Questão de Biomedicina - Análises Clínicas — Bioquímica em Biomedicina — IBFC 2023
Biomedicina - Análises Clínicas›Bioquímica em Biomedicina
Código
qq931374
Banca
IBFC
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Biomédico
A disbetalipoproteinemia familiar, rara em 1 a cada 5.000 a 10.000 pessoas, caracteriza-se por aterosclerose prevalente em artérias periféricas. Os pacientes exibem xantomas e estrias xantomatosas, enquanto o diagnóstico laboratorial destaca um padrão anormal de apoproteína E, com TC > 300 mg/dl e CT > 400 mg/dl. A razão colesterol VLDL/TG, a 0,3, diferencia essa condição da hipertrigliceridemia familiar (tipo IV), um distúrbio autossômico dominante que afeta 1% da população, elevando TG e VLDL.Um paciente apresenta valores elevados de colesterol total (CT) acima de 400 mg/dl, triglicerídeos (TG) entre 300 a 500 mg/dl e uma razão entre colesterol VLDL e TG igual a 0,3. Ao analisar os achados laboratoriais, observa-se um padrão anormal de apoproteína E na ultracentrifugação e focalização isoelétrica.Assinale a alternativa que melhor corresponde à condição clínica descrita no caso, considerando os valores laboratoriais apresentados e as características específicas do padrão de apoproteína E.
AHipertrigliceridemia familiar (tipo IV)
BDisbetalipoproteinemia familiar
CHiperlipidemia combinada familiar
DAterosclerose nas artérias periféricas
ESíndrome Metabólica
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GabaritoB — Disbetalipoproteinemia familiar
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Gabarito: letra B. O caso descreve disbetalipoproteinemia familiar (tipo III), pois apresenta CT > 400 mg/dl, TG entre 300–500 mg/dl, razão colesterol VLDL/TG = 0,3 e padrão anormal de apoproteína E — tríade que diferencia essa condição da hipertrigliceridemia familiar (tipo IV). O diagnóstico se apoia na identificação do alelo apo E2 (homozigose ou mutação), que compromete a depuração das partículas remanescentes de VLDL e IDL.
A disbetalipoproteinemia familiar é uma dislipidemia mista, caracterizada pelo acúmulo de lipoproteínas remanescentes (IDL e VLDL remanescente) ricas em colesterol e triglicerídeos. A base fisiopatológica está na apoproteína E: a apo E é a ligante que permite a captação dessas partículas pelos receptores hepáticos de LDL. O alelo apo E2 tem afinidade reduzida por esses receptores — cerca de 1% da afinidade da apo E3 —, o que retarda a depuração das partículas remanescentes. Em homozigotos para apo E2, a lipase lipoproteica (LPL) hidrolisa o cerne de triglicerídeos, mas as partículas remanescentes de VLDL e IDL se acumulam na circulação, elevando simultaneamente colesterol e triglicerídeos.
O diagnóstico laboratorial clássico se baseia em três pilares: (1) elevação conjunta de CT e TG, geralmente em níveis similares (300–400 mg/dl cada, podendo ultrapassar 400 mg/dl); (2) razão colesterol VLDL/TG ≥ 0,3 (na hipertrigliceridemia pura, essa razão é < 0,25–0,3, pois o VLDL é pobre em colesterol); e (3) padrão anormal de apo E na focalização isoelétrica, com presença do alelo E2. A ultracentrifugação demonstra o acúmulo de partículas de densidade intermediária (IDL), que aparecem como uma banda beta-VLDL — daí o nome histórico "disbetalipoproteinemia" ou "hiperlipoproteinemia tipo III".
Na prática clínica, o paciente típico apresenta xantomas palmares (xantomas estriados nos sulcos das mãos — sinal quase patognomônico), xantomas tuberosos e aterosclerose precoce, com predileção por artérias periféricas e coronárias. A expressão do fenótipo frequentemente exige um fator precipitante, como diabetes melito, etilismo ou hipotireoidismo, que aumente a produção ou diminua a depuração das lipoproteínas. O tratamento envolve correção dos fatores secundários, dieta hipolipemiante e, se necessário, fibratos e estatinas.
