Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Regência — Avança SP 2023

PortuguêsRegência
Código
qq840505
Banca
Avança SP
Órgão
Prefeitura de São Lourenço da Serra - SP
Ano
2023
Nível
Superior
História estranha

Um homem vem caminhando por um parque quando de repente se vê com sete anos de idade. Está com quarenta, quarenta e poucos. De repente dá com ele mesmo chutando uma bola perto de um banco onde está a sua babá fazendo tricô. Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo. Reconhece a sua própria cara, reconhece o banco e a babá. Tem uma vaga lembrança daquela cena. Um dia ele estava jogando bola no parque quando de repente aproximou-se um homem e... O homem aproxima-se dele mesmo. Ajoelha-se, põe as mãos nos seus ombros e olha nos seus olhos. Seus olhos se enchem de lágrimas. Sente uma coisa no peito. Que coisa é a vida. Que coisa pior ainda é o tempo. Como eu era inocente. Como meus olhos eram limpos. O homem tenta dizer alguma coisa, mas não encontra o que dizer. Apenas abraça a si mesmo, longamente. Depois sai caminhando, chorando, sem olhar para trás. O garoto fica olhando para a sua figura que se afasta. Também se reconheceu. E fica pensando, aborrecido: quando eu tiver quarenta, quarenta e poucos anos, como eu vou ser sentimental! Vivendo e... Eu sabia fazer pipa e hoje não sei mais. Duvido que se hoje pegasse uma bola de gude conseguisse equilibrá-la na dobra do dedo indicador sobre a unha do polegar, quanto mais jogá-la com a precisão que tinha quando era garoto. Outra coisa: acabo de procurar no dicionário, pela primeira vez, o significado da palavra "gude". Quando era garoto nunca pensei nisso, eu sabia o que era gude. Gude era gude. Juntando-se as duas mãos de um determinado jeito, com os polegares para dentro, e assoprando pelo buraquinho, tirava-se um silvo bonito que inclusive variava de tom conforme o posicionamento das mãos. Hoje não sei mais que jeito é esse. Eu sabia a fórmula de fazer cola caseira. Algo envolvendo farinha e água e muita confusão na cozinha, de onde éramos expulsos sob ameaças. Hoje não sei mais. A gente começava a contar depois de ver um relâmpago e o número a que chegasse quando ouvia a trovoada, multiplicado por outro número, dava a distância exata do relâmpago. Não me lembro mais dos números. Ainda no terreno dos sons: tinha uma folha que a gente dobrava e, se ela rachasse de um certo jeito, dava um razoável pistom em miniatura. Nunca mais encontrei a tal folha. E espremendo-se a mão entre o braço e o corpo, claro, tinha-se o chamado trombone axilar, que muito perturbava os mais velhos. Não consigo mais tirar o mesmo som. … verdade que não tenho tentado com muito empenho, ainda mais com o país na situação em que está. Lembro o orgulho com que consegui, pela primeira vez, cuspir corretamente pelo espaço adequado entre os dentes de cima e a ponta da língua de modo que o cuspe ganhasse distância e pudesse ser mirado. Com prática, conseguia-se controlar a trajetória elíptica da cusparada com uma mínima margem de erro. Era puro instinto. Hoje o mesmo feito requereria complicados cálculos de balística, e eu provavelmente só acertaria a frente da minha camisa. Outra habilidade perdida. Na verdade, deve-se revisar aquela antiga frase. … vivendo e desaprendendo. Não falo daquelas coisas que deixamos de fazer porque não temos mais as condições físicas e a coragem de antigamente, como subir em bonde andando _ mesmo porque não há mais bondes andando. Falo da sabedoria desperdiçada, das artes que nos abandonaram. Algumas até úteis. Quem nunca desejou ainda ter o cuspe certeiro de garoto para acertar em algum alvo contemporâneo, bem no olho, e depois sair correndo? Eu já.

Luiz Fernando Veríssimo
Observe as sentenças retiradas do texto: I) "Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo." II) "Tem uma vaga lembrança daquela cena." III) "Eu sabia a fórmula de fazer cola caseira." Em relação à regência nominal, assinale a alternativa que apresenta os termos regentes em cada umadas sentenças, respectivamente.
  1. Amenor; vaga; eu.
  2. Bdúvida; cena; cola.
  3. Cdúvida; lembrança; fórmula.
  4. Dele; daquela; caseira.
  5. Edúvida; vaga; fórmula.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — dúvida; lembrança; fórmula.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Regência Nominal — Identificação do Termo Regente

Gabarito: letra C. A questão pede os termos regentes (nomes que exigem complemento) em cada sentença: em I, "dúvida" rege "de que é ele mesmo"; em II, "lembrança" rege "daquela cena"; em III, "fórmula" rege "de fazer cola caseira". A alternativa C é a única que apresenta exatamente esses três nomes, como se comprova pela análise sintática de cada trecho do texto.

O Comando: o que a banca quer

O enunciado pede para identificar, em três sentenças do texto, os termos regentes — ou seja, os nomes (substantivos, adjetivos ou advérbios) que exigem um complemento preposicionado para completar seu sentido. Isso é regência nominal: a relação de subordinação entre um nome e seu complemento, introduzido por preposição. A banca não quer o complemento (o termo regido), mas sim o regente — o nome que "manda" na preposição.

