Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2023
- Código
- qq891782
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- GHC-RS
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico (Anestesiologia Pediátrica)
- AAlfentanil.
- BFentanil.
- CMidazolan.
- DCetamina.
- EEtomidato.
GabaritoD — Cetamina.
Gabarito: letra D. A cetamina é a principal droga de indução anestésica para cardiopatias congênitas cianóticas e cardiopatias com reserva limitada, pois estimula o sistema cardiovascular, aumentando a frequência cardíaca, a pressão arterial e o débito cardíaco — efeitos desejáveis nesses pacientes. As demais alternativas (alfentanil, fentanil, midazolam e etomidato) são drogas que tendem a causar depressão cardiovascular, sendo menos adequadas para essa população.
A cetamina é um anestésico dissociativo, derivado da fenciclidina, que produz um estado de "anestesia dissociativa" — o paciente parece acordado, mas não responde a estímulos dolorosos. Seu mecanismo de ação principal é o antagonismo não competitivo dos receptores NMDA (N-metil-D-aspartato) no sistema nervoso central, bloqueando a transmissão glutamatérgica excitatória. Diferentemente da maioria dos agentes de indução, a cetamina tem efeito simpatomimético: estimula a liberação de catecolaminas, o que resulta em aumento da frequência cardíaca, da pressão arterial e do débito cardíaco. Por isso, é a droga de escolha em situações de instabilidade hemodinâmica, como choque, hipovolemia e cardiopatias com reserva funcional limitada.
Nas cardiopatias congênitas cianóticas (como tetralogia de Fallot, atresia pulmonar, etc.), o objetivo da indução anestésica é manter a estabilidade hemodinâmica e evitar quedas na resistência vascular sistêmica, que poderiam aumentar o shunt direita-esquerda e agravar a hipoxemia. A cetamina, ao manter ou até aumentar a pressão arterial sistêmica e a frequência cardíaca, ajuda a preservar o equilíbrio entre as resistências vasculares sistêmica e pulmonar, minimizando o risco de dessaturação. Além disso, a cetamina preserva os reflexos protetores das vias aéreas e a respiração espontânea, o que é vantajoso em pacientes com anatomia cardíaca complexa.
Na prática, a dose de indução da cetamina é de 1 a 2 mg/kg por via intravenosa, administrada em 1 a 2 minutos, com início de ação em 30 a 40 segundos e duração de 10 a 20 minutos. A via intramuscular (3 a 4 mg/kg) também é possível, especialmente em pacientes pediátricos sem acesso venoso. Os efeitos adversos mais comuns são manifestações neuropsiquiátricas (alucinações, desorientação), que podem ser prevenidas com a coadministração de midazolam, e sialorreia, que pode ser controlada com atropina. A cetamina também pode aumentar a pressão intracraniana e intraocular, sendo relativamente contraindicada em pacientes com hipertensão intracraniana ou glaucoma não tratado.
A distinção crucial aqui é entre drogas que deprimem o sistema cardiovascular e drogas que o estimulam. Enquanto propofol, etomidato, benzodiazepínicos e opioides (como fentanil e alfentanil) tendem a causar hipotensão e bradicardia — efeitos deletérios em pacientes com reserva cardíaca limitada —, a cetamina é o único agente de indução que tipicamente aumenta a pressão arterial e a frequência cardíaca. Essa característica única a torna a droga de escolha para indução em cardiopatias congênitas cianóticas e cardiopatias com reserva limitada.
A pegadinha que a banca explora é a confusão entre a cetamina e o etomidato. O etomidato é frequentemente citado como o agente de escolha para pacientes hemodinamicamente instáveis por ser "cardioestável" (não causa grande depressão cardiovascular). No entanto, ele não é a droga de escolha para cardiopatias congênitas cianóticas especificamente, pois não oferece o suporte hemodinâmico ativo que a cetamina proporciona. Além disso, o etomidato tem o inconveniente da supressão adrenal, que pode ser problemática em pacientes criticamente enfermos. A banca troca a droga que "não piora" (etomidato) pela droga que "melhora" (cetamina) a hemodinâmica — é exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
O alfentanil é um opioide sintético de curta duração, usado como adjuvante na indução anestésica para atenuar a resposta hemodinâmica à laringoscopia e intubação. Porém, os opioides em geral causam depressão cardiovascular (bradicardia e hipotensão) e depressão respiratória, efeitos indesejáveis em pacientes com cardiopatia cianótica e reserva limitada. O alfentanil não é usado como agente de indução principal, mas sim como coadjuvante.
O fentanil é outro opioide potente, frequentemente usado em cirurgias cardíacas por sua estabilidade hemodinâmica relativa. No entanto, em doses altas pode causar bradicardia e rigidez muscular, e não é considerado a droga de indução de escolha para cardiopatias congênitas cianóticas. A cetamina é preferida por seu efeito simpatomimético, que ajuda a manter a estabilidade cardiovascular.
O midazolam é um benzodiazepínico de ação curta, usado para sedação e como adjuvante na indução anestésica. Os benzodiazepínicos causam depressão cardiovascular leve a moderada, com redução da pressão arterial e da resistência vascular sistêmica, o que pode ser prejudicial em pacientes com cardiopatia cianótica. Além disso, o midazolam tem início de ação mais lento (60 a 120 segundos) e não oferece o suporte hemodinâmico necessário.
A cetamina é a droga de indução de escolha para cardiopatias congênitas cianóticas e cardiopatias com reserva limitada. Seu efeito simpatomimético (aumento da frequência cardíaca, pressão arterial e débito cardíaco) ajuda a manter a estabilidade hemodinâmica e a evitar o aumento do shunt direita-esquerda, que agravaria a hipoxemia. Além disso, preserva os reflexos protetores das vias aéreas e a respiração espontânea, características valiosas nesses pacientes.
O etomidato é um sedativo hipnótico "cardioestável", que causa mínima depressão cardiovascular, sendo útil em pacientes instáveis. No entanto, não é a droga de escolha para cardiopatias congênitas cianóticas, pois não oferece o suporte hemodinâmico ativo da cetamina. Além disso, o etomidato causa supressão adrenal, que pode ser deletéria em pacientes criticamente enfermos, e não tem propriedades analgésicas.
A banca explora a confusão entre "cardioestável" (etomidato) e "cardioestimulante" (cetamina). O etomidato não piora a hemodinâmica, mas a cetamina a melhora — e é essa melhora que é necessária em cardiopatias cianóticas com reserva limitada. Lembre-se: quando a questão pede a droga de indução para paciente com reserva cardíaca limitada, a cetamina é a resposta, não o etomidato.
Gabarito: letra D
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