Questão de Português — Gêneros Textuais — Avança SP 2023
Português›Gêneros Textuais
Código
qq840349
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de Louveira - SP
Ano
2023
Nível
Superior
Menino de Lapedo: o esqueleto que reforça
teoria de que neandertais e humanos
cruzaram
No Lagar Velho, no vale do Lapedo, a cerca de
150 km de Lisboa, foi descoberto em 1998 o
esqueleto conhecido como menino de Lapedo.
Com cerca de 4 anos, foi enterrado nesse local
em Portugal há cerca de 29 mil anos. Algo
diferente em seu corpo chamou a atenção dos
arqueólogos que começaram a escavar o local.
“Havia algo estranho na anatomia da criança.
Quando encontramos a mandíbula, sabíamos que
seria um humano moderno, mas quando
expusemos o esqueleto completo (...) vimos que
tinha as proporções corporais de um Neandertal”,
explicou à BBC João Zilhão, arqueólogo e líder
da equipe que trabalhou na descoberta. “A única
coisa que poderia explicar essa combinação de
características é que a criança era, de fato,
evidência de que os neandertais e os humanos
modernos se cruzaram.”
Esqueleto quase intacto
A comunidade à qual o menino pertencia era de
caçadores-coletores e de natureza nômade.
Conforme explicou à BBC Reel a arqueóloga
Ana Cristina Araújo, quando o menino morreu, o
grupo cavou um buraco no chão, queimou um
galho de pinheiro e depositou seu corpo envolto
em uma mortalha tingida de ocre sobre as cinzas.
“Não sabemos (com certeza) se era menino ou
menina, mas há indícios de que era menino.”
Sobre a causa da morte, a arqueóloga diz que não
há pistas que apontem para uma doença ou
queda. Portanto, é possível imaginar uma
diversidade de cenários. “O menino pode ter
comido um cogumelo venenoso ou pode ter se
afogado.” Seu corpo permaneceu enterrado por
milênios até que, em 1998, foi descoberto por
acaso e estava com o esqueleto quase intacto
quando os donos do terreno começaram a escavar
para construir uma série de estruturas em
terraços. Depois de transferido para o Museu
Nacional de Lisboa, começaram a estudá-lo
detalhadamente. “Os ossos das pernas eram mais
curtos do que o normal para uma criança da idade
dele. Como as pernas poderiam parecer de um
neandertal? Alguns dentes também pareciam de
um neandertal, enquanto outros pareciam de um
humano moderno. Como explicar isso?”,
questionou Zilhão. Os pesquisadores lidaram
com duas hipóteses. Uma delas era que a criança
era o resultado de um cruzamento entre um
neandertal e um humano moderno. Zilhão,
porém, não se convenceu disso. Se esse foi um
evento único, raro e esporádico, a possibilidade
de encontrá-lo 30 mil anos depois era quase
impossível. A segunda hipótese sugeria que os
neandertais e os sapiens mantinham relações
sexuais regulares entre si. “Sabíamos que na
Península Ibérica o momento do contato (entre os
dois) foi (...) há cerca de 37 mil anos. Se o
esqueleto pertencesse a essa época, a primeira
teoria poderia funcionar. Mas se o menino era de
um período muito mais tardio, as implicações
tinham que ser que estávamos olhando para um
processo em nível populacional, não um encontro
casual entre dois indivíduos”, diz Zilhão. A
datação por radiocarbono resolveu a questão: a
criança de Lapedo tinha 29 mil anos. “Se tantos
milênios após o tempo de contato, as pessoas que
vivem nesta parte do mundo ainda apresentam
evidências anatômicas dessa população ancestral
de neandertais, deve ser porque o cruzamento
não aconteceu apenas uma vez, foi a norma”,
apontou o arqueólogo. A força das evidências
encontradas pela equipe em Portugal fez com que
outros especialistas tivessem que considerar
seriamente essa hipótese. Graças a essa
descoberta, houve uma mudança em nossa
compreensão dos neandertais como espécie. A
pesquisa dá a entender que os neandertais não são
uma espécie diferente. “Nós superinterpretamos
pequenas diferenças no esqueleto facial ou na
robustez do esqueleto”, diz Zilhão. Outras
descobertas de fósseis feitas posteriormente com
características semelhantes às do menino de
Lapedo deram mais peso à teoria do cruzamento,
que mais tarde foi reforçada quando os
pesquisadores sequenciaram todo o genoma
neandertal. É assim que sabemos que é possível
que europeus e asiáticos tenham até 4% de DNA
neandertal. “Isso não quer dizer que em cada um
de nós 2% ou 4% seja (neandertal). Na verdade,
se você juntar todas as partes do genoma
neandertal que ainda persistem, isso é quase 50%
ou 70% do que era especificamente neandertal.
Portanto, o genoma neandertal persistiu quase em sua totalidade”, explica o pesquisador. Esse
conhecimento “enriquece a nossa compreensão
da evolução humana”, diz Zilhão, em vez de
“pensar que apenas descendemos de uma
população muito pequena que viveu em algum
lugar da África há 250 mil anos e que todo o resto
das pessoas que viveram nessa época
simplesmente desapareceram.”
BBC News
Os textos jornalísticos apresentam como característica central:
Aa exposição de acontecimentos de forma impessoal.
Ba argumentação a favor de um ponto de vista pessoal do autor..
Ca narração de acontecimentos fictícios.
Da escrita marcada por metáforas e figuras de linguagem.
Eo uso de elementos característicos da oralidade.
