Questão de Medicina — Doenças Infecto-Parasitárias — FUNDATEC 2023
Medicina›Doenças Infecto-Parasitárias
Código
qq901833
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Limeira - SP
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico Diarista - Infectologista
Assinale a alternativa correta sobre a leptospirose.
ADoença infecciosa febril de início insidioso, cujo espectro clínico apresenta em sua maioria formas graves.
BA ingestão de água ou alimentos contaminados é a forma mais relatada de contágio.
CAs apresentações clínicas da leptospirose são divididas em três fases: fase precoce (fase leptospirêmica), fase tardia (fase imune) e fase hemorrágica.
DA imunidade adquirida pós-infecção é sorovar-específica, podendo um mesmo indivíduo apresentar a doença mais de uma vez se o agente etiológico de cada episódio pertencer a um sorovar diferente do(s) anterior(es).
EEntre as alterações laboratoriais estão creatinina e potássio elevados com bilirrubinas alteradas às custas da fração indireta.
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GabaritoD — A imunidade adquirida pós-infecção é sorovar-específica, podendo um mesmo indivíduo apresentar a doença mais de uma vez se o agente etiológico de cada episódio pertencer a um sorovar diferente do(s) anterior(es).
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Leptospirose: imunidade sorovar-específica e reinfecção
Gabarito: letra D. A leptospirose confere imunidade sorovar-específica, ou seja, a proteção adquirida após a infecção é dirigida apenas contra o sorovar causador daquele episódio — por isso, um mesmo indivíduo pode adoecer novamente se for infectado por um sorovar diferente. Essa é a característica imunológica central da doença, que a alternativa D descreve corretamente.
A leptospirose é uma antropozoonose causada por bactérias espiroquetas do gênero Leptospira, sendo a L. interrogans a espécie patogênica mais importante. A transmissão ao homem ocorre, em regra, pelo contato com água ou solo contaminados pela urina de animais infectados — principalmente roedores —, e a bactéria penetra através de lesões na pele ou mucosas. O quadro clínico é extremamente variável: a maioria dos casos é oligossintomática ou leve, mas uma minoria evolui para formas graves, como a síndrome de Weil (icterícia, insuficiência renal e hemorragias).
A doença é classicamente descrita como bifásica. A primeira fase, chamada septicêmica ou leptospirêmica, dura cerca de 5 a 7 dias e coincide com a presença da bactéria no sangue. Após um breve período de melhora, pode surgir a segunda fase, a imune, caracterizada pelo aparecimento de anticorpos IgM e pelo risco de complicações como meningite, lesão renal aguda e hemorragia pulmonar. É importante destacar que menos de 50% dos pacientes apresentam as duas fases de forma clássica.
O ponto que decide esta questão é a imunidade. Diferentemente de outras doenças bacterianas, a leptospirose não confere imunidade duradoura e cruzada entre os diferentes sorovares. Como a bactéria possui grande variabilidade antigênica (mais de 250 sorovares descritos), a resposta imune protetora é específica para o sorovar infectante. Isso significa que uma pessoa pode ter leptospirose mais de uma vez, desde que os episódios sejam causados por sorovares distintos. Essa é a base da alternativa D e o critério que separa as alternativas corretas das incorretas.
Leptospirose
1Transmissão
Contato com água/solo contaminados
Urina de roedores
Penetração por pele/mucosas
2Fases (bifásica)
Precoce (leptospirêmica)
5 a 7 dias
Bactéria no sangue
Tardia (imune)
Anticorpos IgM
Complicações (Weil, renal, pulmonar)
3Imunidade
Sorovar-específica
Não confere proteção cruzada
Reinfecção por sorovar distinto
4Laboratório
Hipocalemia (regra)
Icterícia às custas de bilirrubina direta
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a leptospirose tem início insidioso e que a maioria dos casos é grave. Há dois erros: o início é abrupto, com febre alta, calafrios e mialgia intensa, e a maioria dos casos é leve ou oligossintomática — as formas graves (síndrome de Weil, hemorragia pulmonar) ocorrem em minoria, embora com letalidade relevante (7 a 10%). A banca inverte o padrão clínico predominante.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a ingestão de água ou alimentos contaminados é a forma mais relatada de contágio. A via de transmissão mais importante é o contato da pele (com lesões) ou mucosas com água ou solo contaminados pela urina de animais infectados — não a ingestão. A penetração ocorre pela pele íntegra após exposição prolongada ou por pequenas soluções de continuidade. A alternativa troca a via de transmissão predominante.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Divide as apresentações clínicas em três fases: precoce, tardia e hemorrágica. A descrição clássica é bifásica: fase precoce (leptospirêmica ou septicêmica) e fase tardia (imune). Não existe uma "fase hemorrágica" como terceira fase — as manifestações hemorrágicas, quando ocorrem, fazem parte das formas graves da fase imune (como na síndrome de Weil). A banca inventa uma terceira fase.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A imunidade pós-infecção é sorovar-específica: os anticorpos produzidos protegem apenas contra o sorovar causador daquele episódio. Como existem muitos sorovares de Leptospira, um indivíduo pode ser reinfectado por um sorovar diferente e apresentar a doença novamente. Essa é a característica imunológica correta e o fundamento da alternativa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que as alterações laboratoriais incluem creatinina e potássio elevados com bilirrubinas alteradas às custas da fração indireta. Há dois erros: na leptospirose, a lesão renal tubular cursa frequentemente com hipocalemia (perda de potássio pela urina), sendo a hipercalemia um fator de mau prognóstico — não a regra. Além disso, a icterícia é predominantemente direta (bilirrubina conjugada), por injúria vascular sem necrose hepatocelular significativa. A alternativa inverte os padrões laboratoriais típicos.