Questão de Odontologia — Manifestação Oral das Doenças Sistêmicas — INSTITUTO AOCP 2023
Odontologia›Manifestação Oral das Doenças Sistêmicas
Código
qq969280
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Multiprofisisonal e em Área Profissional da Saúde - Odontologia
A doença falciforme é uma das doenças genéticas de maior incidência no Brasil. É caracterizada por um número de alterações do gene da globina que, ao deixar de produzir a hemoglobina A, forma mais frequente no adulto, produz a hemoglobina S. A respeito da doença falciforme, assinale a alternativa correta.
AA anemia falciforme pode levar à deficiência de opsonização em neutrófilos, o que aumenta o risco de infecções por alguns microrganismos.
BPacientes com anemia falciforme podem apresentar anemia hemolítica caracterizada por episódios álgicos frequentes.
CA maior parte dos pacientes com anemia falciforme apresenta osteopenia.
DO manejo odontológico de pacientes com doença falciforme deve ser feito em ambiente hospitalar, devido aos riscos envolvidos.
ENão há indicação de profilaxia antibiótica prévia a procedimentos odontológicos, pois os riscos superam os possíveis benefícios.
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GabaritoA — A anemia falciforme pode levar à deficiência de opsonização em neutrófilos, o que aumenta o risco de infecções por alguns microrganismos.
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Doença falciforme: manifestações sistêmicas e manejo odontológico
Gabarito: letra A. A anemia falciforme cursa com disfunção do sistema complemento e da fagocitose, comprometendo a opsonização de microrganismos pelos neutrófilos — o que explica a maior suscetibilidade a infecções, sobretudo por bactérias encapsuladas (como pneumococo e salmonela). As demais alternativas ou invertem a fisiopatologia (B), generalizam achados que não são a regra (C), ou impõem condutas desproporcionais (D e E).
A doença falciforme é uma hemoglobinopatia hereditária autossômica recessiva, na qual ocorre a substituição do ácido glutâmico pela valina na posição 6 da cadeia beta da globina, originando a hemoglobina S (HbS). Em condições de baixa tensão de oxigênio, a HbS polimeriza, deformando a hemácia em formato de foice. Essas células rígidas e aderentes obstruem a microcirculação, causando dois fenômenos centrais: a anemia hemolítica crônica (pela destruição precoce das hemácias) e as crises vaso-oclusivas (episódios álgicos intensos por isquemia tecidual).
O sistema imunológico do paciente falciforme é particularmente vulnerável. O baço, que nos primeiros anos de vida ainda funciona, sofre infartos repetidos e progressivos, levando à autoesplenectomia funcional — perda da capacidade de filtrar bactérias encapsuladas e de produzir opsoninas. Além disso, há defeitos na via alternativa do complemento e na atividade fagocítica dos neutrófilos e macrófagos, com prejuízo da opsonização. Opsonização é o processo pelo qual microrganismos são marcados (por anticorpos ou fragmentos do complemento, como C3b) para serem reconhecidos e fagocitados. Sem essa marcação eficiente, bactérias encapsuladas escapam da destruição e causam infecções graves, como pneumonia pneumocócica, meningite, osteomielite por salmonela e sepse. Por isso, a profilaxia antibiótica com penicilina oral (até os 5 anos) e a vacinação contra pneumococo, Haemophilus influenzae tipo b e meningococo são pilares do manejo.
No consultório odontológico, o paciente falciforme exige cuidados específicos, mas não há contraindicação ao atendimento ambulatorial na maioria dos casos. O cirurgião-dentista deve: evitar o uso de anestésicos com vasoconstritores em altas doses (preferir lidocaína 2% com epinefrina 1:100.000, respeitando o limite máximo), controlar a dor e a ansiedade (o estresse e a dor podem precipitar crises vaso-oclusivas), manter o paciente bem hidratado e aquecido, evitar procedimentos longos e traumáticos, e considerar profilaxia antibiótica para procedimentos que causem bacteremia, conforme a avaliação do risco cardíaco e do estado imunológico. A decisão de realizar o atendimento em ambiente hospitalar é individualizada, reservada a pacientes com doença grave, crises frequentes, síndrome torácica aguda ou necessidade de sedação/anestesia geral — não é a regra para todos.
A osteopenia não é uma manifestação característica da doença falciforme. As alterações ósseas mais comuns são: hiperplasia da medula óssea (pela eritropoiese compensatória), infartos ósseos, osteomielite (especialmente por salmonela) e, em crianças, o padrão "dentes de pente" na radiografia de crânio. A osteoporose/osteopenia pode ocorrer em pacientes com doença crônica avançada, mas não é a "maior parte" dos pacientes.
