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Questão de Medicina — Endocrinologia — FUNDATEC 2023

MedicinaEndocrinologia
Código
qq892036
Banca
FUNDATEC
Órgão
GHC-RS
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico (Endocrinologia e Metabologia)
Em relação à cetoacidose diabética, analise as assertivas abaixo e assinale a alternativa correta.I. A insulinoterapia endovenosa não deve ser iniciada até avaliação do valor do potássio sérico. Tão logo se tiver este resultado, se faz necessária a prescrição de altas doses de insulina rápida ou ultrarrápida, visando redução rápida da glicemia e resolução do quadro de cetoacidose.II. A ressuscitação volêmica deve ser iniciada de imediato com soro fisiológico 0,9%, antes da infusão de insulina, já que o déficit líquido pode ser estimado em mais do que 5 litros em alguns casos.III. Os estoques de potássio são reduzidos, muito embora os níveis séricos possam estar normais ou mesmo elevados no momento do diagnóstico.IV. Há correlação entre o grau de acidose e a hiperglicemia, sendo a reposição de bicarbonato de sódio reservada para casos em que o pH está muito baixo, pois o tratamento pode ocasionar alcalose metabólica de rebote.
  1. ATodas as assertivas estão corretas.
  2. BTodas as assertivas estão incorretas.
  3. CApenas as assertivas I e II estão corretas.
  4. DApenas as assertivas II e III estão corretas.
  5. EApenas as assertivas II, III e IV estão corretas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Apenas as assertivas II e III estão corretas.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Cetoacidose diabética: manejo inicial e distúrbios eletrolíticos

Gabarito: letra D — estão corretas apenas as assertivas II e III. A assertiva I erra ao condicionar o início da insulinoterapia à avaliação do potássio e ao recomendar "altas doses" de insulina; a assertiva IV erra ao afirmar correlação entre o grau de acidose e a hiperglicemia. O manejo da cetoacidose diabética (CAD) segue uma sequência lógica: reposição volêmica imediata, correção de distúrbios eletrolíticos (com atenção ao potássio) e insulinoterapia em doses baixas e contínuas, conforme diretrizes da American Diabetes Association (ADA).

A cetoacidose diabética é uma emergência endocrinológica causada por deficiência absoluta ou relativa de insulina, levando a hiperglicemia, cetogênese e acidose metabólica. O tratamento tem quatro pilares: reposição volêmica, insulinoterapia, correção de distúrbios eletrolíticos (principalmente potássio) e identificação/tratamento do fator precipitante. A ordem e a forma de cada intervenção são cruciais e frequentemente cobradas em provas.

Reposição volêmica: é o primeiro passo e deve ser iniciada imediatamente com soro fisiológico 0,9% (SF 0,9%). O déficit de água na CAD é estimado em cerca de 6 litros (ou 100 mL/kg), podendo ser maior em alguns casos. A reposição inicial visa restaurar o volume circulatório, por isso a preferência pela solução fisiológica. Essa conduta é correta e corresponde à assertiva II.

Insulinoterapia: a insulina deve ser iniciada concomitantemente à hidratação, e não após a avaliação do potássio. A única exceção é quando o potássio sérico é < 3,3 mEq/L — nesse caso, a reposição de potássio deve preceder a insulina para evitar hipocalemia grave. Além disso, o esquema recomendado é de baixas doses de insulina regular (0,1 U/kg em bolus, seguido de 0,1 U/kg/h em infusão contínua), e não "altas doses". Estudos demonstraram que doses menores são tão eficazes quanto as altas, com menor risco de hipoglicemia. Portanto, a assertiva I está incorreta em dois pontos: condicionar o início da insulina à avaliação do potássio (quando na verdade é concomitante, exceto se K < 3,3) e prescrever altas doses (quando o correto são doses baixas).

Potássio: na CAD, há um déficit corporal total de potássio de 3 a 5 mEq/kg, mas os níveis séricos podem estar normais ou até elevados no momento do diagnóstico. Isso ocorre porque a hiperosmolaridade, a falta de insulina e a acidemia deslocam o potássio do intracelular para o extracelular. Assim, a assertiva III está correta: os estoques estão reduzidos, mas a dosagem sérica pode não refletir isso.

Bicarbonato de sódio: o uso de bicarbonato na CAD é controverso e reservado para casos específicos, como pH < 6,9 ou 7,0, acidose láctica associada, ou hipercalemia grave. A assertiva IV erra ao afirmar que há correlação entre o grau de acidose e a hiperglicemia — na verdade, a hiperglicemia e a acidose podem ser dissociadas, especialmente em casos de cetoacidose euglicêmica (pH baixo com glicemia < 250 mg/dL, como no uso de inibidores de SGLT2). Além disso, a reposição de bicarbonato pode causar alcalose metabólica de rebote, mas essa não é a razão principal para sua restrição — o ponto central é a falta de evidência de benefício e o risco de complicações (hipocalemia, piora da acidose intracelular). Portanto, a assertiva IV está incorreta.

A pegadinha da banca está em misturar conceitos corretos com erros sutis: a assertiva I parece plausível (avaliar potássio antes da insulina), mas erra ao condicionar o início e ao recomendar altas doses; a assertiva IV parece correta (bicarbonato para pH muito baixo), mas erra ao afirmar correlação entre acidose e hiperglicemia. O candidato que domina a sequência do manejo e as particularidades do potássio acerta a questão.

Assertiva I — ❌ Incorreta

A assertiva erra ao afirmar que a insulinoterapia "não deve ser iniciada até avaliação do valor do potássio sérico". Na verdade, a insulina deve ser iniciada concomitantemente à hidratação, com a única exceção de K < 3,3 mEq/L, quando a reposição de potássio precede a insulina. Além disso, recomenda-se baixas doses de insulina (0,1 U/kg bolus + 0,1 U/kg/h), e não "altas doses" — estudos mostram que doses menores são igualmente eficazes e causam menos hipoglicemia.

Assertiva II — ✅ Correta

A ressuscitação volêmica com SF 0,9% deve ser iniciada imediatamente, antes da insulina, pois o déficit de água na CAD é de aproximadamente 6 litros (100 mL/kg), podendo ser maior em alguns casos. A reposição volêmica é o primeiro passo do tratamento, visando restaurar o volume circulatório.

Assertiva III — ✅ Correta

Na CAD, o déficit corporal total de potássio é de 3 a 5 mEq/kg, mas os níveis séricos podem estar normais ou elevados no diagnóstico, devido à hiperosmolaridade, falta de insulina e acidemia, que deslocam o potássio para o extracelular. Portanto, a assertiva está correta: estoques reduzidos, mas níveis séricos possivelmente normais/elevados.

Assertiva IV — ❌ Incorreta

A assertiva erra ao afirmar que há correlação entre o grau de acidose e a hiperglicemia. Na CAD, a hiperglicemia e a acidose podem ser dissociadas — por exemplo, na cetoacidose euglicêmica (glicemia < 250 mg/dL com acidose), como no uso de inibidores de SGLT2. O bicarbonato é reservado para casos de pH muito baixo (geralmente < 6,9), mas a justificativa não é a correlação com a hiperglicemia, e sim a falta de evidência de benefício e o risco de complicações.

Conclusão: corretas apenas as assertivas II e III, portanto o gabarito é a letra D.

Gabarito: letra D

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