Questão de Medicina — Oftalmologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Oftalmologia
Código
qq969715
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Ano Adicional: Transplante de Córnea
Paciente do sexo feminino, 17 anos, vem ao consultório oftalmológico com queixa de turvação visual súbita em olho direito, sendo pior a visão de perto. Ao exame oftalmológico, apresentava acuidade visual com correção de 20/20 em ambos os olhos, ortotropia, fundoscopia sem alterações em ambos os olhos, mas a biomicroscopia anterior apresentava anisocoria, mais intensa em ambiente claro, com reflexo pupilar normal em olho esquerdo e dissociação luz-perto em olho direito. Diante desse quadro, qual exame deve ser realizado?
ATeste da fenilefrina 1%.
BTeste da pilocarpina 0,125%.
CTeste da tropicamida 1%.
DTeste da fenilefrina 2,5%.
ETeste do tensilon.
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GabaritoB — Teste da pilocarpina 0,125%.
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Anisocoria com dissociação luz-perto: diagnóstico da pupila de Adie
Gabarito: letra B. O quadro descrito — anisocoria mais intensa em ambiente claro, reflexo fotomotor aparentemente preservado e dissociação luz-perto em olho direito — é a apresentação clássica da pupila tônica de Adie, e o exame que confirma o diagnóstico é o teste da pilocarpina 0,125%, que promove miose da pupila denervada por supersensibilidade à denervação. A base do raciocínio está na farmacologia dos colírios colinérgicos e na fisiopatologia da denervação pós-ganglionar do esfíncter da pupila.
A pupila tônica de Adie é uma condição neurológica benigna, geralmente unilateral, que acomete mulheres jovens (como a paciente de 17 anos do enunciado). A lesão ocorre no gânglio ciliar, estrutura localizada na órbita que faz sinapse entre as fibras parassimpáticas do nervo oculomotor (III par) e as fibras pós-ganglionares que inervam o esfíncter da pupila e o músculo ciliar. Quando esse gânglio é lesado, a pupila perde a inervação parassimpática e fica midriática (dilatada), com resposta lenta e segmentar à luz e, principalmente, com a dissociação luz-perto: a pupila responde mal à luz, mas contrai bem quando o paciente olha para um objeto próximo (reflexo de acomodação-convergência).
A anisocoria nesses casos é mais evidente em ambiente claro, porque é justamente quando a luz incide que a pupila normal contrai, enquanto a pupila afetada permanece dilatada — aumentando a diferença entre os dois lados. Em ambiente escuro, ambas as pupilas se dilatam e a diferença diminui. Esse é um dado semiológico crucial para localizar o problema: anisocoria que aumenta na luz sugere disfunção do esfíncter da pupila (via parassimpática), enquanto anisocoria que aumenta no escuro sugere disfunção do dilatador da pupila (via simpática).
O diagnóstico é confirmado pelo teste farmacológico com pilocarpina diluída a 0,125%. A lógica é a seguinte: a pilocarpina é um agonista muscarínico que estimula diretamente o esfíncter da pupila. Em uma pupila normal, a concentração de 0,125% é muito baixa para produzir miose significativa. Porém, na pupila de Adie, a denervação pós-ganglionar causa um fenômeno chamado supersensibilidade à denervação: os receptores muscarínicos do esfíncter ficam mais numerosos e mais sensíveis ao agonista. Assim, a instilação de pilocarpina 0,125% produz uma miose acentuada na pupila afetada, enquanto a pupila normal praticamente não reage. Esse é o teste diagnóstico clássico.
É importante distinguir a pupila de Adie da paralisia do III par (que também causa midríase, mas com ptose e oftalmoplegia) e da síndrome de Horner (que causa miose, não midríase). A pupila de Adie é uma condição benigna, mas o teste farmacológico é essencial para diferenciá-la de condições mais graves, como aneurisma de artéria comunicante posterior, que comprime o III par e causa midríase fixa. A banca explora exatamente essa distinção: o aluno que não conhece a farmacologia dos colírios pode confundir o teste da pilocarpina diluída com o teste da pilocarpina concentrada (usada para diferenciar Adie de paralisia do III par) ou com o teste da fenilefrina (usado para diferenciar Horner de outras causas de miose).
