Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FUNDATEC 2023
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
qq891979
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico (Clínica Médica)
Paciente de 25 anos, do sexo masculino, apresentando dor de cabeça, febre, náuseas e convulsões, após ser mordido por um morcego em uma região endêmica para raiva há cerca de 3 semanas. Qual o tratamento adequado?
ATratamento sintomático com analgésicos e antitérmicos.
BVacinação pré-exposição para raiva.
CVacinação pós-exposição para raiva e imunoglobulina antirrábica.
DTratamento com anticonvulsivantes e terapia intensiva.
ETratamento com antibióticos de amplo espectro.
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GabaritoC — Vacinação pós-exposição para raiva e imunoglobulina antirrábica.
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Raiva: profilaxia pós-exposição
Gabarito: letra C. O paciente sofreu mordedura por morcego — animal silvestre sempre considerado de alto risco para raiva — e, portanto, a conduta correta é a profilaxia pós-exposição com vacina antirrábica e imunoglobulina (soro ou imunoglobulina humana), independentemente da gravidade da lesão. Essa conduta está alinhada às normas técnicas do Ministério da Saúde e às recomendações do CDC, que orientam tratar agressões por morcegos como acidentes graves.
A raiva é uma encefalite viral aguda, quase sempre fatal, transmitida pela saliva de animais infectados. O vírus rábico, do gênero Lyssavirus, penetra através de mordeduras, arranhaduras ou lambeduras de mucosas e segue pelos nervos periféricos até o sistema nervoso central. O período de incubação varia, em média, de 2 a 8 semanas, mas pode ser mais curto em mordeduras na cabeça e pescoço, como no caso descrito. Uma vez instalados os sintomas neurológicos — como as convulsões apresentadas pelo paciente —, a doença é praticamente incurável, com taxa de letalidade próxima de 100%. Por isso, a profilaxia pós-exposição (PPE) é a medida que salva vidas: ela deve ser iniciada imediatamente após a agressão, antes que o vírus atinja o sistema nervoso central.
A profilaxia pós-exposição combina duas estratégias: a imunização ativa, com a vacina de cultivo celular, que estimula o organismo a produzir anticorpos próprios; e a imunização passiva, com a imunoglobulina antirrábica humana (IGHAR) ou o soro antirrábico heterólogo (SAR), que fornece anticorpos prontos para neutralizar o vírus no local da inoculação, enquanto a vacina começa a fazer efeito. Essa combinação é essencial em acidentes graves, pois a vacina sozinha demora alguns dias para induzir resposta imune protetora, e o vírus pode progredir rapidamente.
A classificação do acidente é o ponto central da decisão terapêutica. As normas técnicas do Ministério da Saúde dividem as exposições em leves e graves, e a conduta varia conforme o tipo de animal agressor e a possibilidade de observá-lo. Para cães e gatos, por exemplo, é possível observar o animal por 10 dias e, se ele permanecer saudável, encerrar o caso. Já para animais silvestres, como morcegos, a conduta é diferente: eles são considerados potencialmente infectados, e a profilaxia deve ser iniciada imediatamente, sem período de observação. No caso específico dos morcegos, as agressões são sempre consideradas graves, e a administração de soro ou imunoglobulina está indicada independentemente da gravidade da lesão.
A tabela abaixo resume a conduta conforme o tipo de animal e a gravidade da exposição:
Tipo de animal
Exposição leve
Exposição grave
Cão/gato observável
Observar por 10 dias; vacinar se necessário
Vacina + soro/imunoglobulina se necessário
Cão/gato suspeito
Vacina (2 doses) + observação
Vacina + soro/imunoglobulina
Cão/gato raivoso/morto
Vacina (4 doses)
Vacina + soro/imunoglobulina
Morcego/animal silvestre
Vacina + soro/imunoglobulina
Vacina + soro/imunoglobulina
A pegadinha desta questão está em reconhecer que a mordedura por morcego é sempre um acidente grave, mesmo que a lesão seja pequena. O candidato que não conhece essa regra pode optar por tratamento sintomático ou por vacinação isolada, mas a conduta correta exige a associação da vacina com a imunoglobulina. Além disso, o paciente já apresenta sintomas neurológicos (convulsões), o que reforça a urgência da profilaxia — embora, nessa fase, o tratamento seja apenas de suporte, a profilaxia pós-exposição é a medida preventiva que deve ter sido instituída imediatamente após a mordedura.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre acidentes leves e graves. Muitos candidatos pensam que, por ser uma mordedura pequena, o tratamento seria apenas com vacina. Mas a regra é clara: agressão por morcego é sempre considerada grave, e a conduta inclui vacina + imunoglobulina, independentemente do tamanho da lesão.
Profilaxia antirrábica pós-exposição
1Acidente leve
Cão/gato observável
Observar 10 dias
Cão/gato suspeito
Vacina + observação
2Acidente grave
Cão/gato raivoso/morto
Vacina + soro/imunoglobulina
Morcego/silvestre
Vacina + soro/imunoglobulina
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Tratamento sintomático com analgésicos e antitérmicos não é suficiente. Embora o alívio dos sintomas possa ser necessário, a raiva é uma doença letal e a profilaxia pós-exposição é obrigatória. O tratamento sintomático isolado deixaria o paciente sem proteção contra o vírus rábico.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A vacinação pré-exposição é indicada para pessoas com risco ocupacional ou que viajam para áreas endêmicas, antes do contato com o vírus. No caso descrito, o paciente já foi exposto (mordedura), então a conduta é a profilaxia pós-exposição, não a pré-exposição.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A mordedura por morcego é sempre considerada um acidente grave, e a profilaxia pós-exposição inclui a vacina antirrábica (4 doses nos dias 0, 3, 7 e 14) associada à imunoglobulina antirrábica (IGHAR) ou soro antirrábico (SAR). Essa é a conduta recomendada pelas normas técnicas do Ministério da Saúde e pelo CDC.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Anticonvulsivantes e terapia intensiva são medidas de suporte para o paciente que já desenvolveu sintomas neurológicos, mas não tratam a raiva. A profilaxia pós-exposição é a medida preventiva que deve ser instituída após a mordedura, antes do aparecimento dos sintomas.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Antibióticos de amplo espectro são indicados para infecções bacterianas secundárias, como as que podem ocorrer em mordeduras por cães e gatos. No caso de mordedura por morcego, o risco principal é a raiva, uma doença viral, e o tratamento com antibióticos não tem efeito sobre o vírus.
Gabarito: letra C — vacinação pós-exposição para raiva e imunoglobulina antirrábica.