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Questão de Português — Interpretação de Textos — IBFC 2023

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
qq938657
Banca
IBFC
Órgão
SEE-AC
Ano
2023
Nível
Médio
Luto da família Silva
(Rubem Braga)

    A Assistência foi chamada. Veio tinindo. Um homem estava deitado na calçada. Uma poça de sangue. A Assistência voltou vazia. O homem estava morto. O cadáver foi removido para o necrotério. Na seção dos “Fatos Diversos” do Diário de Pernambuco, leio o nome do sujeito: João da Silva. Morava na Rua da Alegria. Morreu de hemoptise.
     João da Silva – Neste momento em que seu corpo vai baixar à vala comum, nós, seus amigos e seus irmãos, vimos lhe prestar esta homenagem. Nós somos os joões da silva. Nós somos os populares joões da silva. Moramos em várias casas e em várias cidades. Moramos principalmente na rua. Nós pertencemos, como você, à família Silva. Não é uma família ilustre; nós não temos avós na história. Muitos de nós usamos outros nomes, para disfarce. No fundo, somos os Silva. Quando o Brasil foi colonizado, nós éramos os degredados. Depois fomos os índios. Depois fomos os negros. Depois fomos imigrantes, mestiços. Somos os Silva. Algumas pessoas importantes usaram e usam nosso nome. É por engano. Os Silva somos nós. Não temos a mínima importância. Trabalhamos, andamos pelas ruas e morremos. Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte. Às vezes, por modéstia, não usamos nosso nome de família. Usamos o sobrenome “de Tal”. A família Silva e a família “de Tal” são a mesma família. E, para falar a verdade, uma família que não pode ser considerada boa família. Até as mulheres que não são consideradas de família pertencem à família Silva.
      João da Silva – Nunca nenhum de nós esquecerá seu nome. Você não possuía sangue azul. O sangue que saía de sua boca era vermelho – vermelhinho da silva. Sangue de nossa família. Nossa família, João, vai mal em política. Sempre por baixo. Nossa família, entretanto, é que trabalha para os homens importantes. A família Crespi, a família Matarazzo, a família Guinle, a família Rocha Miranda, a família Pereira Carneiro, todas essas famílias assim são sustentadas pela nossa família. Nós auxiliamos várias famílias importantes na América do Norte, na Inglaterra, na França, no Japão. A gente de nossa família trabalha nas plantações de mate, nos pastos, nas fazendas, nas usinas, nas praias, nas fábricas, nas minas, nos balcões, no mato, nas cozinhas, em todo lugar onde se trabalha, levanta os prédios, conduz os bondes, enrola o tapete do circo, enche os porões dos navios, conta o dinheiro dos Bancos, faz os jornais, serve no Exército e na Marinha. Nossa família é feito Maria Polaca: faz tudo.
     Apesar disso, João da Silva, nós temos de enterrar você é mesmo na vala comum. Na vala comum da miséria. Na vala comum da glória, João da Silva. Porque nossa família um dia há de subir na política... 
Em “Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte.” (2º§). Assinale a alternativa que apresenta o emprego de uma figura de linguagem que:
  1. Aestabelece uma comparação simbólica entre duas imagens.
  2. Bsuaviza uma situação considerada muito difícil de ser vivenciada.
  3. Caproxima ideias contrárias que são excludentes entre si.
  4. Datribui características humanas a elementos inanimados.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — estabelece uma comparação simbólica entre duas imagens.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise da figura de linguagem em "Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte."

Gabarito: letra A. A figura empregada é a metáfora, que estabelece uma comparação simbólica entre duas imagens: "vala comum da vida" e "o mesmo local da morte". O autor não está dizendo que a vida é literalmente uma vala comum, mas usa essa imagem para simbolizar a origem humilde e anônima do sujeito (João da Silva) e a morte igualmente anônima. A expressão "vala comum" remete à cova dos pobres, e ao aplicar essa ideia à vida, cria-se uma analogia: a vida dos Silva é comum, sem destaque, assim como sua morte.

Trecho: "Saímos da vala comum da vida para o mesmo local da morte."

A comparação é simbólica, não explícita com "como", o que caracteriza a metáfora (figura de palavra).

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa descreve exatamente o que ocorre: "estabelece uma comparação simbólica entre duas imagens". A imagem da "vala comum" (a vida miserável) e a imagem do "mesmo local da morte" (a morte igualmente anônima) são postas em paralelo metafórico.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Esta alternativa descreve o eufemismo, que suaviza uma situação difícil. No entanto, a frase não atenua nada; ao contrário, ela afirma de modo direto e até cru a condição comum do início ao fim. Não há suavização.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Aqui se descreve a antítese, que aproxima ideias contrárias e excludentes. Vida e morte são opostos, mas no contexto o autor as trata como equivalentes (ambas "vala comum"). Não há oposição: a vida "comum" não se contrapõe à morte "comum"; são a mesma situação. Logo, não é antítese.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Esta alternativa descreve a personificação (prosopopeia), que atribui características humanas a seres inanimados. "Vala comum" e "local da morte" são lugares abstratos, mas não recebem ações ou qualidades humanas. A frase não os personifica.

Portanto, apenas a alternativa A está correta.

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