Questão de Medicina — Anatomia e Fisiologia Humana em Medicina — FUNDATEC 2023
Medicina›Anatomia e Fisiologia Humana em Medicina
Código
qq901858
Banca
FUNDATEC
Órgão
Prefeitura de Limeira - SP
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico Diarista - Proctologista
Paciente de 28 anos com quadro de diarreia e dor abdominal é diagnosticada com doença de Crohn em íleo terminal. Por apresentar doença bem localizada apenas no íleo terminal e boas condições clínicas, optou-se por tratamento cirúrgico eletivo com ileocolectomia. Quais cuidados devem ser tomados nesse contexto?
AConfecção de uma ileostomia protetora devido ao risco de fístula de anastomose na doença de Crohn.
BSe, no transoperatório, for identificada doença sincrônica em delgado proximal, ela não deve ser abordada neste mesmo momento, e deve-se considerar o uso de biológicos para seu tratamento no pós-cirúrgico.
CO uso de esteroides e probióticos está indicado no pós-operatório para a prevenção da recorrência.
DSe encontrada massa inflamatória no transoperatório, é importante avaliar a presença de fistulização e o local mais provável de estar envolvido pela fístula é o sigmoide.
EDevido ao alto risco de doença futura no cólon direito, o melhor ponto de ressecção colônica para anastomose é o cólon transverso proximal.
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GabaritoD — Se encontrada massa inflamatória no transoperatório, é importante avaliar a presença de fistulização e o local mais provável de estar envolvido pela fístula é o sigmoide.
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Doença de Crohn: cuidados no tratamento cirúrgico (ileocolectomia)
Gabarito: letra D. Em paciente com doença de Crohn submetido à ileocolectomia, a presença de massa inflamatória no transoperatório deve levantar a suspeita de fístula, sendo o sigmoide o local mais provável de envolvimento — conduta que a alternativa D descreve corretamente. As demais alternativas trazem condutas incorretas ou sem fundamento na prática cirúrgica atual.
A doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal (DII) crônica, transmural, que pode acometer qualquer segmento do trato gastrointestinal, mas com predileção pelo íleo terminal e cólon direito. A inflamação transmural é a chave para entender as complicações: ela atravessa todas as camadas da parede intestinal e pode levar à formação de fístulas — trajetos anormais que conectam o intestino a outros órgãos ou à pele. As fístulas podem ser enteroentéricas, enterocólicas, enterocutâneas, enterovesicais ou retovaginais. No contexto de uma massa inflamatória no transoperatório, o cirurgião deve suspeitar de fistulização, e o sigmoide é o local classicamente mais envolvido, pois fica em proximidade anatômica com o íleo terminal e o ceco, região onde a doença costuma se concentrar.
O tratamento cirúrgico na doença de Crohn não é curativo — ele é indicado para complicações (obstrução, perfuração, estenose fibrótica, hemorragia, megacólon tóxico) ou quando há falha do tratamento clínico. A cirurgia visa ressecar o segmento doente e restaurar o trânsito intestinal, mas a doença tende a recidivar, especialmente na anastomose. Por isso, a prevenção da recorrência pós-operatória é um ponto central: o uso de imunomoduladores ou biológicos (como anti-TNF) é recomendado em pacientes de alto risco, enquanto esteroides e probióticos não têm papel comprovado na prevenção da recorrência. A decisão de criar uma ileostomia protetora não é automática — ela é considerada em situações de risco aumentado de deiscência de anastomose, como uso de corticosteroides em altas doses, desnutrição, sepse ou anastomose sob tensão, mas não é uma regra para todos os casos de Crohn.
Outro ponto importante é o manejo de doença sincrônica: se no transoperatório for identificada doença em outro segmento do delgado, a conduta ideal é abordá-la no mesmo ato cirúrgico, ressecando ou realizando estricturoplastia, para evitar nova cirurgia precoce. Adiar o tratamento para o pós-operatório com biológicos não é a conduta padrão quando a doença é ressecável no mesmo momento. Quanto à extensão da ressecção, o princípio é preservar ao máximo o intestino, pois o paciente com Crohn frequentemente precisará de novas ressecções ao longo da vida — ressecar até o cólon transverso proximal seria uma conduta mutilante e sem benefício, já que a doença não tem predileção específica pelo cólon direito que justifique uma ressecção tão ampla.