A distinção central que a questão explora é entre a disbetalipoproteinemia (tipo III) e a hipertrigliceridemia familiar (tipo IV). Na tipo IV, há elevação isolada de TG e VLDL, com CT normal ou discretamente elevado, e a razão colesterol VLDL/TG é baixa (< 0,25). Na tipo III, a razão é ≥ 0,3, refletindo o VLDL rico em colesterol. Essa razão é o critério laboratorial que separa as duas condições — e é exatamente nela que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A hipertrigliceridemia familiar (tipo IV) é um distúrbio autossômico dominante que eleva TG e VLDL, mas com CT geralmente normal ou pouco elevado. A razão colesterol VLDL/TG é baixa (< 0,25), não 0,3. Além disso, não há padrão anormal de apo E — o defeito está na superprodução de VLDL, não na depuração de remanescentes. O caso apresenta CT > 400 mg/dl e razão 0,3, o que afasta a tipo IV.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A disbetalipoproteinemia familiar (tipo III) é a condição que melhor se encaixa: CT > 400 mg/dl, TG entre 300–500 mg/dl, razão colesterol VLDL/TG = 0,3 e padrão anormal de apo E (apo E2). A razão ≥ 0,3 é o marcador laboratorial que diferencia da tipo IV, e a alteração da apo E é o defeito genético subjacente. A aterosclerose periférica e os xantomas palmares completam o quadro clínico descrito no enunciado.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A hiperlipidemia combinada familiar (HLCF) é caracterizada por níveis elevados de LDL-colesterol, VLDL-triglicerídeos ou ambos, com fenótipo variável. Os pacientes apresentam altos níveis de apo B (> 120 mg/dl) e baixa razão LDL-c/apo B100 (< 1,2), com partículas LDL pequenas e densas. Não há padrão anormal de apo E, e a razão colesterol VLDL/TG não é o marcador diagnóstico. Além disso, xantomas e xantelasmas não são características típicas da HLCF.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Aterosclerose nas artérias periféricas é uma manifestação clínica da disbetalipoproteinemia, não uma condição diagnóstica em si. A alternativa descreve uma consequência da doença, não a doença. O enunciado pede a condição clínica que explica os achados laboratoriais (CT, TG, razão VLDL/TG e apo E), e a aterosclerose periférica não é um diagnóstico laboratorial.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A síndrome metabólica é um conjunto de fatores de risco (obesidade abdominal, hipertensão, disglicemia, dislipidemia) que aumenta o risco cardiovascular. Embora possa cursar com dislipidemia, não apresenta o padrão específico de apo E anormal nem a razão colesterol VLDL/TG = 0,3. O diagnóstico de síndrome metabólica exige critérios clínicos e laboratoriais distintos, como circunferência abdominal aumentada e glicemia de jejum elevada, que não estão descritos no caso.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir a disbetalipoproteinemia (tipo III) com a hipertrigliceridemia familiar (tipo IV), pois ambas elevam TG. O que separa as duas é a razão colesterol VLDL/TG: ≥ 0,3 na tipo III (VLDL rico em colesterol) e < 0,25 na tipo IV (VLDL pobre em colesterol). Além disso, a presença de padrão anormal de apo E é exclusiva da tipo III — na tipo IV, a apo E é normal. Guarde essa razão: ela é o critério que decide a questão.
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as dislipidemias na prova, monte uma tabela mental com os valores típicos: tipo III (CT e TG elevados em níveis similares, razão VLDL/TG ≥ 0,3, apo E2) vs. tipo IV (TG elevado, CT normal, razão VLDL/TG < 0,25, apo E normal). Se a questão mencionar "padrão anormal de apo E" ou "xantomas palmares", a resposta quase sempre será disbetalipoproteinemia familiar.