Questão de Medicina — Pediatria e Neonatologia — FUNDATEC 2023
- Código
- qq906691
- Banca
- FUNDATEC
- Órgão
- SPGG - RS
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médica (Pediatra)
- AApenas I.
- BApenas II.
- CApenas III.
- DApenas II e III
- EI, II e III.
GabaritoD — Apenas II e III
Gabarito: letra D (apenas II e III). A assertiva I está incorreta porque glicemia de 88 mg/dL não é hipoglicemia — o limiar para hipoglicemia nível 2 é < 54 mg/dL, conforme a classificação da American Diabetes Association (ADA). As assertivas II e III estão corretas: crianças menores de 6 anos e diabetes de longa duração são fatores de risco reconhecidos, e tremores, sudorese fria e palpitações são sintomas autonômicos (adrenérgicos) clássicos de hipoglicemia.
A hipoglicemia é a complicação aguda mais comum do DM1 e representa o principal fator limitante para o controle glicêmico intensivo. Ela ocorre quando há um desequilíbrio entre a oferta de glicose e a ação da insulina — seja por dose excessiva do hormônio, atraso ou omissão de refeições, atividade física não planejada ou consumo de álcool. O organismo responde à queda da glicemia com uma cascata de mecanismos contrarregulatórios: inicialmente há liberação de glucagon e adrenalina, que geram os sintomas autonômicos (adrenérgicos), e, se a hipoglicemia persiste, surgem os sintomas neuroglicopênicos, decorrentes da falta de glicose no sistema nervoso central.
A classificação da ADA, adotada internacionalmente e referendada pela Sociedade Brasileira de Diabetes, divide a hipoglicemia em três níveis:
Nível | Glicemia | Característica |
|---|---|---|
Nível 1 | 54 a 69 mg/dL | Alerta de hipoglicemia — valor que permite ao paciente se tratar antes de perder a consciência |
Nível 2 | < 54 mg/dL | Hipoglicemia clinicamente significativa — exige ação imediata |
Nível 3 | Qualquer valor | Hipoglicemia grave — paciente precisa de ajuda de terceiros por comprometimento cognitivo |
A assertiva I afirma que 88 mg/dL seria hipoglicemia nível 2 — erro duplo: 88 mg/dL está acima do limiar de 70 mg/dL (valor que define hipoglicemia em diabéticos) e o nível 2 exige glicemia < 54 mg/dL. A banca explora exatamente a confusão entre os valores de corte.
Os sintomas autonômicos são a primeira manifestação da hipoglicemia e resultam da ativação do sistema nervoso simpático. Eles incluem tremores, sudorese fria, palpitações, taquicardia, ansiedade, fome e parestesias. Já os sintomas neuroglicopênicos — cefaleia, sonolência, confusão mental, convulsão e coma — surgem quando a glicose cerebral é insuficiente e indicam hipoglicemia mais grave. Essa distinção é fundamental na prática clínica, pois pacientes com diabetes de longa duração ou em uso de betabloqueadores podem não apresentar os sintomas autonômicos de alerta, manifestando diretamente a neuroglicopenia — condição conhecida como hipoglicemia assintomática ou desconhecida.
Os fatores de risco para hipoglicemia em crianças com DM1 incluem idade menor que 6 anos (pela dificuldade de reconhecer e comunicar os sintomas, além da maior sensibilidade à insulina), diabetes de longa duração (pela perda progressiva da resposta contrarregulatória), episódios prévios de hipoglicemia grave, controle glicêmico muito rígido, e condições como insuficiência renal. A assertiva II está correta ao citar esses dois fatores.
A pegadinha central desta questão está na assertiva I: o candidato pode confundir o valor de 88 mg/dL com um valor de hipoglicemia, quando na verdade ele está dentro da faixa de normalidade ou até mesmo levemente elevado. A banca também testa o conhecimento da classificação da ADA, que é atualizada e específica — não basta saber que hipoglicemia é "glicemia baixa", é preciso conhecer os pontos de corte exatos.
A assertiva afirma que glicemia de 88 mg/dL é hipoglicemia nível 2. Isso está errado por dois motivos: primeiro, 88 mg/dL está acima do limiar de 70 mg/dL que define hipoglicemia em pacientes diabéticos; segundo, o nível 2 da classificação da ADA exige glicemia < 54 mg/dL. O valor de 88 mg/dL é uma glicemia normal ou levemente elevada, não hipoglicemia. A banca troca o valor de corte — o nível 2 é < 54 mg/dL, não 88 mg/dL.
Crianças menores de 6 anos e diabetes de longa duração são, de fato, fatores de risco para hipoglicemia. Em crianças pequenas, a dificuldade de reconhecer e comunicar os sintomas, a maior sensibilidade à insulina e a imprevisibilidade alimentar aumentam o risco. No diabetes de longa duração, há perda progressiva da resposta contrarregulatória (diminuição da secreção de glucagon e da resposta adrenérgica), o que predispõe a episódios mais frequentes e graves, incluindo a hipoglicemia assintomática.
Tremores, sudorese fria e palpitações são sintomas autonômicos (adrenérgicos) clássicos de hipoglicemia. Eles resultam da ativação do sistema nervoso simpático em resposta à queda da glicemia e são os primeiros sinais de alerta. A assertiva está correta ao listar esses três sintomas, que fazem parte do quadro clínico típico de hipoglicemia leve a moderada.
Conclusão: Corretos os itens II e III → portanto, a alternativa é a letra D.
A banca explora a confusão entre os valores de corte da hipoglicemia. O candidato pode achar que 88 mg/dL é um valor baixo, mas o limiar para hipoglicemia em diabéticos é < 70 mg/dL, e o nível 2 (clinicamente significativo) é < 54 mg/dL. Memorize a tabela da ADA: nível 1 (54–69), nível 2 (< 54), nível 3 (grave, independente do valor).
Para questões de hipoglicemia, decore a classificação da ADA e os sintomas autonômicos vs. neuroglicopênicos. Na prova, se a assertiva trouxer um valor de glicemia, compare imediatamente com os pontos de corte: 70 mg/dL (limiar), 54 mg/dL (nível 2). Sintomas autonômicos = tremores, sudorese, palpitação, ansiedade, fome; neuroglicopênicos = confusão, sonolência, convulsão, coma.
Gabarito: letra D
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