Questão de Medicina — Neurologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Neurologia
Código
qq969877
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Alergia e Imunologia Pediátrica
Adolescente do sexo masculino, 12 anos, com história de rinorreia hialina, dor de garganta e febre baixa há 10 dias, é atendido no pronto socorro, no qual foi feito o diagnóstico de infecção das vias aéreas superiores. Após melhora inicial, evoluiu com cefaleia intensa, meningismo e convulsão tônico-clônica generalizada com duração de 5 minutos. Tomografia computadorizada de crânio apresentou resultado normal e o líquor apresentou apenas discreta pleocitose às custas dos linfócitos. Após três dias, o paciente apresentava-se com alteração do comportamento, ataxia e letargia, além de nistagmo. A suspeita é de encefalomielite disseminada aguda (ADEM). Quanto ao diagnóstico e tratamento desse quadro, assinale a alternativa correta.
AO exame complementar padrão-ouro para o diagnóstico de ADEM é a angiotomografia computadorizada.
BO diagnóstico de ADEM é clínico e a confirmação é por achados compatíveis, embora inespecíficos, na ressonância nuclear magnética.
CPontos focais ou lentidão focal são os achados mais frequentes no eletroencefalograma, ocorrendo na grande maioria dos pacientes.
DO critério indispensável para o diagnóstico de ADEM é o anticorpo anti-glicoproteína da mielina de oligodendrócitos positivo.
EDiante de diagnóstico compatível com ADEM, está indicado o uso de imunoglobulina por 5 dias e corticoides nos casos refratários.
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GabaritoB — O diagnóstico de ADEM é clínico e a confirmação é por achados compatíveis, embora inespecíficos, na ressonância nuclear magnética.
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Encefalomielite Disseminada Aguda (ADEM): diagnóstico e tratamento
Gabarito: letra B. O diagnóstico de ADEM é essencialmente clínico, sustentado pelo quadro de encefalopatia multifocal de início agudo/subagudo, e a ressonância magnética (RM) é o exame de imagem que confirma o diagnóstico ao demonstrar lesões desmielinizantes compatíveis, embora inespecíficas — não há biomarcador patognomônico. A alternativa B espelha exatamente essa lógica: diagnóstico clínico + confirmação por achados compatíveis na RM.
A ADEM é uma doença desmielinizante inflamatória aguda do sistema nervoso central (SNC), tipicamente monofásica, que acomete com mais frequência crianças e adultos jovens, geralmente após uma infecção viral ou bacteriana (como a infecção de vias aéreas superiores descrita no caso) ou, menos comumente, após vacinação. O quadro clínico clássico é a encefalopatia (alteração do comportamento, letargia, irritabilidade) associada a sinais multifocais — ataxia, nistagmo, déficits motores, convulsões — que surge de 2 a 30 dias após o evento desencadeante. No caso apresentado, o adolescente teve um pródromo infeccioso, evoluiu com cefaleia, meningismo e convulsão, e depois desenvolveu alteração comportamental, ataxia, letargia e nistagmo — um padrão temporal e clínico muito sugestivo.
O diagnóstico é um desafio porque não existe um exame único que feche o caso. Ele se apoia em três pilares: (1) quadro clínico de encefalopatia + déficits multifocais; (2) RM de crânio mostrando lesões desmielinizantes — tipicamente lesões grandes, confluentes, bilaterais e assimétricas na substância branca, podendo envolver também gânglios da base, tálamo e tronco; e (3) exclusão de diagnósticos diferenciais, como encefalite viral (herpes simples, enterovírus), doença de Lyme, lúpus eritematoso sistêmico com envolvimento do SNC e, principalmente, a esclerose múltipla (EM) — que é a grande confusão, pois também é desmielinizante. A diferença-chave: a ADEM é monofásica e costuma ter encefalopatia, enquanto a EM é recorrente e raramente cursa com encefalopatia. O líquor na ADEM costuma mostrar pleocitose linfocitária discreta e proteinorraquia levemente elevada, como no caso ("discreta pleocitose às custas de linfócitos"), mas esses achados são inespecíficos. A TC de crânio é frequentemente normal ou mostra apenas hipodensidades inespecíficas — por isso não é o exame de escolha.
O tratamento da ADEM é baseado em imunomodulação. A primeira linha é a pulsoterapia com metilprednisolona (corticosteroide em altas doses, geralmente 20-30 mg/kg/dia, máximo 1 g/dia, por 3-5 dias). Nos casos refratários ou contraindicação a corticoides, usa-se imunoglobulina intravenosa (IVIG) ou plasmaférese. Ou seja, a ordem correta é: corticoide como primeira linha e imunoglobulina/plasmaférese como opções de resgate — exatamente o inverso do que afirma a alternativa E.
