Questão de Medicina — Neurologia — FUNDATEC 2023
- Código
- qq892361
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- GHC-RS
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico (Neurologia)
- AApenas I.
- BApenas II.
- CApenas I e II.
- DApenas II e III.
- EI, II e III.
GabaritoC — Apenas I e II.
Gabarito: letra C — corretos os itens I e II. A sífilis meningovascular e a tabes dorsalis são manifestações clássicas da neurossífilis, mas a penicilina benzatina não trata a neurossífilis: o esquema correto é penicilina G cristalina por via intravenosa (PCDT/MS).
A neurossífilis é o comprometimento do sistema nervoso central (SNC) pelo Treponema pallidum, que pode invadir o SNC precocemente, já nas primeiras horas ou dias após a inoculação. Essa neuroinvasão pode ser transitória, e os preditores de persistência e de aparecimento de sintomas não são bem estabelecidos. Historicamente, na era pré-antibiótica, o comprometimento sintomático do SNC na sífilis terciária afetava 5% a 10% das pessoas com sífilis não tratada, manifestando-se com tabes dorsalis, AVC, demência e morte.
As manifestações clínicas da neurossífilis são variadas e podem ocorrer em qualquer fase da infecção. O quadro clínico inclui desde formas precoces, como meningite sifilítica e lesão meningovascular (que cursa com acometimento isquêmico, principalmente de cápsula interna, artéria cerebral média, carótida, artéria basilar, artéria cerebral posterior e vasos cerebelares), até formas tardias, como tabes dorsalis, paresia geral, demência, alterações psiquiátricas e goma sifilítica. O diagnóstico é desafiador, pois não há teste padrão-ouro; baseia-se na combinação de achados clínicos, alterações do LCR e VDRL no LCR.
O tratamento da neurossífilis difere do tratamento da sífilis sem comprometimento neurológico. Enquanto a sífilis precoce é tratada com penicilina benzatina 2,4 milhões de unidades IM em dose única, e a sífilis tardia com três injeções semanais de penicilina benzatina, a neurossífilis exige penicilina G cristalina por via intravenosa, na dose de 4 milhões de unidades a cada 4 horas ou 24 milhões de unidades por infusão IV contínua ao dia, por 10 a 14 dias. A penicilina benzatina não atinge concentrações adequadas no LCR, por isso não é eficaz para tratar a neurossífilis. Além disso, o tratamento com penicilina intravenosa interrompe a progressão da doença, mas não reverte o dano estrutural já existente — ou seja, não "auxilia" na reversão de um quadro demencial já instalado.
A pegadinha da questão está justamente na afirmativa III: a banca troca o esquema terapêutico da neurossífilis (penicilina G IV) pela penicilina benzatina, que é usada apenas nas formas sem comprometimento do SNC. Além disso, mesmo o tratamento correto não reverte danos neurológicos já estabelecidos, apenas impede a progressão.
Guarde a fronteira entre as manifestações da neurossífilis (que incluem meningovascular e tabes dorsalis) e o tratamento específico (penicilina G IV, não benzatina): é exatamente nela que as alternativas se dividem.
A sífilis meningovascular é, de fato, uma manifestação da neurossífilis. O quadro clínico descrito no PCDT/MS inclui a "lesão meningovascular: acometimento isquêmico principalmente da cápsula interna, artéria cerebral média, carótida, artéria basilar, artéria cerebral posterior e vasos cerebelares". Essa forma cursa com acidente vascular encefálico e é uma apresentação clássica da neurossífilis recente.
A tabes dorsalis é uma manifestação clássica da neurossífilis tardia, caracterizada por ataxia, dor lancinante e pupilas de Argyll-Robertson. O PCDT/MS lista a tabes dorsalis entre as manifestações clínicas da neurossífilis, e o texto de apoio menciona que o comprometimento sintomático do SNC na sífilis terciária incluía "tabes dorsalis, AVC, demência e morte".
A afirmativa está errada por dois motivos. Primeiro, a penicilina benzatina não trata a neurossífilis: o esquema correto é penicilina G cristalina por via intravenosa, por 10 a 14 dias. A benzatina é usada apenas para sífilis precoce (dose única) e tardia (três doses semanais), sem comprometimento do SNC. Segundo, mesmo o tratamento adequado com penicilina IV "interrompe a progressão da doença, porém não reverte o dano estrutural existente" — ou seja, não "auxilia" na reversão de um quadro demencial já instalado. A banca explora exatamente essa troca de via de administração e a falsa ideia de reversão do dano.
A banca troca o esquema da neurossífilis (penicilina G IV) pela penicilina benzatina, que é usada apenas nas formas sem comprometimento do SNC. Além disso, sugere que o tratamento reverte o dano neurológico, quando na verdade apenas interrompe a progressão. Fique atento: neurossífilis sempre exige via intravenosa e não há reversão de dano estrutural.
Gabarito: letra C — corretos apenas os itens I e II.
Link permanente: /questoes/qq892361