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Questão de Português — Crase — FUNDATEC 2022

PortuguêsCrase
Código
qq735223
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Tunas - RS
Ano
2022
Nível
Médio

Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.


Aviãozinho


Por Luís Fernando Verissimo


  1. A estratégia do falso aviãozinho que todas as mães do mundo ― literalmente: todas ―
  2. usam para convencer o bebê a comer sua papinha e é tão antiga quanto o próprio avião, não
  3. tem nenhuma lógica. Para começar, é pouco provável que um bebê na idade de comer papinha
  4. sequer saiba o que é um avião. A mãe fazer o ruído do motor enquanto aproxima o
  5. pseudoaviãozinho da sua boca não ajuda em nada, o bebê também não sabe como é barulho de
  6. avião. Para ele, aquilo é apenas outro barulho de mãe.
  7. Em segundo lugar, não há qualquer razão para um bebê aceitar papinha de um avião que
  8. não aceitaria de uma colher. No seu universo, avião e colher é a mesma coisa. Navio e colher é
  9. a mesma coisa. Se o bebê, por um fenômeno de precocidade, se desse conta do surrealismo da
  10. cena ― "Abre a boquinha que lá vai o aviãozinho"?! ― isso seria mais causa para espanto do
  11. que para abrir a boca. Quem quer comer papinha com um avião se aproximando da sua boca,
  12. fazendo barulho?
  13. Pensando bem, nossa infância era cheia de surrealismo inconsciente, de ameaças e
  14. sentenças que só não nos paralisavam de medo ou perplexidade porque não pensávamos muito
  15. a respeito. Não me lembro de ficar muito impressionado com a informação de que eu só não
  16. perdia a cabeça porque ela estava presa no corpo, por exemplo. Hoje, sim, penso naquela terrível
  17. possível consequência da minha distração ir embora e deixar a cabeça em algum lugar! Ou,
  18. já que o cérebro estava na cabeça, pelo menos a maior parte, me dar conta de que meu corpo
  19. tinha me esquecido. Sem poder gritar, sem poder sequer assoviar, já que os pulmões tinham ido
  20. junto. Uma cabeça abandonada no mundo, incapaz de sequer se alimentar.
  21. A não ser, claro, que um aviãozinho surgisse, misteriosamente, do passado, carregado
  22. de papinha, para me salvar. Pulseira dourada Mais lembranças inúteis. Tinha eu meus 7 anos...
  23. Se você quiser parar por aqui, tudo bem. Não, não, nenhum constrangimento. Vá ler o resto do
  24. jornal, aqui você só estaria perdendo tempo. O que é isso? Eu entendo. Numa boa. Eu mesmo
  25. só fico porque preciso botar o ponto final. Mas tinha eu meus 7 anos e morávamos em Los
  26. Angeles. Meu pai lecionava na UCLA, eu e minha irmã frequentávamos uma escola perto de casa.
  27. E me apaixonei por uma menina da escola. Uma daquelas paixões dos 7 anos, terrível e, no meu
  28. caso, secreta e silenciosa. Os donos da casa que alugávamos tinham deixado uma bijuteria mal
  29. escondida atrás de uns livros, numa prateleira da sala. Uma pulseira dourada dentro de uma
  30. caixa. Um dia, tomei a decisão. Meu amor justificava tudo, até o crime. Peguei a pulseira e a
  31. levei, escondida, para a escola. Na saída, entreguei a caixa para ___ menina ― e saí correndo.
  32. Em casa nunca deram falta da pulseira. A menina nunca disse nada sobre o presente. Eu,
  33. obviamente, nunca mencionei o fato para ninguém, muito menos para a menina ― com quem,
  34. aliás, nunca troquei nem um tímido "hello". A história termina aqui. Eu avisei que você ia perder
  35. tempo. Mas ___ vezes penso naquela pulseira e imagino coisas. Chegar, um dia, nos Estados
  36. Unidos e alguém da imigração americana consultar um computador e dizer "Há a questão de
  37. certa pulseira dourada na Califórnia, Mr. Verissimo...". Estar assistindo ___ entrevista de alguma
  38. atriz famosa na TV e ela contar que um dia, quando tinha 7 anos, um garoto estranho lhe
  39. entregara uma pulseira e saíra correndo, e mostrar a pulseira dourada, que lhe dera sorte, que
  40. era responsável pelo seu sucesso, e que ela nunca pudera agradecer... Pelo menos minha vida
  41. de crimes acabou ali. Post scriptum tipo nada a ver com nada. Muitos anos depois visitei o bairro
  42. em que morávamos em Los Angeles e fui procurar a escola, palco do meu gesto tresloucado.
  43. Tinha sido destruída por um terremoto.