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GabaritoA — a exposição de acontecimentos de forma impessoal.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Gêneros Jornalísticos: Impessoalidade como Característica Central
Gabarito: letra A. Os textos jornalísticos têm como característica central a exposição de acontecimentos de forma impessoal, ou seja, o foco está no fato noticiado, e não nas opiniões pessoais do autor. Essa impessoalidade se manifesta no texto-base pelo uso predominante da terceira pessoa e pela apresentação de dados e citações de especialistas (como João Zilhão e Ana Cristina Araújo) para sustentar a informação, em vez de um ponto de vista subjetivo do repórter.
O comando da questão é direto: pede a característica central dos textos jornalísticos. Isso não exige uma inferência complexa, mas o reconhecimento de uma propriedade definidora do gênero. A banca não quer que você analise o texto em si, mas que identifique qual traço é intrínseco e predominante no jornalismo. É uma questão de conhecimento sobre o gênero textual, aplicado ao exemplo dado.
O texto-base é uma reportagem da BBC News. Observe como ele é construído: o narrador apresenta os fatos (a descoberta do esqueleto, as hipóteses, a datação) e, para dar credibilidade, cede a palavra a especialistas por meio de citações diretas: “explicou à BBC João Zilhão”, “Conforme explicou à BBC Reel a arqueóloga Ana Cristina Araújo”. O jornalista não diz “eu acho que os neandertais cruzaram com humanos”; ele reporta o que a ciência descobriu e o que os pesquisadores afirmam. Essa é a essência da impessoalidade jornalística: o autor se apaga para que o fato e as fontes falem por si. A função da linguagem predominante é a referencial, centrada no contexto e na informação objetiva.
A armadilha central desta questão é a confusão entre gêneros textuais. O texto jornalístico informativo (notícia, reportagem) é dissertativo-expositivo: expõe, informa, explica. Já o texto dissertativo-argumentativo (artigo de opinião, editorial) é que defende um ponto de vista. A banca explora exatamente essa distinção: o candidato que não a domina pode marcar a letra B, achando que todo texto que discute um tema é argumentativo. Mas a reportagem não tem a intenção de convencer o leitor sobre a teoria do cruzamento; ela apenas informa sobre a descoberta e as evidências, mantendo a neutralidade.
NÃO CAIA NESSA!
A banca aposta na confusão entre reportagem (expositiva, impessoal) e artigo de opinião (argumentativo, pessoal). A letra B parece plausível porque o texto fala de uma teoria, mas o autor não a defende — ele a reporta.
Texto jornalístico informativo: Finalidade (Informar, Expor fatos reais); Característica central (Impessoalidade, Função referencial, Autor como mediador); Recursos (Terceira pessoa, Citações de especialistas, Dados objetivos); Confusões comuns (Artigo de opinião (argumentativo), Gêneros literários (ficção), Oralidade (entrevista/crônica))
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A impessoalidade é a marca registrada do jornalismo informativo. O texto-base comprova isso ao não expressar a opinião do repórter e ao se apoiar em fontes especializadas e em dados objetivos (datas, locais, nomes). Veja como a informação é apresentada de forma neutra:
“No Lagar Velho, no vale do Lapedo, a cerca de 150 km de Lisboa, foi descoberto em 1998 o esqueleto conhecido como menino de Lapedo.”
Aqui, o jornalista apenas constata o fato. Quando há uma interpretação, ela é atribuída a uma fonte, não ao autor: “A única coisa que poderia explicar essa combinação de características é que a criança era, de fato, evidência de que os neandertais e os humanos modernos se cruzaram”, explicou à BBC João Zilhão. O repórter não diz “eu acredito que...”; ele diz “o arqueólogo explicou que...”. Essa é a impessoalidade em ação: o autor é um mediador entre o fato e o leitor, não um opinador.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto e o gênero. A alternativa afirma que o texto jornalístico tem como característica central a argumentação a favor de um ponto de vista pessoal do autor. Isso é típico do artigo de opinião ou editorial, não da reportagem. No texto-base, o autor não defende a teoria do cruzamento; ele a apresenta como uma hipótese científica, apoiada em evidências e na fala de especialistas. A opinião, quando aparece, é de terceiros (Zilhão, Araújo), nunca do jornalista. A reportagem busca a objetividade, não a persuasão.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro: contradiz o texto e o gênero. O texto jornalístico informativo narra fatos reais, não fictícios. O texto-base é uma reportagem sobre uma descoberta arqueológica real, com datas, locais e nomes de pesquisadores. A narração de acontecimentos fictícios é característica de gêneros literários (conto, romance, fábula). A notícia e a reportagem têm compromisso com a verdade factual.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro: generalização indevida. Embora a linguagem figurada possa aparecer em alguns textos jornalísticos (como em crônicas ou em manchetes mais criativas), ela não é a característica central do gênero. A reportagem, em especial, busca a clareza e a objetividade, evitando o excesso de figuras que possam comprometer a precisão da informação. O texto-base, por exemplo, é sóbrio e direto, sem metáforas ou construções poéticas. A alternativa restringe o jornalismo a um recurso estilístico que é acessório, não definidor.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro: generalização indevida. O texto jornalístico, em sua forma padrão, busca a norma culta e a linguagem formal, justamente para garantir a clareza e a credibilidade. Elementos da oralidade (gírias, expressões coloquiais, repetições típicas da fala) podem aparecer em citações de entrevistados, como no texto-base, mas não caracterizam o gênero como um todo. A oralidade é marcante em gêneros como a entrevista ou a crônica, mas não é a característica central da notícia ou da reportagem.
Conclusão: A questão testa o conhecimento sobre a tipologia e o gênero textual. A reportagem é um gênero dissertativo-expositivo, cuja finalidade é informar com impessoalidade. As demais alternativas ou contradizem essa finalidade (B, C) ou generalizam características que não são centrais (D, E). A regra de ouro: no jornalismo informativo, o autor se apaga; quem fala são os fatos e as fontes.