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Questão de Português — Figuras de Linguagem — Avança SP 2023

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
qq840322
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Louveira - SP
Ano
2023
Nível
Médio
Um apólogo

Era uma vez uma agulha, que disse a um novelo de linha:

– Por que est· você com esse ar, toda cheia de si, toda enrolada, para fingir que vale alguma coisa neste mundo?

– Deixe-me, senhora.

– Que a deixe? Que a deixe, por quê? Porque lhe digo que est· com um ar insuportável? Repito que sim, e falarei sempre que me der na cabeça.

– Que cabeça, senhora? A senhora não é alfinete, é agulha. Agulha não tem cabeça. Que lhe importa o meu ar? Cada qual tem o ar que Deus lhe deu. Importe-se com a sua vida e deixe a dos outros.

– Mas você é orgulhosa.

– Decerto que sou.

– Mas por quê?

– É boa! Porque coso. Então os vestidos e enfeites de nossa ama, quem é que os cose, senão eu?

– Você? Esta agora é melhor. Você é que os cose? Você ignora que quem os cose sou eu, e muito eu?

– Você fura o pano, nada mais; eu é que coso, prendo um pedaço ao outro, dou feição aos babados...

– Sim, mas que vale isso? Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando...

– Também os batedores vão adiante do imperador.

– Você é imperador?

– Não digo isso. Mas a verdade é que você faz um papel subalterno, indo adiante; vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo. Eu é que prendo, ligo, ajunto... Estavam nisto, quando a costureira chegou à casa da baronesa. Não sei se disse que isto se passava em casa de uma baronesa, que tinha a modista ao pé de si, para não andar atrás dela. Chegou a costureira, pegou do pano, pegou da agulha, pegou da linha, enfiou a linha na agulha, e entrou a coser. Uma e outra iam andando orgulhosas, pelo pano adiante, que era a melhor das sedas, entre os dedos da costureira, ágeis como os galgos de Diana – para dar a isto uma cor poética.

E dizia a agulha: 

– Então, senhora linha, ainda teima no que dizia h· pouco? Não repara que esta distinta costureira só se importa comigo; eu È que vou aqui entre os dedos dela, unidinha a eles, furando abaixo e acima...

A linha não respondia; ia andando. Buraco aberto pela agulha era logo enchido por ela, silenciosa e ativa, como quem sabe o que faz, e não está para ouvir palavras loucas. A agulha, vendo que ela não lhe dava resposta, calou-se também, e foi andando. E era tudo silêncio na saleta de costura; não se ouvia mais que o plic-plic-plic-plic da agulha no pano. Caindo o sol, a costureira dobrou a costura, para o dia seguinte; continuou ainda nessa e no outro, até que no quarto acabou a obra, e ficou esperando o baile. Veio a noite do baile, e a baronesa vestiu-se. A costureira, que a ajudou a vestir-se, levava a agulha espetada no corpinho, para dar algum ponto necessário. E enquanto compunha o vestido da bela dama, e puxava de um lado ou outro, arregaçava daqui ou dali, alisando, abotoando, acolchetando, a linha para mofar da agulha, perguntou-lhe:

– Ora, agora, diga-me, quem é que vai ao baile, no corpo da baronesa, fazendo parte do vestido e da elegância? Quem é que vai dançar com ministros e diplomatas, enquanto você volta para a caixinha da costureira, antes de ir para o balaio das mucamas? Vamos, diga lá.

Parece que a agulha não disse nada; mas um alfinete, de cabeça grande e não menor experiência, murmurou à pobre agulha:

– Anda, aprende, tola. Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida, enquanto aí ficas na caixinha de costura. Faze como eu, que não abro caminho para ninguém.

Onde me espetam, fico.

Contei esta história a um professor de melancolia, que me disse, abanando a cabeça:

– Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!

Machado de Assis
No trecho "Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!", o personagem se utiliza da metáfora para dizer que:
  1. Atambém está acostumado a abrir caminhos para outras pessoas.
  2. Bé irônico e costuma "cutucar" pessoas em interações.
  3. Cé melhor que outras pessoas.
  4. Dé uma pessoa má.
  5. Eé uma pessoa dedicada ao trabalho.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — também está acostumado a abrir caminhos para outras pessoas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Metáfora em "servido de agulha a muita linha ordinária"

Gabarito: letra A. O personagem, ao dizer "Também eu tenho servido de agulha a muita linha ordinária!", usa a metáfora da agulha para afirmar que também está acostumado a abrir caminhos para outras pessoas. A metáfora se sustenta na função da agulha no texto: ela "vai adiante, puxando por você", "vai só mostrando o caminho", "fazendo o trabalho obscuro e ínfimo" — ou seja, abrir caminho para a linha, que vem atrás e aproveita o trabalho. O professor de melancolia se identifica com esse papel: ele também serviu de instrumento para que outros (as "linhas ordinárias") seguissem adiante e colhessem os frutos.