O Texto: onde mora a resposta

As três sentenças estão no texto de Luiz Fernando Veríssimo. Vejamos cada uma:

  • I) "Não tem a menor dúvida de que é ele mesmo." — O nome "dúvida" exige a preposição "de" para introduzir a oração completiva "que é ele mesmo". "Dúvida" é o termo regente; "de que é ele mesmo" é o complemento nominal.

  • II) "Tem uma vaga lembrança daquela cena." — O nome "lembrança" rege a preposição "de" (contraída com "aquela" → "daquela"). "Lembrança" é o regente; "daquela cena" é o complemento.

  • III) "Eu sabia a fórmula de fazer cola caseira." — O nome "fórmula" rege a preposição "de" para introduzir o complemento "fazer cola caseira". "Fórmula" é o regente; "de fazer cola caseira" é o complemento.

A Técnica: como distinguir regente de regido

Em regência nominal, o termo regente é o nome que exige uma preposição para se ligar ao seu complemento. O termo regido é o complemento que obedece a essa exigência. Para identificar o regente, pergunte: quem exige a preposição? Por exemplo, em "dúvida de que...", é o substantivo "dúvida" que pede "de"; não é o verbo "tem" (que é transitivo direto e não pede preposição). O mesmo raciocínio vale para "lembrança de" e "fórmula de".

NÃO CAIA NESSA!

Na hora da prova, sublinhe o nome que vem antes da preposição e pergunte: "esse nome exige essa preposição?" Se sim, ele é o regente. Cuidado para não confundir com o verbo da oração — o regente nominal é sempre um nome (substantivo, adjetivo ou advérbio), nunca o verbo.

1Termo regente
Nome que exige preposição
Substantivo, adjetivo ou advérbio
2Termo regido
Complemento que obedece
Introduzido pela preposição
3Sentença I
Regente: dúvida
Regido: de que é ele mesmo
4Sentença II
Regente: lembrança
Regido: daquela cena
5Sentença III
Regente: fórmula
Regido: de fazer cola caseira
Regência nominal
LEVELsoulevel.com.br
Regência nominal: Termo regente (Nome que exige preposição, Substantivo, adjetivo ou advérbio); Termo regido (Complemento que obedece, Introduzido pela preposição); Sentença I (Regente: dúvida, Regido: de que é ele mesmo); Sentença II (Regente: lembrança, Regido: daquela cena); Sentença III (Regente: fórmula, Regido: de fazer cola caseira)

Análise das Alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa A traz "menor; vaga; eu". "Menor" é um adjetivo que modifica "dúvida" (adjunto adnominal), não é o termo que rege a preposição. "Vaga" também é adjetivo que modifica "lembrança", não é regente. "Eu" é o sujeito da oração III, não rege complemento algum. Portanto, a alternativa confunde adjunto adnominal com termo regente — erro clássico de troca de função sintática.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa B traz "dúvida; cena; cola". "Dúvida" está correta para I, mas "cena" é o núcleo do complemento regido por "lembrança" (não é regente), e "cola" é o núcleo do complemento regido por "fórmula" (também não é regente). A alternativa inverte regente e regido — apresenta os termos que recebem a regência, não os que a exercem.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa C traz "dúvida; lembrança; fórmula", exatamente os três nomes que exercem a regência nas sentenças I, II e III, respectivamente. Como vimos, "dúvida" rege "de que é ele mesmo", "lembrança" rege "daquela cena" e "fórmula" rege "de fazer cola caseira". É a única alternativa que apresenta os termos regentes corretos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa D traz "ele; daquela; caseira". "Ele" é pronome pessoal que funciona como sujeito ou objeto, não rege complemento. "Daquela" é a contração da preposição "de" com o pronome demonstrativo "aquela" — é o próprio complemento regido, não o regente. "Caseira" é adjetivo que modifica "cola", não rege nada. A alternativa mistura termos regidos e adjuntos, sem identificar nenhum regente corretamente.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa E traz "dúvida; vaga; fórmula". "Dúvida" e "fórmula" estão corretas para I e III, mas "vaga" é adjetivo que modifica "lembrança", não é o regente de II. A alternativa erra apenas no segundo termo, trocando o substantivo "lembrança" pelo adjetivo que o acompanha — pegadinha típica de quem não identifica o núcleo do sintagma.

Conclusão

A questão testa a habilidade de identificar o termo regente na regência nominal, distinguindo-o do complemento regido e dos adjuntos. A alternativa C é a única que apresenta os três nomes que efetivamente exigem preposição: dúvida, lembrança e fórmula. As demais alternativas caem na armadilha de oferecer termos regidos (cena, cola, daquela) ou adjuntos (menor, vaga, caseira), que não exercem regência.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora colocar o complemento (termo regido) no lugar do regente. Para não cair, lembre: o regente é o nome que pede a preposição; o regido é o nome que recebe a preposição. Teste cada alternativa perguntando: "quem exige a preposição aqui?"

Gabarito: letra C

Link permanente: /questoes/qq840505