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Questão de Português — Variação Linguística — Avança SP 2023

PortuguêsVariação Linguística
Código
qq839706
Banca
Avança SP
Órgão
SANEBAVI-SP
Ano
2023
Nível
Médio
Cargo
Técnico de Segurança do Trabalho

Papos


- Me disseram...

- Disseram-me.

- Hein?

- O correto é “disseram-me”. Não “me disseram”.

- Eu falo como quero. E te digo mais... Ou é “digo-te”?

- O quê?

- Digo-te que você...

- O “te” e o “você” não combinam.

- Lhe digo?

- Também não. O que você ia me dizer?

- Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?

- Partir-te a cara.

- Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.

- É para o seu bem.

- Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mais uma correção e eu...

- O quê?

- O mato.

- Que mato?

- Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?

- Eu só estava querendo…

- Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo é elitismo!

- Se você prefere falar errado...

- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?

- No caso... não sei.

- Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?

- Esquece.

- Não. Como “esquece”? Você prefere falar errado? E o certo é "esquece" ou “esqueça”? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.

- Depende.

- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-loias se o soubesses, mas não sabes-o.

- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.

- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que me dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.

- Por quê?

- Porque, com todo este papo, esqueci-lo.


Luis Fernando Verissimo. Comédias para se ler na escola. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.

A situação retratada no texto, de correções sobre a fala de uma das personagens, demonstra uma atribuição de valores à forma culta da linguagem, em detrimento da forma coloquial. Tal atribuição é evidenciada no trecho:
  1. A“Se você prefere falar errado…”
  2. B“Fale como quiser.”
  3. C“Que você está sendo grosseiro, pedante e chato.”
  4. D“Falo como bem entender.”
  5. EE) “E te digo mais... Ou é “digo-te”?”
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GabaritoA — “Se você prefere falar errado…”

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Atribuição de valor à norma culta: a fala do personagem que corrige

Gabarito: letra A. A atribuição de valor à forma culta, em detrimento da coloquial, está na fala “Se você prefere falar errado…”, proferida pelo personagem que corrige o outro. O trecho evidencia o juízo de valor negativo sobre a variedade coloquial, tratando-a como “errada” — exatamente o que caracteriza o preconceito linguístico.

O comando pede que você identifique o trecho que demonstra a atribuição de valores à forma culta. Isso é uma questão de compreensão literal: basta localizar a passagem em que um personagem expressa essa valoração. Não se trata de inferir nada além do texto, mas de reconhecer a fala que carrega o julgamento.

No diálogo, há dois personagens: um que corrige obsessivamente a fala do outro (o “pedante”) e um que reage, defendendo seu direito de falar como quiser. A valoração da norma culta está nas falas do primeiro, que insiste em corrigir e classifica a fala coloquial como “errada”. A alternativa A reproduz exatamente essa fala: “Se você prefere falar errado…” — o adjetivo “errado” é a marca do juízo de valor.

“Se você prefere falar errado...”

Aqui, o personagem que corrige não apenas aponta uma suposta inadequação, mas rotula a variedade do outro como “errada”, o que revela a hierarquização entre as formas culta e coloquial. É a evidência mais direta da atribuição de valor à norma culta.

As demais alternativas ou são falas do personagem que defende o coloquial (e, portanto, não atribuem valor à norma culta), ou são neutras, sem juízo de valor.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A fala “Se você prefere falar errado…” é do personagem que corrige e expressa claramente o julgamento de que a forma coloquial é “errada”. Isso é a atribuição de valor à norma culta — o que o enunciado pede.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Fale como quiser.” — Esta fala é do personagem que corrige, mas cede ao final do diálogo, permitindo que o outro fale como quiser. Não há atribuição de valor à norma culta; ao contrário, é uma concessão que abre mão da correção. Erro: contradiz o texto (a fala não demonstra a valoração, mas a desistência dela).

Alternativa C — ❌ Incorreta

“Que você está sendo grosseiro, pedante e chato.” — Esta fala é do personagem que fala coloquialmente, criticando o outro por suas correções. Não atribui valor à norma culta; expressa revolta contra o comportamento do corretor. Erro: fuga ao tema (fala do comportamento, não da língua).

Alternativa D — ❌ Incorreta

“Falo como bem entender.” — Esta fala é do personagem que defende o coloquial, afirmando seu direito de falar como quiser. É uma defesa da variação, não uma atribuição de valor à norma culta. Erro: contradiz o texto (a fala valoriza a liberdade de expressão, não a norma culta).

Alternativa E — ❌ Incorreta

“E te digo mais... Ou é “digo-te”?” — Esta fala é do personagem que fala coloquialmente, mas ironiza as correções, questionando a forma correta. Não atribui valor à norma culta; ao contrário, zomba da obsessão pela correção. Erro: fuga ao tema (a fala é irônica, não valorativa).

NÃO CAIA NESSA!

A banca coloca falas do personagem que defende o coloquial (B, C, D, E) como se fossem exemplos de valorização da norma culta. A única fala que realmente atribui valor à norma culta é a do personagem que corrige, na letra A.

PEGA ESSA DICA!

Identifique quem fala e o que a fala expressa. A valoração da norma culta está nas falas do personagem que corrige, não nas do que defende o coloquial.

Gabarito: letra A.

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