Questão de Medicina — Genética Médica — IBFC 2023
- Código
- qq932624
- Banca
- IBFC
- Órgão
- EBSERH
- Ano
- 2023
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Genética
- ACariótipo com bandeamento G
- BFISH
- CMLPA
- DAnálise cromossômica por microarray
- EPainel Genético de Rasopatias
GabaritoE — Painel Genético de Rasopatias
Gabarito: letra E. A síndrome apontada no enunciado é uma Rasopatia — grupo de doenças causadas por variantes patogênicas em genes da via RAS-MAPK, como a síndrome de Noonan, a síndrome de Costello e a neurofibromatose tipo 1. O diagnóstico genético dessas condições é feito preferencialmente por painel genético de Rasopatias, que analisa simultaneamente os múltiplos genes dessa via, sendo essa a alternativa correta. As demais técnicas (cariótipo, FISH, MLPA e microarray) são úteis para outras classes de alterações genéticas, mas não são o método de escolha para detectar as mutações pontuais típicas das Rasopatias.
As Rasopatias constituem um grupo de síndromes genéticas de herança autossômica dominante, na sua maioria, que compartilham a desregulação da via de sinalização RAS-MAPK, essencial para a proliferação, diferenciação e sobrevivência celular. Os genes envolvidos — como PTPN11, SOS1, RAF1, RIT1, KRAS, NRAS, BRAF, MAP2K1, MAP2K2, HRAS e NF1 — codificam proteínas que participam dessa cascata de sinalização. As manifestações clínicas são variadas e incluem baixa estatura, dismorfismos faciais característicos, cardiopatias congênitas (especialmente estenose pulmonar e cardiomiopatia hipertrófica), alterações cutâneas e predisposição a tumores.
O diagnóstico molecular dessas síndromes é desafiador porque há grande heterogeneidade genética e fenotípica: diferentes genes podem causar quadros clínicos semelhantes, e um mesmo gene pode estar associado a fenótipos distintos. Por isso, a estratégia diagnóstica mais eficiente é o sequenciamento de nova geração (NGS) com painel multigênico, que permite analisar, em um único exame, todos os genes conhecidos da via RAS-MAPK. O painel genético de Rasopatias é, portanto, o exame de escolha quando há suspeita clínica dessas síndromes, pois aumenta a sensibilidade diagnóstica e reduz o tempo e o custo em comparação com o sequenciamento gênico sequencial.
Na prática clínica, o fluxo diagnóstico começa com a avaliação clínica criteriosa, seguida da solicitação do painel genético. Por exemplo, uma criança com baixa estatura, pescoço alado, estenose pulmonar e fácies típica de Noonan teria indicação de painel de Rasopatias. Se o painel não identificar variante patogênica, pode-se considerar o sequenciamento do exoma ou genoma, especialmente em casos atípicos. É importante destacar que a confirmação molecular não é obrigatória para o diagnóstico clínico, mas é fundamental para o aconselhamento genético, para a correlação genótipo-fenótipo e, em alguns casos, para a definição de condutas terapêuticas.
A distinção crucial que separa as alternativas é a natureza da alteração genética que cada técnica detecta. O cariótipo com bandeamento G analisa o número e a estrutura dos cromossomos em nível de resolução citogenética, sendo útil para aneuploidias (como a síndrome de Turner, 45,X) e grandes rearranjos. A FISH (hibridização in situ fluorescente) detecta sequências específicas de DNA em cromossomos ou núcleos interfásicos, sendo útil para microdeleções, aneuploidias e rearranjos cromossômicos. A MLPA (amplificação multiplex dependente de ligação por sondas) quantifica o número de cópias de sequências específicas, detectando deleções e duplicações de éxons ou genes inteiros. A análise cromossômica por microarray (CMA) detecta variações no número de cópias (CNVs) em todo o genoma, com alta resolução, mas não detecta mutações de ponto. As Rasopatias, por sua vez, são causadas predominantemente por mutações de ponto (missense, nonsense, splicing) e pequenas inserções/deleções, que não são detectadas por nenhuma dessas técnicas citogenéticas ou de CNV — daí a necessidade do painel genético.