Guarde a fronteira entre os testes farmacológicos pupilares: pilocarpina 0,125% para Adie, pilocarpina 1% para diferenciar Adie de paralisia do III par, fenilefrina 1% para Horner pré-ganglionar e fenilefrina 10% para Horner pós-ganglionar. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Teste Farmacológico
Indicação (Diagnóstico)
Mecanismo
Achado Esperado
Pilocarpina 0,125%
Pupila tônica de Adie
Agonista muscarínico direto; supersensibilidade à denervação pós-ganglionar
Miose acentuada na pupila afetada; pupila normal praticamente não reage
Pilocarpina 1%
Diferenciar Adie de paralisia do III par
Agonista muscarínico direto em dose maior
Miose na Adie (lesão pós-ganglionar); sem resposta na paralisia do III par (lesão pré-ganglionar)
Fenilefrina 1%
Síndrome de Horner pré-ganglionar
Agonista alfa-adrenérgico; supersensibilidade à denervação
Midríase na pupila afetada
Fenilefrina 10%
Síndrome de Horner pós-ganglionar
Agonista alfa-adrenérgico em dose maior
Midríase na pupila afetada
Tropicamida 1%
Exame de fundo de olho (midríase)
Antagonista muscarínico
Dilatação pupilar; sem papel diagnóstico na anisocoria
Tensilon (edrofônio)
Miastenia gravis
Inibidor da acetilcolinesterase
Melhora temporária da força muscular; sem papel na anisocoria
Testes farmacológicos pupilares: Pilocarpina 0,125% (Pupila de Adie (miose)); Pilocarpina 1% (Paralisia do III par (sem resposta)); Fenilefrina 1% (Horner pré-ganglionar (midríase)); Fenilefrina 10% (Horner pós-ganglionar (midríase))
Alternativa A — ❌ Incorreta
A fenilefrina 1% é um agonista alfa-adrenérgico que estimula o dilatador da pupila (músculo inervado pelo simpático). Esse teste é utilizado na investigação da síndrome de Horner, não na pupila de Adie. Na síndrome de Horner, há miose (pupila pequena) por lesão da via simpática, e a fenilefrina diluída (1%) causa midríase na pupila denervada por supersensibilidade. No caso da paciente, a pupila está midriática (dilatada), o que aponta para lesão parassimpática, não simpática. Portanto, o teste da fenilefrina não se aplica.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A pilocarpina 0,125% é o teste diagnóstico da pupila tônica de Adie. A baixa concentração não produz miose em pupila normal, mas causa miose acentuada na pupila denervada por supersensibilidade à denervação pós-ganglionar. O quadro clínico da paciente — mulher jovem, anisocoria que aumenta na luz, dissociação luz-perto, reflexo fotomotor aparentemente normal e fundoscopia sem alterações — é a apresentação típica da pupila de Adie, e o teste com pilocarpina diluída confirma o diagnóstico.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A tropicamida 1% é um midriático (colírio que dilata a pupila), utilizado para exame de fundo de olho. Não tem papel diagnóstico na investigação de anisocoria. Na pupila de Adie, o objetivo é testar a resposta do esfíncter a um agonista colinérgico, não dilatar ainda mais a pupila. A tropicamida é um antagonista muscarínico, ou seja, tem efeito contrário ao da pilocarpina.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A fenilefrina 2,5% é uma concentração maior do agonista alfa-adrenérgico, também utilizada na investigação da síndrome de Horner. A concentração de 2,5% é usada para diferenciar lesão pré-ganglionar de pós-ganglionar na via simpática. Novamente, o quadro da paciente é de midríase (pupila dilatada), não de miose, o que exclui a investigação da via simpática. O teste correto para Adie é com pilocarpina, não com fenilefrina.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O teste do tensilon (edrofônio) é utilizado no diagnóstico da miastenia gravis, uma doença autoimune da junção neuromuscular. O edrofônio é um inibidor da acetilcolinesterase que aumenta a disponibilidade de acetilcolina na fenda sináptica, melhorando temporariamente a força muscular. Não há indicação para esse teste na investigação de anisocoria ou pupila de Adie. A paciente não apresenta ptose, diplopia ou fraqueza muscular, que seriam os sinais típicos de miastenia.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os testes farmacológicos pupilares. O aluno que decora "pilocarpina para Adie" sem saber a concentração pode marcar a alternativa com pilocarpina 1% (que não está entre as opções) ou confundir com a fenilefrina, usada na síndrome de Horner. A chave é lembrar que a pilocarpina 0,125% é específica para Adie, enquanto a pilocarpina 1% é usada para diferenciar Adie de paralisia do III par. A fenilefrina, em qualquer concentração, é para investigar miose (Horner), não midríase.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar, monte uma tabela mental dos testes farmacológicos pupilares: Adie → pilocarpina 0,125% (miose na pupila afetada); Paralisia do III par → pilocarpina 1% (sem resposta, pois a lesão é pré-ganglionar); Horner pré-ganglionar → fenilefrina 1% (midríase); Horner pós-ganglionar → fenilefrina 10% (midríase). A concentração da droga é o que diferencia o diagnóstico.