A pegadinha desta questão está em distinguir o que é conduta baseada em evidência do que é mito ou prática ultrapassada. A banca explora a confusão entre indicações precisas de ileostomia, o papel dos biológicos no pós-operatório e a localização anatômica das fístulas. Guarde o critério decisivo: massa inflamatória no transoperatório → pensar em fístula → sigmoide é o local mais provável — é exatamente nesse raciocínio que as alternativas se dividem.
Ileocolectomia na doença de Crohn: Massa inflamatória no transoperatório (Suspeitar de fístula, Sigmoide é o local mais provável); Doença sincrônica em delgado proximal (Abordar no mesmo ato cirúrgico, Ressecção ou estricturoplastia); Prevenção de recorrência (Imunomoduladores ou biológicos, Esteroides e probióticos (sem papel)); Ileostomia protetora (Não é rotina, Reservada para alto risco de deiscência); Extensão da ressecção (Preservar ao máximo o intestino, Ressecção até transverso proximal (mutilante))
Alternativa A — ❌ Incorreta
A ileostomia protetora não é indicada rotineiramente em todo paciente com Crohn submetido à ileocolectomia. Ela é reservada para situações de alto risco de deiscência de anastomose, como uso de corticosteroides em altas doses, desnutrição grave, sepse intra-abdominal ou anastomose sob tensão. Em paciente com doença bem localizada e boas condições clínicas, como no caso, a anastomose primária sem estoma protetor é a conduta padrão. A alternativa erra ao generalizar a indicação de ileostomia para todos os casos de Crohn.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Se for identificada doença sincrônica em delgado proximal no transoperatório, a conduta correta é abordá-la no mesmo ato cirúrgico, seja por ressecção segmentar ou estricturoplastia, sempre com o objetivo de preservar o máximo de intestino. Adiar o tratamento para o pós-operatório com biológicos não é a conduta ideal quando a doença é ressecável no mesmo momento, pois isso expõe o paciente a uma segunda cirurgia precoce e a um risco aumentado de complicações. A alternativa inverte a lógica do tratamento cirúrgico: a doença sincrônica deve ser tratada na mesma operação.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O uso de esteroides no pós-operatório não é recomendado para prevenção de recorrência da doença de Crohn — os corticosteroides são usados na indução de remissão de doença ativa, mas não têm papel na manutenção e podem aumentar o risco de complicações cirúrgicas. Os probióticos também não têm evidência suficiente para prevenir recorrência. A prevenção da recorrência pós-operatória é feita com imunomoduladores (azatioprina, mercaptopurina) ou biológicos (anti-TNF), especialmente em pacientes de alto risco. A alternativa erra ao indicar esteroides e probióticos, que não são a terapia de manutenção recomendada.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A presença de massa inflamatória no transoperatório em paciente com Crohn deve levantar a suspeita de fistulização, pois a inflamação transmural pode criar trajetos fistulosos entre o intestino e estruturas adjacentes. O sigmoide é o local mais provável de envolvimento, devido à sua proximidade anatômica com o íleo terminal e o ceco, região onde a doença costuma se concentrar. Essa é uma conduta clássica na cirurgia de Crohn: ao encontrar uma massa, o cirurgião deve explorar cuidadosamente a presença de fístulas e identificar o órgão envolvido para planejar a ressecção adequada. A alternativa está correta ao descrever essa avaliação e a localização mais comum da fístula.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Não há justificativa para ressecar o cólon até o transverso proximal em paciente com doença limitada ao íleo terminal. O princípio da cirurgia de Crohn é preservar ao máximo o intestino, pois o paciente frequentemente precisará de novas ressecções ao longo da vida. A doença não tem predileção específica pelo cólon direito que justifique uma ressecção tão ampla — a anastomose deve ser feita no ponto mais distal possível, poupando o cólon saudável. A alternativa erra ao propor uma ressecção extensa e desnecessária, que aumentaria a morbidade sem benefício oncológico ou de controle da doença.
Gabarito: letra D — a conduta correta é avaliar a presença de fistulização ao encontrar massa inflamatória no transoperatório, sendo o sigmoide o local mais provável de envolvimento.