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Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — FUNDATEC 2023

MedicinaFarmacologia e Anestesiologia
Código
qq891812
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico (Anestesiologia)
Analise as assertivas a seguir sobre o manejo anestésico de pacientes com traumatismo espinhal:I. A pressão arterial média deve ser mantida entre 85-90 mmHg para otimizar a perfusão medular e prevenir a injúria secundária.II. Esteroides estão indicados, pois melhoram o desfecho neurológico.III. Lesões acima de L3-L4 cursam com o chamado choque neurogênico.Quais estão corretas?
  1. AApenas I.
  2. BApenas II.
  3. CApenas I e II.
  4. DApenas II e III.
  5. EI, II e III.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — Apenas I.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Manejo anestésico do trauma raquimedular: alvos pressóricos, corticoides e choque neurogênico

Gabarito: letra A — apenas a assertiva I está correta. A pressão arterial média (PAM) deve ser mantida entre 85 e 90 mmHg na fase aguda da lesão medular para otimizar a perfusão medular e prevenir a injúria secundária. As assertivas II e III estão incorretas: os corticosteroides não são recomendados de rotina (as diretrizes atuais desaconselham seu uso, apesar de estudos mostrarem melhora neurológica discreta com metilprednisolona em altas doses, devido aos efeitos adversos importantes), e o choque neurogênico ocorre em lesões acima de T6, não acima de L3-L4.

O trauma raquimedular (TRM) é uma condição de alta morbimortalidade que exige manejo imediato e especializado, especialmente na fase aguda, quando o objetivo central é evitar a chamada injúria secundária — o dano neurológico adicional que ocorre nas horas e dias seguintes ao trauma inicial, decorrente de hipoperfusão medular, hipóxia, edema e cascatas inflamatórias. A medula espinhal, uma vez lesada, tem capacidade limitada de regeneração, e cada neurônio perdido representa déficit funcional permanente. Por isso, o controle hemodinâmico rigoroso é a pedra angular do tratamento.

A recomendação de manter a PAM entre 85 e 90 mmHg na fase aguda do TRM baseia-se na necessidade de garantir pressão de perfusão medular adequada. A medula espinhal perde sua capacidade de autorregulação do fluxo sanguíneo após a lesão, tornando-se dependente da pressão arterial sistêmica. Se a PAM cai abaixo desse limiar, o fluxo sanguíneo medular diminui de forma linear, agravando a isquemia e o dano neurológico. Essa estratégia é mantida por aproximadamente uma semana, com uso de vasopressores se necessário, embora haja controvérsias na literatura médica sobre a duração exata e os benefícios a longo prazo.

O uso de corticosteroides no TRM é um dos temas mais controversos da medicina de emergência. Os estudos clássicos (NASCIS II e III) demonstraram melhora neurológica discreta com metilprednisolona em altas doses (30 mg/kg em bolus seguido de 5,4 mg/kg/h por 23 horas) quando administrada nas primeiras 8 horas do trauma. No entanto, essa melhora foi acompanhada de efeitos adversos significativos, como sangramento gastrointestinal, pneumonia e choque séptico. Por essa razão, as diretrizes atuais — incluindo a American Association of Neurological Surgeons (AANS) e a Congress of Neurological Surgeons (CNS) — recomendam não administrar corticosteroides de rotina em pacientes com TRM. O uso fica restrito a situações específicas, como trauma medular associado a outras indicações de corticoterapia, e sempre com discussão caso a caso.

O choque neurogênico é uma forma de choque distributivo que ocorre após lesão medular, caracterizado por hipotensão, bradicardia e perda do tônus simpático. Ele resulta da interrupção das vias simpáticas descendentes, que leva à vasodilatação periférica e à diminuição do retorno venoso. O choque neurogênico ocorre em lesões acima de T6, pois é nesse nível que se encontra a origem do centro simpático toracolombar (T1-L2). Lesões abaixo de T6 preservam parcialmente o tônus simpático, enquanto lesões acima de T6 interrompem completamente a inervação simpática do coração e dos vasos periféricos. Já o choque medular (ou espinhal) é um conceito distinto: refere-se à perda temporária de toda a função neurológica abaixo do nível da lesão, incluindo reflexos, tônus muscular e função autonômica, que pode durar dias a semanas. É fundamental não confundir os dois termos, pois o choque medular é um fenômeno neurológico, enquanto o choque neurogênico é um fenômeno hemodinâmico.

