Questão de Medicina — Alergia e Imunologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Alergia e Imunologia
Código
qq969914
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Alergia e Imunologia Pediátrica
Menina de 9 anos é conduzida pela mãe para atendimento médico, pois apresentou reação de necrólise epidérmica tóxica durante um quadro de broncopneumonia há 3 meses. Relata que na ocasião utilizou amoxicilina com clavulanato, paracetamol e dipirona. A mãe deseja realizar testes alérgicos para avaliar qual substância levou à reação. Diante desse quadro, assinale a alternativa que apresenta a orientação a ser realizada.
AProgramar a realização de teste cutâneo de reação imediata (teste cutâneo e intradérmico) com benzilpenicilina mediante assinatura de termo de consentimento.
BRealizar dosagens de IgE específica para penicilina, amoxicilina, paracetamol e dipirona e explicar que outros testes representam riscos para a pacientes e não devem ser realizados.
CProgramar realização de provocação oral para os medicamentos, em dias diferentes, explicando que os demais testes não são apropriados para o caso, tendo em vista que a reação não é do tipo imediata.
DProgramar realização de teste cutâneo com as medicações e, caso os resultados sejam negativos, realizar teste de provocação oral, em dias diferentes, com cada um dos medicamentos.
EEsclarecer à mãe que a reação apresentada se trata de um quadro não imediato cujos testes laboratoriais e cutâneos não se aplicam. Por ser uma reação sistêmica grave de alto risco, o teste de provocação oral também está contraindicado.
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GabaritoE — Esclarecer à mãe que a reação apresentada se trata de um quadro não imediato cujos testes laboratoriais e cutâneos não se aplicam. Por ser uma reação sistêmica grave de alto risco, o teste de provocação oral também está contraindicado.
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Necrólise epidérmica tóxica: abordagem diagnóstica e contraindicações
Gabarito: letra E. A necrólise epidérmica tóxica (NET) é uma reação cutânea grave, de mecanismo não imediato (hipersensibilidade tipo IV, mediada por células T), na qual os testes cutâneos e laboratoriais (IgE específica) não têm valor diagnóstico e o teste de provocação oral é absolutamente contraindicado pelo risco de recidiva fatal. A conduta correta é esclarecer a mãe sobre a natureza da reação e a contraindicação de qualquer teste, conforme o gabarito oficial.
A necrólise epidérmica tóxica (NET) e a síndrome de Stevens-Johnson (SSJ) são espectros da mesma doença, caracterizadas por descolamento extenso da epiderme e necrose de queratinócitos, geralmente desencadeadas por medicamentos (antibióticos, anticonvulsivantes, AINEs, alopurinol). O mecanismo é uma hipersensibilidade tardia (tipo IV), mediada por linfócitos T citotóxicos e por mecanismos de apoptose via Fas-FasL e granulisina, e não por IgE. Por isso, os testes de hipersensibilidade imediata — teste cutâneo de leitura imediata (puntura e intradérmico) e dosagem de IgE específica — são inapropriados, pois avaliam apenas reações mediadas por IgE (tipo I), que não é o mecanismo da NET.
Na prática, a investigação de reações adversas a medicamentos deve ser guiada pelo fenótipo clínico da reação. Para reações imediatas (urticária, anafilaxia), os testes cutâneos e a IgE específica são úteis. Para reações não imediatas (exantema maculopapular, SSJ/NET, DRESS), os testes cutâneos de leitura tardia (patch test) podem ter algum papel em casos selecionados, mas não há teste validado para NET — e o teste de provocação oral é contraindicado em reações graves com risco de vida, como a NET, pois a reexposição pode ser fatal. A conduta é evitar permanentemente o fármaco suspeito e todos os cross-reativos.
No caso apresentado, a paciente usou três medicamentos (amoxicilina-clavulanato, paracetamol e dipirona) durante uma broncopneumonia. A NET é uma reação idiossincrática, não dose-dependente e não previsível, e a identificação do agente causal é feita pela cronologia (o fármaco iniciado recentemente é o mais provável) e pelo padrão de reação conhecido de cada droga. Antibióticos β-lactâmicos (amoxicilina) são os mais frequentemente implicados em SSJ/NET, mas paracetamol e dipirona também podem causar. Não há teste laboratorial ou cutâneo que confirme o agente, e a provocação oral é proibida. A orientação correta é informar a mãe sobre a contraindicação de todos os testes e a necessidade de evitar os três medicamentos.