A banca explora aqui a confusão entre o papel da RM (exame de confirmação, mas com achados inespecíficos) e o de um biomarcador (que não existe como critério indispensável). Guarde a hierarquia: clínica manda, RM confirma, líquor ajuda a excluir, e anticorpos (como anti-MOG) são coadjuvantes — não critérios isolados. É nessa hierarquia que as alternativas se dividem.
Critério
ADEM (correto)
Alternativas incorretas (erros comuns)
Diagnóstico
Clínico + RM com achados compatíveis (inespecíficos)
Padrão-ouro em angio-TC (A); anti-MOG indispensável (D)
Exame de imagem
RM de crânio (lesões desmielinizantes)
Angiotomografia (A); TC normal não exclui (caso)
EEG
Lentificação difusa (inespecífico)
Pontos focais/lentidão focal como mais frequentes (C)
Tratamento de 1ª linha
Pulsoterapia com corticoide (metilprednisolona)
Imunoglobulina como 1ª linha e corticoide refratário (E)
Tratamento de resgate
Imunoglobulina IV ou plasmaférese (refratários)
—
Biomarcador
Anti-MOG é coadjuvante (não obrigatório)
Anti-MOG como critério indispensável (D)
ADEM
1Diagnóstico
Clínico (encefalopatia + multifocal)
RM confirma (achados inespecíficos)
Líquor: pleocitose linfocitária
Anti-MOG: coadjuvante, não indispensável
2Tratamento
1ª linha: corticoide (pulsoterapia)
Refratário: imunoglobulina ou plasmaférese
3Diagnósticos diferenciais
Esclerose múltipla (recorrente)
Encefalite viral
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a angiotomografia computadorizada é o exame padrão-ouro. Erro duplo: (1) o exame de imagem de escolha na suspeita de ADEM é a ressonância magnética, não a angiotomografia; (2) a angiotomografia avalia vasos (útil para vasculites, dissecções, AVC), não a substância branca desmielinizada. A TC de crânio, como no caso, costuma ser normal ou inespecífica — não é o padrão-ouro.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O diagnóstico de ADEM é clínico — baseado na encefalopatia + déficits multifocais com início agudo após infecção/vacina — e a RM de crânio é o exame que confirma ao mostrar lesões desmielinizantes compatíveis, embora inespecíficas (não há padrão de imagem patognomônico; lesões semelhantes podem ocorrer em outras doenças desmielinizantes). A alternativa espelha com precisão a prática clínica: a RM é o melhor exame de imagem, mas o diagnóstico é clínico-radiológico, não baseado em um único teste.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que "pontos focais ou lentidão focal" são os achados mais frequentes no EEG. Na ADEM, o EEG costuma mostrar lentificação difusa (inespecífica), e não padrão focal predominante. Além disso, o EEG não é exame diagnóstico de ADEM — serve para avaliar atividade epileptiforme ou encefalopatia, mas não confirma a doença. A descrição de "lentidão focal" como achado mais frequente não corresponde à literatura.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que o anticorpo anti-MOG positivo é critério indispensável. O anti-MOG (anti-glicoproteína da mielina de oligodendrócitos) é um biomarcador associado a um espectro de doenças desmielinizantes, incluindo ADEM — e sua positividade é mais comum em crianças com ADEM. Porém, não é indispensável: muitos pacientes com ADEM são anti-MOG negativos, e o diagnóstico é clínico-radiológico. O anticorpo é um coadjuvante, não um critério obrigatório.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Inverte a ordem do tratamento. A primeira linha da ADEM é a pulsoterapia com corticoide (metilprednisolona). A imunoglobulina intravenosa é opção de segunda linha (refratários ou contraindicação a corticoide), assim como a plasmaférese. A alternativa coloca a imunoglobulina como primeira linha e o corticoide como refratário — exatamente o contrário da conduta recomendada.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca a ordem do tratamento (alternativa E) e o papel do anti-MOG (alternativa D). Na ADEM, o corticoide é a primeira linha; a imunoglobulina é resgate. E o anti-MOG, embora frequente, não é critério indispensável — o diagnóstico é clínico-radiológico. Fique atento a essas inversões: a clínica + RM são o coração do diagnóstico.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar: ADEM = clínica (encefalopatia + multifocal) + RM (confirma, mas inespecífico) + corticoide (1ª linha). Se a alternativa trouxer "padrão-ouro" ou "indispensável", desconfie — na ADEM não há exame único que feche o diagnóstico. Compare com a EM: ADEM é monofásica e tem encefalopatia; EM é recorrente e raramente tem encefalopatia.