecedente nominal; o “que” não retoma nada. Erro: troca de conceito — confundir conjunção comparativa com pronome relativo.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“ameaças e sentenças que só não nos paralisavam de medo” (l. 13-14).

O “que” retoma o antecedente “ameaças e sentenças” e introduz a oração adjetiva restritiva “que só não nos paralisavam de medo”. A prova: substitua por “as quais” → “ameaças e sentenças as quais só não nos paralisavam de medo”. O sentido se mantém. Além disso, o “que” exerce função sintática dentro da oração (sujeito de “paralisavam”). É exatamente a definição de pronome relativo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Ou, já que o cérebro estava na cabeça,” (l. 17-18).

O “que” integra a locução “já que”, que expressa causa (“já que” = “porque”). É conjunção causal, não pronome relativo. Não há antecedente; o “que” não retoma termo algum. Erro: troca de conceito — confundir conjunção causal com pronome relativo.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“Eu avisei que você ia perder tempo” (l. 34-35).

O “que” é conjunção integrante: introduz a oração “que você ia perder tempo”, que funciona como objeto direto do verbo “avisei” (avisei o quê? que você ia perder tempo). Não há antecedente nominal; o teste de trocar por “o qual” falha. Erro: troca de conceito — confundir conjunção integrante com pronome relativo.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre conjunção integrante (que introduz oração substantiva, sem antecedente) e pronome relativo (que retoma um termo anterior). Nas alternativas A e E, o “que” é integrante; em B e D, integra locuções conjuntivas (comparativa e causal). A única com antecedente claro é a C.

PEGA ESSA DICA!

Antes de classificar, pergunte: “esse ‘que’ pode ser trocado por ‘o qual/a qual’?”. Se sim, é pronome relativo. Se não, é conjunção (integrante, causal, comparativa etc.). Esse teste resolve a maioria das questões.

Gabarito: letra C.

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