Prevenção da pré-eclâmpsia (PE): rastreio e profilaxia
Gabarito: letra E (I, II e III). As três assertivas estão corretas: o rastreio combinado da Fetal Medicine Foundation (FMF) no 1º trimestre tem excelente predição para PE precoce (< 37 semanas); o AAS em baixa dose (100-150 mg/dia, à noite) iniciado antes de 16 semanas reduz a incidência de PE precoce em gestantes de alto risco; e a suplementação de cálcio (1,5-2,0 g/dia) é adjuvante ao AAS, especialmente em pacientes com baixa ingesta de cálcio. Essas condutas estão alinhadas com as principais diretrizes, como as Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial (2020/2025) e as recomendações da FIGO/OMS/ACOG.
A pré-eclâmpsia é uma síndrome hipertensiva específica da gestação, definida por hipertensão arterial (PAS ≥ 140 mmHg e/ou PAD ≥ 90 mmHg) após 20 semanas, geralmente acompanhada de proteinúria ou, na sua ausência, de disfunções orgânicas maternas ou uteroplacentárias. É uma das principais causas de morbimortalidade materna e perinatal, o que justifica o esforço em rastrear e prevenir sua ocorrência. A prevenção moderna baseia-se em dois pilares: a identificação precoce das gestantes de risco e a instituição de medidas farmacológicas eficazes.
O rastreio combinado do 1º trimestre, proposto pela Fetal Medicine Foundation, combina história clínica materna (fatores de risco), pressão arterial média (PAM), índice de pulsatilidade (PI) da artéria uterina e dosagem do fator de crescimento placentário (PIGF). Esse algoritmo, calculado por uma calculadora de risco, permite estimar a probabilidade individual de desenvolver PE, especialmente a forma precoce (antes de 37 semanas), com excelente acurácia. A identificação dessas gestantes de alto risco é o passo inicial para a indicação da profilaxia.
A profilaxia medicamentosa de primeira linha é o ácido acetilsalicílico (AAS) em baixa dose. As diretrizes recomendam 75-150 mg/dia, iniciado preferencialmente antes de 16 semanas (idealmente entre 12 e 16 semanas) e mantido até 36 semanas ou até o parto. No Brasil, a apresentação disponível é de 100 mg, administrada à noite. O mecanismo de ação envolve a inibição da ciclo-oxigenase plaquetária, reduzindo a produção de tromboxano A2 e, consequentemente, a vasoconstrição e a agregação plaquetária, que estão implicadas na fisiopatologia da PE. Estudos randomizados, como o ASPRE, demonstraram redução significativa da PE precoce com o uso de AAS nessa população.
A suplementação de cálcio é uma medida adjuvante, especialmente em populações com baixa ingesta (< 600 mg/dia). As diretrizes recomendam 1,0-2,0 g/dia para gestantes de alto risco com baixa ingesta, pois a deficiência de cálcio pode contribuir para a hipertensão gestacional. No Brasil, o Manual de Emergências Obstétricas sugere carbonato de cálcio 500 mg VO de 8/8 horas (total 1,5 g/dia). A suplementação não é recomendada para gestantes com ingesta normal de cálcio, pois não há benefício comprovado nesse grupo.
A distinção crucial que a banca explora é entre os fatores de risco (alto vs. moderado) e a consequente indicação de profilaxia. Um fator de alto risco (história prévia de PE, hipertensão crônica, doença renal, diabetes, obesidade, gestação múltipla, etc.) ou dois fatores de risco moderado (nuliparidade, idade > 40 anos, IMC > 30, etc.) indicam o uso de AAS. A pegadinha comum é confundir a dose, o horário ou o início do tratamento, ou ainda negligenciar o papel do cálcio como adjuvante. Guarde a tríade: rastreio combinado no 1º trimestre → AAS em baixa dose antes de 16 semanas → cálcio adjuvante em baixa ingesta. É exatamente essa combinação que as assertivas I, II e III descrevem.
Item I — ✅ Correto
A assertiva descreve com precisão o rastreio combinado da Fetal Medicine Foundation: história clínica, pressão arterial média, PI da artéria uterina e PIGF, realizado na ultrassonografia morfológica do 1º trimestre (11-13+6 semanas). Esse algoritmo tem excelente predição para PE antes de 37 semanas (PE precoce), que é a forma mais associada a desfechos adversos. As diretrizes brasileiras de hipertensão (2020) e internacionais (FIGO, NICE, ACOG) endossam esse método de rastreio.
Item II — ✅ Correto
A assertiva está correta: pacientes de alto risco devem receber AAS em baixa dose (100-150 mg/dia, à noite), com início antes das 16 semanas, para reduzir a incidência de PE precoce. As diretrizes recomendam 75-150 mg/dia, iniciado preferencialmente antes de 16 semanas. O Manual de Emergências Obstétricas brasileiro recomenda AAS 100 mg à noite, iniciado entre 12 e 16 semanas. O benefício é maior quando o tratamento é iniciado precocemente, antes do estabelecimento da placentação anormal.
Item III — ✅ Correto
A assertiva está correta: a suplementação de cálcio (1,5-2,0 g/dia) pode ser utilizada em pacientes de alto risco, especialmente com baixa ingesta de cálcio, como medida profilática adjuvante ao AAS. As diretrizes recomendam cálcio 1,0-2,0 g/dia para gestantes com baixa ingesta (< 600 mg/dia) e risco moderado/alto de PE. No Brasil, a dose usual é 1,5 g/dia (500 mg de 8/8 horas). A suplementação não é recomendada para ingesta normal, mas é adjuvante válida no grupo de risco.
Conclusão: As três assertivas estão corretas, portanto o gabarito é a letra E (I, II e III).