A pegadinha central desta questão é a associação automática entre "teste alérgico" e "teste cutâneo/IgE", que vale para reações imediatas (tipo I), mas não para a NET, que é uma reação tardia (tipo IV). O candidato que não distingue os mecanismos tende a escolher uma alternativa que propõe testes cutâneos ou IgE, ignorando que a NET é uma contraindicação absoluta a qualquer provocação. Guarde a fronteira: reações imediatas → testes imediatos (cutâneo, IgE); reações tardias graves (NET/SSJ) → nenhum teste, apenas evicção.
Teste diagnóstico
Aplicabilidade na NET
Motivo
Teste cutâneo de leitura imediata (puntura/intradérmico)
Não se aplica
Avalia apenas reações mediadas por IgE (tipo I); a NET é reação tardia (tipo IV)
Dosagem de IgE específica
Não se aplica
Não há teste validado para os fármacos suspeitos; mecanismo não é IgE
Teste de provocação oral
Contraindicado
Risco de recidiva fatal em reação sistêmica grave
Conduta correta
Evicção permanente dos fármacos suspeitos
Esclarecer a mãe sobre a contraindicação de qualquer teste
Reações a medicamentos: Imediatas (tipo I, IgE) (Teste cutâneo imediato, IgE específica); Tardias (tipo IV, células T) (Exantema maculopapular, SSJ/NET, DRESS); Conduta na NET (Teste cutâneo, IgE específica, Provocação oral, Evicção permanente)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Propõe teste cutâneo de reação imediata (puntura e intradérmico) com benzilpenicilina. O erro é duplo: (1) a NET é uma reação não imediata (tipo IV), e os testes cutâneos de leitura imediata avaliam apenas IgE (tipo I), sendo inapropriados; (2) mesmo que houvesse indicação, o teste deveria ser feito com o fármaco suspeito (amoxicilina-clavulanato), não com benzilpenicilina isolada, e jamais em paciente com histórico de NET, pelo risco de reativação. A assinatura de termo de consentimento não torna o teste seguro ou indicado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Propõe dosagem de IgE específica para penicilina, amoxicilina, paracetamol e dipirona. A IgE específica só é útil em reações imediatas (tipo I), mediadas por IgE. A NET é uma reação tardia (tipo IV), mediada por células T, e a IgE específica não tem papel diagnóstico. Além disso, não existem testes de IgE específica validados para paracetamol e dipirona. A afirmação de que "outros testes representam riscos" é verdadeira, mas a conclusão de que a IgE específica é a conduta correta é falsa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Propõe teste de provocação oral para os medicamentos, em dias diferentes. A provocação oral é o padrão-ouro para confirmar tolerância, mas é absolutamente contraindicada em reações graves com risco de vida, como a NET e a SSJ, pois a reexposição pode desencadear reação fatal. A alternativa reconhece que a reação não é imediata, mas erra ao sugerir provocação oral, que é proibida exatamente por ser uma reação sistêmica grave.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Propõe teste cutâneo com as medicações e, se negativos, teste de provocação oral. O erro é o mesmo das anteriores: (1) os testes cutâneos não são apropriados para reações tardias graves como a NET; (2) a provocação oral é contraindicada em NET, independentemente do resultado dos testes cutâneos. A combinação de testes não torna a conduta segura ou indicada.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa está correta ao afirmar que a NET é uma reação não imediata, na qual os testes laboratoriais (IgE específica) e cutâneos não se aplicam, e que, por ser uma reação sistêmica grave de alto risco, o teste de provocação oral também é contraindicado. Essa é exatamente a conduta recomendada: esclarecer a mãe sobre a natureza da reação, a contraindicação de todos os testes e a necessidade de evitar permanentemente os fármacos suspeitos.