A alternativa B, embora descreva corretamente a anemia hemolítica, erra ao afirmar que ela é "caracterizada por episódios álgicos frequentes". A anemia hemolítica é caracterizada por fadiga, palidez, icterícia, esplenomegalia (no início) e cálculos biliares; os episódios álgicos são manifestação das crises vaso-oclusivas, que são um fenômeno distinto, embora coexistam no mesmo paciente. A banca explora exatamente essa confusão entre os dois mecanismos fisiopatológicos.
Guarde a distinção que decide esta questão: anemia hemolítica (destruição de hemácias) ≠ crise vaso-oclusiva (obstrução vascular). E lembre que a imunodeficiência do paciente falciforme é real e tem base na opsonização deficiente — é o que torna a letra A correta.
Característica
Anemia Hemolítica
Crise Vaso-Oclusiva
Imunodeficiência
Mecanismo
Destruição precoce das hemácias
Obstrução da microcirculação por hemácias falcizadas
Autoesplenectomia funcional + defeitos do complemento e fagocitose
Infecções por bactérias encapsuladas (pneumococo, salmonela, Haemophilus)
Consequência odontológica
Controle da anemia e avaliação de risco cirúrgico
Evitar estresse, dor e procedimentos longos (precipitam crises)
Profilaxia antibiótica e vacinação são pilares do manejo
Doença falciforme
1Mecanismos centrais
Anemia hemolítica
fadiga, palidez, icterícia
Crise vaso-oclusiva
episódios álgicos intensos
Imunodeficiência
autoesplenectomia funcional
opsonização deficiente
infecções por encapsulados
2Manejo odontológico
Atendimento ambulatorial (regra)
hidratação e aquecimento
controle da dor/ansiedade
vasoconstritor com cautela
profilaxia antibiótica se indicada
Hospitalar só em casos graves
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A anemia falciforme compromete a opsonização por neutrófilos, aumentando o risco de infecções por microrganismos encapsulados. A autoesplenectomia funcional e os defeitos do complemento e da fagocitose reduzem a capacidade de marcar e destruir bactérias como pneumococo, Haemophilus influenzae e salmonela. É exatamente por isso que a profilaxia antibiótica e a vacinação são recomendadas nesses pacientes.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A anemia hemolítica é caracterizada pela destruição precoce das hemácias, manifestando-se com fadiga, palidez, icterícia e esplenomegalia. Os episódios álgicos frequentes são a marca das crises vaso-oclusivas, que ocorrem pela obstrução da microcirculação pelas hemácias falcizadas — mecanismo distinto da hemólise. A alternativa mistura os dois fenômenos, atribuindo à anemia hemolítica uma característica que pertence à vaso-oclusão.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A osteopenia não é um achado predominante na doença falciforme. As alterações ósseas mais frequentes são a hiperplasia medular, os infartos ósseos e a osteomielite (especialmente por salmonela). A osteopenia/osteoporose pode surgir em casos avançados ou por deficiências nutricionais, mas não na "maior parte" dos pacientes — a generalização torna a assertiva incorreta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O manejo odontológico do paciente falciforme não exige, como regra, ambiente hospitalar. A maioria dos procedimentos pode ser realizada em consultório, com cuidados como hidratação, controle da dor e da ansiedade, uso criterioso de vasoconstritores e profilaxia antibiótica quando indicada. O ambiente hospitalar é reservado a casos graves (crises frequentes, síndrome torácica aguda, necessidade de anestesia geral) — a alternativa generaliza uma exceção como regra.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Há sim indicação de profilaxia antibiótica em diversos cenários para pacientes falciformes. Crianças até 5 anos usam penicilina profilática diária; e, para procedimentos odontológicos que geram bacteremia, a profilaxia pode ser recomendada conforme o risco individual (estado imunológico, presença de dispositivos intravasculares, história de infecções). A afirmação de que "não há indicação" e que "os riscos superam os benefícios" contraria a literatura e as diretrizes de manejo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os dois grandes mecanismos da doença falciforme: a anemia hemolítica (destruição de hemácias → fadiga, icterícia) e a crise vaso-oclusiva (obstrução vascular → dor intensa). A letra B mistura os dois, e o candidato desatento marca por reconhecer termos corretos. Fique atento: hemólise não é sinônimo de dor.
PEGA ESSA DICA!
Para questões sobre doença falciforme, monte mentalmente o tripé: (1) hemólise → anemia, icterícia, cálculos biliares; (2) vaso-oclusão → dor, infartos, síndrome torácica aguda; (3) imunodeficiência → autoesplenectomia, opsonização deficiente, infecções por encapsulados. Se a alternativa misturar os três, está errada.