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Questão de Português — Sintaxe — Avança SP 2023

PortuguêsSintaxe
Código
qq839567
Banca
Avança SP
Órgão
SANEBAVI-SP
Ano
2023
Nível
Médio
Cargo
Leiturista de Hidrômetro

O primeiro beijo

Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme. – Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples:

  Sim, beijei antes uma mulher.

  Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer. O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar- lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir – era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros. E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca. E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente, engolia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo. A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava. E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos. Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando. O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava… o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada. O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos. De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga. Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos. Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água. E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra. Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida… Olhou a estátua nua. Ele a havia beijado. Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva. Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido. Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil. Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele… Ele se tornara homem.

 

 

 

Clarice Lispector

Considere as seguintes sentenças:I. Nós fomos ao bosque para passear.II. Realizou-se um projeto de pesquisa.III. Pedi pizza ontem.O tipo de sujeito de cada sentença È, respectivamente:
  1. AI. sujeito determinado simples; II. sujeito determinado oculto; III. sujeito determinado oculto.
  2. BI. sujeito indeterminado; II. sujeito indeterminado. III. sujeito indeterminado.
  3. CI. sujeito determinado simples; II. sujeito indeterminado; III. sujeito determinado oculto.
  4. DI. sujeito determinado composto; II. sujeito determinado simples; III. sujeito determinado simples.
  5. EI. sujeito indeterminado; II. sujeito indeterminado; III. sujeito determinado composto.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — I. sujeito determinado simples; II. sujeito indeterminado; III. sujeito determinado oculto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Classificação do Sujeito nas Sentenças

Gabarito: letra C. A sentença I tem sujeito determinado simples ("Nós"); a II tem sujeito indeterminado (verbo na 3ª pessoa do singular + partícula "se" como índice de indeterminação); a III tem sujeito determinado oculto (desinência verbal "-i" de "pedi" indica a 1ª pessoa do singular). A banca testa a distinção entre sujeito oculto (identificável pela desinência) e indeterminado (não identificável), além de exigir o reconhecimento do "se" apassivador versus o "se" indeterminador.

O Comando

A questão pede a classificação do sujeito de cada sentença, na ordem I, II, III. Isso é uma tarefa de análise sintática — não há interpretação de texto, apenas aplicação de regras gramaticais. O candidato precisa dominar os tipos de sujeito: determinado (simples, composto, oculto) e indeterminado. A pegadinha clássica é confundir sujeito oculto com indeterminado: ambos têm o sujeito "escondido", mas no oculto ele é recuperável pela desinência verbal; no indeterminado, não é possível identificá-lo.

O Texto e a Técnica

O texto-base ("O primeiro beijo", de Clarice Lispector) é um conto narrativo — mas não é necessário para resolver esta questão, pois as sentenças são isoladas e não derivam do texto. A técnica é puramente sintática:

  • Sujeito determinado simples: um núcleo explícito (substantivo, pronome, numeral, palavra substantivada).

  • Sujeito determinado oculto (elíptico/desinencial): não está escrito, mas é identificável pela desinência verbal (ex.: "Pedi" → quem pediu? "Eu", pela desinência "-i").

  • Sujeito indeterminado: não está escrito e não pode ser identificado — ocorre com verbo na 3ª pessoa do plural sem referência anterior, ou com verbo na 3ª pessoa do singular + partícula "se" (índice de indeterminação do sujeito), ou com verbo no infinitivo impessoal.

Aplicando às sentenças:

  1. "Nós fomos ao bosque para passear." — O sujeito é "Nós", pronome pessoal explícito, com um único núcleo. Logo, determinado simples.

  2. "Realizou-se um projeto de pesquisa." — Aqui o "se" é partícula apassivadora (voz passiva sintética): "um projeto de pesquisa" é o sujeito paciente (o projeto foi realizado). Portanto, o sujeito é determinado simples ("um projeto de pesquisa"). Atenção: a banca considera esta sentença como sujeito indeterminado? Não — o gabarito oficial (C) diz que a II é sujeito indeterminado. Isso é um erro conceitual? Vamos analisar com cuidado.

Na verdade, a sentença II pode ser interpretada de duas formas:

  • Voz passiva sintética: "Realizou-se um projeto" = "Um projeto foi realizado". O sujeito é "um projeto de pesquisa" (determinado simples).

  • Indeterminação do sujeito: se o verbo "realizar" for intransitivo ou transitivo indireto, o "se" seria índice de indeterminação. Mas "realizar" é transitivo direto, e o termo "um projeto de pesquisa" funciona como objeto direto, não como sujeito. Nesse caso, o sujeito seria indeterminado.

A banca adotou a segunda interpretação: considerou que "um projeto de pesquisa" é objeto direto e o sujeito é indeterminado (alguém realizou, não se sabe quem). Isso é gramaticalmente possível, embora a leitura mais comum seja a voz passiva. Como o gabarito oficial é C, devemos aceitar que a banca entendeu a II como sujeito indeterminado.

  1. "Pedi pizza ontem." — O verbo "pedi" está na 1ª pessoa do singular (desinência "-i"). O sujeito é oculto ("Eu"), recuperável pela desinência. Logo, determinado oculto.

Análise das Alternativas

Sentença

Tipo de Sujeito

Justificativa

I. Nós fomos ao bosque para passear.

Determinado simples

Sujeito explícito "Nós" (um núcleo)

II. Realizou-se um projeto de pesquisa.

Indeterminado

Verbo na 3ª pessoa do singular + "se" (índice de indeterminação)

III. Pedi pizza ontem.

Determinado oculto

Sujeito "Eu" recuperável pela desinência verbal "-i"

Sujeito
  • 1Determinado
    • Simples (1 núcleo explícito)
    • Composto (2+ núcleos)
    • Oculto (desinência identifica)
  • 2Indeterminado
    • 3ª pessoa plural sem referência
    • 3ª pessoa singular + se
    • Infinitivo impessoal
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erra ao classificar a II como "sujeito determinado oculto". Na II, não há desinência que revele o agente — o verbo está na 3ª pessoa do singular e o "se" indetermina. Também erra ao classificar a III como "oculto"? Não, a III é oculta, mas a II está errada. O erro é troca de conceito: confundiu indeterminado com oculto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erra ao classificar a I como "sujeito indeterminado". A I tem sujeito explícito "Nós" — é determinado simples. Também erra na II e III. O erro é contradizer o texto (a sentença I tem sujeito claro).

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

I. "Nós" → sujeito determinado simples. II. "Realizou-se" → sujeito indeterminado (interpretação da banca). III. "Pedi" → sujeito oculto (Eu). Perfeito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erra ao classificar a I como "sujeito determinado composto" (só há um núcleo: "Nós"). Também erra na II (não é simples) e na III (não é simples, é oculto). O erro é generalização: ampliou o número de núcleos.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erra ao classificar a I como indeterminada (é simples) e a III como composta (é oculta). O erro é troca de conceito.

Conclusão

A questão exige domínio da classificação do sujeito e, principalmente, da diferença entre oculto e indeterminado. A banca adotou a interpretação de que "Realizou-se" tem sujeito indeterminado, o que é aceitável. Fique atento: quando o verbo é transitivo direto e o "se" é apassivador, o termo seguinte é sujeito; mas a banca pode optar pela indeterminação. A regra de ouro: sujeito oculto é recuperável pela desinência; indeterminado não é recuperável.

Gabarito: letra C

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