A pegadinha da banca está em oferecer técnicas que são amplamente conhecidas e utilizadas em genética médica, mas que não se aplicam ao contexto das Rasopatias. O candidato que memoriza as indicações de cada exame sem compreender a base molecular das doenças pode ser induzido a escolher uma alternativa como o microarray, que é um exame moderno e de alta resolução, mas que não detecta mutações de ponto. A chave é associar o tipo de doença (Rasopatia) ao tipo de alteração genética (mutação de ponto) e, consequentemente, ao método de detecção adequado (sequenciamento/painel).
O cariótipo com bandeamento G é o exame de primeira linha para detectar alterações cromossômicas numéricas e estruturais, como aneuploidias (síndrome de Down, síndrome de Turner), deleções, duplicações e translocações de grande porte. No entanto, ele não tem resolução para detectar mutações de ponto, que são a base molecular das Rasopatias. A resolução do cariótipo é de aproximadamente 5-10 Mb, ou seja, alterações menores que isso não são visíveis. Portanto, o cariótipo não é o exame indicado para o diagnóstico das Rasopatias.
A FISH (hibridização in situ fluorescente) é uma técnica que utiliza sondas fluorescentes para detectar sequências específicas de DNA em cromossomos ou núcleos. É útil para identificar aneuploidias (como a trissomia do 21), microdeleções (como a síndrome de DiGeorge) e rearranjos cromossômicos. No entanto, a FISH só detecta as sequências para as quais existem sondas específicas, e não é capaz de identificar mutações de ponto em genes como PTPN11 ou SOS1. Portanto, não é o exame de escolha para Rasopatias.
A MLPA (amplificação multiplex dependente de ligação por sondas) é uma técnica de biologia molecular que quantifica o número de cópias de sequências específicas de DNA. É amplamente utilizada para detectar deleções e duplicações de éxons ou genes inteiros, como na distrofia muscular de Duchenne e na síndrome de Williams. No entanto, a MLPA não detecta mutações de ponto, que são a alteração mais comum nas Rasopatias. Portanto, não é o exame indicado para o diagnóstico dessas síndromes.
A análise cromossômica por microarray (CMA), também conhecida como aCGH ou SNP-array, é uma técnica de alta resolução que detecta variações no número de cópias (CNVs) em todo o genoma. É útil para identificar microdeleções e microduplicações submicroscópicas, como na síndrome de microdeleção 22q11.2. No entanto, a CMA não detecta mutações de ponto, nem pequenas inserções/deleções (indels) que não alteram o número de cópias. Como as Rasopatias são causadas predominantemente por mutações de ponto, a CMA não é o exame de escolha.
O painel genético de Rasopatias é um exame de sequenciamento de nova geração (NGS) que analisa simultaneamente os principais genes da via RAS-MAPK, incluindo PTPN11, SOS1, RAF1, RIT1, KRAS, NRAS, BRAF, MAP2K1, MAP2K2, HRAS e NF1. Esse painel é capaz de detectar mutações de ponto, pequenas inserções e deleções, e variações no sítio de splicing, que são as alterações responsáveis pelas Rasopatias. Por isso, é o exame de escolha para o diagnóstico molecular dessas síndromes, especialmente quando há suspeita clínica de síndrome de Noonan, síndrome de Costello, síndrome de cardio-facio-cutânea ou outras condições do grupo.
A escolha do exame genético deve ser guiada pela suspeita clínica e pela natureza da alteração genética esperada. Para doenças causadas por mutações de ponto em múltiplos genes, o painel multigênico é a estratégia mais eficiente. Para doenças cromossômicas, o cariótipo ou a FISH são mais adequados. Para doenças por CNVs, a MLPA ou o microarray são indicados. Compreender essa lógica é essencial para acertar questões como esta e para a prática clínica em genética médica.
Gabarito: letra E
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