(Disponível em: Cultura Genial – https://www.culturagenial.com/cronicas-engracadas-de-luis-fernando-verissimo-comentadas/ – texto adaptado especialmente para esta prova).

Considerando o emprego do acento indicativo de crase, assinale a alternativa que preenche, correta e respectivamente, as lacunas das linhas 31, 35 e 37.
  1. Aà – às – à
  2. Bà – as – à
  3. Ca – às – à
  4. Da – às – a
  5. Eà – as – a
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a – às – à

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Crase em "aviãozinho" — Gabarito: letra C.

A sequência correta é a – às – à (letra C). A primeira lacuna exige apenas a preposição a (sem artigo, pois "menina" está em sentido genérico); a segunda exige às (preposição a + artigo as diante de "vezes", locução adverbial feminina plural); a terceira exige à (preposição a + artigo a diante de "entrevista", palavra feminina determinada). A resposta se prova pela regência e pela presença/ausência do artigo em cada trecho do texto.

Como resolver com método

A crase é a fusão da preposição a com o artigo feminino a(s) ou com o a inicial de pronomes demonstrativos/relativos. Para cada lacuna, o caminho é: (1) identificar se o termo anterior exige a preposição a; (2) verificar se o termo seguinte admite o artigo feminino a/as. Se os dois existirem, há crase; se faltar um, não há.

Vamos aplicar isso às três lacunas do texto:

"Na saída, entreguei a caixa para ___ menina ― e saí correndo."

O verbo entregar é transitivo direto e indireto: entrega-se algo a alguém. A preposição a é exigida. Mas a palavra "menina" está usada em sentido indeterminado — o narrador não diz qual menina, apenas "uma menina" da escola. Sem o artigo definido, não há crase. Por isso: a (só preposição).

"Mas ___ vezes penso naquela pulseira e imagino coisas."

A expressão "às vezes" é uma locução adverbial feminina plural consagrada: preposição a + artigo as = às. É crase obrigatória, como em "às pressas", "às claras", "às escondidas".

"Estar assistindo ___ entrevista de alguma atriz famosa na TV..."

O verbo assistir, no sentido de ver/presenciar, é transitivo indireto e exige a preposição a. A palavra "entrevista" é feminina e está determinada ("a entrevista de alguma atriz famosa"), admitindo o artigo a. Preposição + artigo = à.

Alternativa A — ❌ Incorreta

à – às – à — Erra na primeira lacuna: coloca crase onde não há artigo. "Entreguei a caixa à menina" só seria correto se "menina" estivesse determinada (ex.: "à menina da escola"). No texto, o sentido é genérico, então só a preposição a.

Alternativa B — ❌ Incorreta

à – as – à — Erra na primeira (mesmo problema da A) e na segunda: "as vezes" sem crase é incorreto, pois "às vezes" é locução adverbial fixa com crase obrigatória.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

a – às – à — Sequência exata: preposição sem artigo (1ª), locução adverbial com crase (2ª), preposição + artigo (3ª).

Alternativa D — ❌ Incorreta

a – às – a — Erra na terceira lacuna: "assistindo a entrevista" sem crase daria a entender que "entrevista" é objeto direto (sentido de "ajudar"), mas o contexto é de ver a entrevista, o que exige a preposição a + artigo a = à.

Alternativa E — ❌ Incorreta

à – as – a — Erra nas três: primeira com crase indevida, segunda sem crase na locução, terceira sem crase no verbo assistir (sentido de ver).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o sentido genérico (sem artigo → sem crase) e o sentido determinado (com artigo → com crase), além de testar se você conhece a locução fixa "às vezes" e a regência do verbo assistir.

PEGA ESSA DICA!

Antes de marcar, faça o teste do artigo: troque a palavra feminina por uma masculina. Se aparecer "ao", há crase; se aparecer só "o", não há. Ex.: "entreguei a caixa ao menino" (sem crase) vs. "assistindo ao programa" (com crase).

Gabarito: letra C.

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