Questão de Português — Interpretação de Textos — IF-PA 2022
PortuguêsInterpretação de Textos
- Código
- qq759963
- Banca
- IF-PA
- Órgão
- IF-PA
- Ano
- 2022
- Nível
- Superior
- Cargo
- Professor EBTT - Língua Portuguesa
Leia o poema “Pai João”, de Bruno de Menezes (1993, p. 223, 224), para fazer a questão que se segue.Pai João sonolento e bambo na pachorra da idadecisma no tempo de ontem.De olhos vendo o passado recorda o veteranoa vida brasileira que êle viu e gosou e viveu!Mãe Maria contou que o pai dele era escravo...Moleque sagica e teso, destro e afoito num rôlo,Pai João teve fama da capoeira e navalhista.Êita!... Era o pé comendo,quando a banda marcial saía à rua,com tanto soldado de calça encarnada.E rabo-de-arraia, cabeçada na polícia,xadrez, desordens, furdunço no cortiçoe o ronco e o retumbo do zonzo som molengo do carimbó:“JuvenáJuvená!Arrebateesta facaJuvená!Arrebateesta facaJuvená!”De amores... uma anagua de renda engomada,um cabeção pulando nos bicos duns peitos,umas sandalias brancas bem na pontinha dum pé.E o rebolo bolinante dos quartos roliços da Chica Cheirosa...E a guerra do Paraguai! Recrutamento!Gurjão! Osório! Duque de Caxias!Itororó! Tuiutí! Laguna!E não sabia nem o que era monarquia!... Agora, sonolento e bambo,tendo em capuchos a trunfa,Pai João ao recordar a vida brasileira,que êle viu e gosou e viveu,diz do Brasil de ontem:Ah! Meu tempo!...O texto de Bruno de Menezes faz alguns recortes da vida de Pai João, que também é título do poema pertencente à obra Batuque, publicada a primeira vez em 1931 e cuja grafia está de acordo com a edição de 1993, conforme o original. Observe o verso 21: “E não sabia nem o que era monarquia!”, o qual marca uma mudança no tom ameno do poema. Levandose em conta a importância desse verso, o que se pode afirmar acerca do poema como um todo é que:
- AAntes apenas mostrou-se o lado alegre da vida de Pai João, com o ritmo dançante do carimbó (e do refrão que evoca o capoeirista “Juvená”), do tempo de confusão e capoeira (jogo, brincadeira e luta ao mesmo tempo) e agora a realidade traz um homem já envelhecido e profundamente infeliz.
- BPai João é de um tempo que não existe mais, em que a capoeira era mal vista por todos (apenas como luta de marginais e não como resistência) e sua personalidade “sagica” não se vergava ao sistema herdeiro da escravidão que mandava apenas negros para lutarem em uma guerra que não lhes pertencia.
- CExpõe um Pai João melancólico e moribundo, reduzido a quase nada, que se ressente de um passado perdido para sempre e de não ter aproveitado tanto a vida, hoje encontrando-se numa situação trágica à beira da morte.
- DA juventude, força e destreza do homem de ontem não combinam com o presente de lentidão de quem se vê imerso nas lembranças que não o deixam esquecer-se de quando era feliz a lutar na guerra do Paraguai, junto com seus companheiros de capoeira e navalha.
- EMesmo despolitizados – situação de praticamente todos os negros e descendentes de africanos –, principalmente pela falta de escolaridade, jovens como o Pai João de muito tempo atrás eram forçados a ir lutar na guerra.