O comando pede que se interprete a metáfora — uma figura de linguagem em que uma palavra/expressão é usada em lugar de outra por uma relação de semelhança implícita, sem conectivo comparativo. Aqui, "servir de agulha" não significa literalmente ser uma agulha de costura, mas sim desempenhar a função que a agulha exerce na narrativa: ir à frente, abrir o caminho (furar o pano) para que a linha passe e realize o trabalho visível. A resposta correta é a que traduz essa função em termos humanos.

A chave para resolver está em retomar o que a agulha faz no texto e transpor essa ação para o contexto do personagem. Vejamos as passagens que definem o papel da agulha:

"Eu é que furo o pano, vou adiante, puxando por você, que vem atrás, obedecendo ao que eu faço e mando..."

"vai só mostrando o caminho, vai fazendo o trabalho obscuro e ínfimo"

A agulha é quem abre caminho, quem vai à frente, quem faz o trabalho de base para que a linha — que vem atrás — possa cumprir sua função de "coser" e, ao final, ir ao baile no corpo da baronesa, gozando do reconhecimento e da elegância. O alfinete resume isso:

"Cansas-te em abrir caminho para ela e ela é que vai gozar da vida"

O professor de melancolia, ao dizer que "também" serviu de agulha, se coloca exatamente nessa posição: a de quem abriu caminhos para outros, sem usufruir dos resultados. A alternativa A é a única que captura esse sentido.

1O que a agulha faz
Vai adiante
Abre caminho (fura o pano)
Mostra o caminho
Trabalho obscuro e ínfimo
2O que a linha faz
Vem atrás
Aproveita o caminho
Vai ao baile (goza da vida)
3Sentido no personagem
Serviu de agulha
Abriu caminho para outros
Metáfora da agulha
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Metáfora da agulha: O que a agulha faz (Vai adiante, Abre caminho (fura o pano), Mostra o caminho, Trabalho obscuro e ínfimo); O que a linha faz (Vem atrás, Aproveita o caminho, Vai ao baile (goza da vida)); Sentido no personagem (Serviu de agulha, Abriu caminho para outros)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A — "também está acostumado a abrir caminhos para outras pessoas" — é a paráfrase fiel da metáfora. O texto define a agulha como aquela que "vai adiante", "vai só mostrando o caminho", "fazendo o trabalho obscuro e ínfimo", enquanto a linha "vem atrás" e "vai gozar da vida". O professor, ao dizer que serviu de agulha, afirma que repetiu esse papel: abriu caminho para que outras pessoas (as "linhas ordinárias") seguissem e aproveitassem. Não há acréscimo de informação: a transposição é direta da função da agulha para a experiência do personagem.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B — "é irônico e costuma 'cutucar' pessoas em interações" — tangencia o tema ao explorar o sentido literal de "agulha" (objeto que fura/cutuca) e o tom irônico do conto, mas não corresponde ao que a metáfora significa. O personagem não diz que "cutuca" pessoas; diz que serviu de agulha, ou seja, que abriu caminho para outros. A ironia pode existir no conto, mas não é o sentido da metáfora em questão. A alternativa troca a função de "abrir caminho" pela ação de "cutucar", que não está autorizada pelo texto.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa C — "é melhor que outras pessoas" — extrapola o texto. Em nenhum momento o personagem afirma ser superior a alguém. Ele apenas se compara à agulha, que tem um papel de abrir caminho, mas isso não implica juízo de valor sobre ser "melhor". A metáfora descreve uma função, não uma hierarquia moral. Atribuir superioridade ao personagem é acrescentar uma opinião que o texto não sustenta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D — "é uma pessoa má" — é uma extrapolação ainda mais grave. O texto não apresenta o personagem como mau; ele apenas se identifica com o papel da agulha, que é neutro (abrir caminho). Não há qualquer elemento que autorize um juízo negativo sobre o caráter do professor de melancolia. A alternativa contradiz o tom do conto, que é reflexivo e melancólico, não de maldade.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E — "é uma pessoa dedicada ao trabalho" — tangencia o tema ao falar de dedicação, mas não captura o sentido específico da metáfora. O texto não diz que o personagem é dedicado; diz que ele serviu de agulha, ou seja, que abriu caminho para outros. A dedicação pode ser uma qualidade implícita, mas não é o que a metáfora comunica. A alternativa restringe o sentido ao trocar a função de "abrir caminho" por uma característica genérica de "dedicação ao trabalho".

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora o sentido literal de "agulha" (objeto que fura) e o tom irônico do conto para atrair o candidato às alternativas B e C. A chave é não se prender ao objeto, mas à função que ele exerce na narrativa: abrir caminho para a linha. Quem identifica essa função no texto resolve a questão sem cair nas armadilhas.

PEGA ESSA DICA!

Ao interpretar uma metáfora, pergunte: "o que o elemento comparado FAZ no texto?" A resposta estará na ação, não no objeto em si. A agulha não é apenas um objeto que fura; ela é quem vai à frente e abre o caminho.

Gabarito: letra A — a única alternativa que traduz a metáfora da agulha como "abrir caminhos para outras pessoas", exatamente o papel que o personagem diz ter desempenhado.

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