Questão de História — Questões Internacionais: história do tempo presente — FUNDATEC 2023
História›Questões Internacionais: história do tempo presente
Código
qq894696
Banca
FUNDATEC
Órgão
IF-SC
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Professor EBTT - História
O clássico historiográfico O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg, desvela a vida de um moleiro do Friuli, Menocchio, processado pela Inquisição no século XVI. A análise dos enredos dessa história é classificada como:
AHistória das Mentalidades.
BMicro-história.
CHistória Positivista.
DEstruturalismo Histórico.
EMaterialismo Histórico.
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GabaritoB — Micro-história.
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Micro-história e o método indiciário de Carlo Ginzburg
Gabarito: letra B.O queijo e os vermes, de Carlo Ginzburg, é um dos exemplos mais célebres da micro-história italiana: a obra parte de um personagem aparentemente insignificante — o moleiro Menocchio — para, por meio de um estudo em escala reduzida, iluminar aspectos mais amplos da cultura popular e das relações entre erudição e tradição oral no século XVI. A análise dos enredos dessa história é classificada como micro-história, e não como história das mentalidades, positivismo, estruturalismo ou materialismo histórico.
A micro-história surge na Itália na década de 1970, associada a historiadores como Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, e propõe uma redução da escala de observação como estratégia metodológica. Em vez de estudar grandes estruturas ou massas anônimas, o micro-historiador escolhe um caso particular — um indivíduo, uma vila, um processo judicial — e o examina em profundidade, com o objetivo de revelar, a partir do detalhe, as tramas sociais, culturais e políticas que o atravessam. Essa abordagem dialoga com o chamado paradigma indiciário, também formulado por Ginzburg: a ideia de que pequenos indícios, sintomas e pistas podem ser a chave para compreender realidades mais amplas.
A obra O queijo e os vermes (1976) narra a história de Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, um moleiro do Friuli que foi julgado pela Inquisição por suas ideias heterodoxas sobre a criação do mundo. Ginzburg reconstrói a cosmologia singular de Menocchio — que imaginava o universo como um queijo do qual nasciam os vermes, ou seja, os anjos — e mostra como essa visão de mundo resultava de uma combinação original entre a cultura camponesa e elementos da cultura letrada. O livro é um marco da micro-história porque parte de um personagem marginal para discutir temas centrais da história cultural, como a circularidade entre cultura popular e cultura erudita.
A distinção entre micro-história e história das mentalidades é sutil, mas importante. A história das mentalidades, ligada à Escola dos Annales, busca identificar as formas de pensar, sentir e agir de uma época, muitas vezes por meio de séries documentais e de longa duração. A micro-história, por sua vez, não se contenta com o estudo das estruturas mentais coletivas: ela parte do caso concreto e do indivíduo, valorizando a agência e a singularidade, e usa a redução de escala como ferramenta para questionar generalizações. Enquanto a história das mentalidades tende a trabalhar com o que é recorrente e coletivo, a micro-história se interessa pelo que é excepcional e revelador.
A pegadinha da questão está em associar a obra a outras correntes historiográficas. O positivismo, por exemplo, valoriza o documento oficial e o fato político, o que não se aplica a um estudo sobre um moleiro herege. O estruturalismo histórico, inspirado em Lévi-Strauss, busca estruturas profundas e inconscientes, enquanto o materialismo histórico, de matriz marxista, prioriza as relações de produção e a luta de classes. Nenhuma dessas correntes explica a abordagem de Ginzburg, que é essencialmente micro-histórica.
Correntes historiográficas: Micro-história (Ginzburg) (Redução da escala, Caso individual (Menocchio), Paradigma indiciário); História das mentalidades (Coletivo e recorrente, Longa duração); Positivismo (Documento oficial, Fato político); Estruturalismo (Estruturas profundas); Materialismo histórico (Relações de produção, Luta de classes)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A história das mentalidades é uma corrente ligada à Escola dos Annales, que estuda as formas de pensar, sentir e imaginar de uma época, geralmente por meio de séries documentais e de longa duração. Embora O queijo e os vermes dialogue com a história cultural, a obra não se enquadra nessa corrente porque não busca mapear uma mentalidade coletiva, mas sim reconstruir a visão de mundo de um indivíduo específico, Menocchio, a partir de um caso concreto. A micro-história, da qual Ginzburg é um dos principais expoentes, parte do particular para o geral, enquanto a história das mentalidades parte do coletivo para explicar o indivíduo.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A micro-história é a corrente historiográfica que se caracteriza pela redução da escala de observação, pelo estudo de casos individuais e pela atenção aos detalhes e indícios. O queijo e os vermes é um exemplo paradigmático: Ginzburg toma um moleiro do século XVI, processado pela Inquisição, e, a partir de seu processo, reconstrói sua cosmologia e as relações entre cultura popular e erudita. A obra é frequentemente citada como um dos marcos fundadores da micro-história italiana, ao lado de trabalhos de Giovanni Levi e Edoardo Grendi.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A história positivista é uma corrente do século XIX que privilegia o documento oficial, o fato político e a narrativa dos grandes acontecimentos, buscando uma objetividade baseada na crítica documental. O queijo e os vermes não se enquadra nessa corrente, pois não trata de um grande evento político, mas de um personagem marginal e de suas ideias heterodoxas, utilizando fontes como os processos inquisitoriais — que não eram considerados fontes "nobres" pelo positivismo. Além disso, a micro-história questiona a noção de objetividade absoluta e valoriza a interpretação e a narrativa.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O estruturalismo histórico é uma abordagem que busca identificar estruturas profundas e inconscientes que organizam as sociedades, inspirada na antropologia de Claude Lévi-Strauss. Essa corrente tende a privilegiar as estruturas sobre os indivíduos e a buscar regularidades, o que contrasta com a micro-história, que valoriza o caso singular e a agência individual. O queijo e os vermes não se propõe a revelar uma estrutura universal, mas a compreender um personagem específico em seu contexto histórico e cultural.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O materialismo histórico, de matriz marxista, analisa a história a partir das relações de produção, da luta de classes e das infraestruturas econômicas. Embora Menocchio seja um camponês/moleiro, ou seja, um membro das classes subalternas, a obra de Ginzburg não se limita a uma análise econômica ou classista. O foco está na cultura, na cosmologia e nas crenças do personagem, e na forma como ele articula elementos da cultura popular e erudita. A micro-história, portanto, não se confunde com o materialismo histórico, ainda que possa dialogar com questões sociais.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre micro-história e história das mentalidades. O aluno pode pensar que, por se tratar de um estudo sobre a visão de mundo de um personagem, a obra se enquadra na história das mentalidades. No entanto, a micro-história se distingue por partir do caso individual e reduzir a escala, enquanto a história das mentalidades trabalha com o coletivo e o recorrente. Lembre-se: O queijo e os vermes é o exemplo clássico de micro-história, não de história das mentalidades.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar a corrente historiográfica de uma obra, pergunte-se: qual é a escala de análise? Se a obra parte de um indivíduo ou caso específico para iluminar questões mais amplas, é micro-história. Se busca mapear o pensamento coletivo de uma época, é história das mentalidades. Se privilegia documentos oficiais e fatos políticos, é positivismo. Se busca estruturas profundas, é estruturalismo. Se foca nas relações de produção e classes, é materialismo histórico. Essa distinção é recorrente em provas de história e teoria da história.
Gabarito: letra B — a análise dos enredos da história de Menocchio é classificada como micro-história.