A assertiva III comete um erro anatômico importante ao afirmar que lesões acima de L3-L4 cursam com choque neurogênico. Na verdade, o nível correto é acima de T6. Essa confusão entre os níveis vertebrais é uma pegadinha clássica da banca, que testa se o candidato conhece a anatomia funcional da medula espinhal e a fisiopatologia do choque neurogênico. Além disso, a assertiva II ignora a recomendação atual das diretrizes, que desaconselham o uso rotineiro de corticosteroides, priorizando o manejo hemodinâmico e a prevenção de complicações.

Guarde a fronteira entre os três conceitos — alvo pressórico (85-90 mmHg), corticoterapia (não rotineira) e choque neurogênico (acima de T6) — pois é exatamente nela que as alternativas se dividem.

1Alvo pressórico
PAM 85–90 mmHg
Otimiza perfusão medular
Previne injúria secundária
2Corticosteroides
Não rotineiros
Efeitos adversos graves
3Choque neurogênico
Lesão acima de T6
Vasodilatação + hipotensão + bradicardia
Trauma raquimedular (TRM)
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Trauma raquimedular (TRM): Alvo pressórico (PAM 85–90 mmHg, Otimiza perfusão medular, Previne injúria secundária); Corticosteroides (Não rotineiros, Efeitos adversos graves); Choque neurogênico (Lesão acima de T6, Vasodilatação + hipotensão + bradicardia)

Item I — ✅ Correto

A assertiva está correta. A recomendação de manter a PAM entre 85 e 90 mmHg na fase aguda do TRM é amplamente aceita e visa otimizar a perfusão medular, prevenindo a injúria secundária. O texto de apoio confirma: "Na fase aguda da lesão medular é recomendado manter pressão arterial média entre 85 e 90 mmHg, com a finalidade de manter pressão de perfusão medular, com uso de vasopressores se necessário." Essa meta pressórica é mantida por cerca de uma semana, com controvérsias na literatura sobre a duração ideal.

Item II — ❌ Incorreto

A assertiva está incorreta. Embora estudos tenham demonstrado melhora neurológica discreta com metilprednisolona em altas doses nas primeiras 8 horas do trauma, as diretrizes atuais recomendam não administrar corticosteroides de rotina em pacientes com TRM, devido aos efeitos adversos importantes (sangramento gastrointestinal, pneumonia e choque séptico). O texto de apoio é claro: "Por conta disso, as diretrizes recomendam não administrar corticosteroides de rotina em pacientes vítimas de traumatismo raquimedular." Portanto, afirmar que os esteroides "estão indicados, pois melhoram o desfecho neurológico" é uma simplificação incorreta e perigosa, pois ignora o equilíbrio entre benefício e risco.

Item III — ❌ Incorreto

A assertiva está incorreta. O choque neurogênico ocorre em lesões acima de T6, não acima de L3-L4. O texto de apoio afirma: "Principalmente em lesões acima de T6, há risco de episódios de vasoconstrição e hipertensão (disreflexia autonômica) após estímulos nociceptivos abaixo do nível da lesão." Embora essa frase se refira à disreflexia autonômica, o nível T6 é o marco anatômico para o comprometimento simpático. Lesões acima de T6 interrompem as vias simpáticas descendentes, causando vasodilatação, hipotensão e bradicardia — o quadro clássico de choque neurogênico. Lesões em L3-L4, por outro lado, estão abaixo do centro simpático toracolombar e não cursam com esse tipo de choque. A banca trocou o nível anatômico para testar o conhecimento do candidato.

NÃO CAIA NESSA!

A banca adora trocar os níveis anatômicos e inverter recomendações. Aqui, ela substituiu T6 por L3-L4 na assertiva III e apresentou a corticoterapia como rotineira na assertiva II, quando as diretrizes atuais a desaconselham. Fique atento: choque neurogênico = lesão acima de T6; corticosteroides = não rotineiros; PAM = 85-90 mmHg. Com treino, você enxerga essas trocas de longe 💪

Gabarito: letra A — apenas a assertiva I está correta.

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