Questão de Medicina — Alergia e Imunologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Alergia e Imunologia
Código
qq969932
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Alergia e Imunologia Pediátrica
Lactente de 9 meses apresentando dermatite atópica grave é conduzido pela mãe para atendimento. Ela está aflita porque a pediatra solicitou exames de IgE específicas que demonstraram valores alterados para quase todos alimentos testados (leite, ovo, soja, trigo, milho, banana, feijão, peixe, tomate, morango). IgE total maior que 2000 IU/mL. Diante desse caso, assinale a alternativa que apresenta a conduta médica mais apropriada.
AOrientar a mãe sobre a necessidade de excluir todos os alimentos com IgEs alteradas da dieta para que haja melhora da dermatite.
BOrientar a mãe sobre a necessidade de excluir todos os alimentos de maior potencial alergênico (leite, ovo, soja e trigo) para que haja melhora da dermatite.
COrientar a mãe sobre a necessidade de excluir apenas o ovo, por ser o alimento mais implicado nos quadros de dermatite atópica grave.
DOrientar a mãe que será necessária uma análise dos valores de IgEs específicas para cada alimento e correlação clínica com os sintomas, para então nortear se será necessária a exclusão ou não de algum alimento.
EOrientar a mãe que se trata de exames falso-positivos em decorrência dos altos níveis de IgE total, não sendo necessária a exclusão de nenhum alimento.
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GabaritoD — Orientar a mãe que será necessária uma análise dos valores de IgEs específicas para cada alimento e correlação clínica com os sintomas, para então nortear se será necessária a exclusão ou não de algum alimento.
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Dermatite atópica e alergia alimentar: o papel da IgE específica
Gabarito: letra D. Em lactente com dermatite atópica (DA) grave e múltiplas IgE específicas alteradas, a conduta correta é correlacionar cada resultado com a história clínica — a positividade isolada do exame não confirma alergia alimentar, e a exclusão empírica de alimentos sem essa correlação pode levar a restrições desnecessárias e prejuízo nutricional. O diagnóstico de alergia alimentar mediada por IgE exige a demonstração de que a exposição ao alimento desencadeia sintomas compatíveis, não apenas a presença de anticorpos.
A dermatite atópica é uma doença inflamatória crônica da pele, de base imunológica, caracterizada por prurido intenso e lesões eczematosas. Em lactentes, a DA grave frequentemente levanta a suspeita de alergia alimentar como fator desencadeante ou agravante. A investigação da sensibilização IgE específica — por teste cutâneo de leitura imediata (prick test) ou dosagem sérica de IgE específica — é útil, mas tem limitações importantes: um resultado positivo indica apenas sensibilização, ou seja, presença de anticorpos IgE contra aquele alimento, o que não significa necessariamente alergia clínica. Muitas crianças sensibilizadas toleram o alimento sem sintomas.
No caso apresentado, o lactente tem IgE total muito elevada (>2000 IU/mL) e múltiplas IgE específicas alteradas para quase todos os alimentos testados. Esse padrão é típico de sensibilização múltipla, que pode ocorrer em pacientes atópicos sem que todos os alimentos sejam clinicamente relevantes. A conduta correta, portanto, é analisar cada valor de IgE específica em conjunto com a história clínica — quais alimentos a criança ingere, quais sintomas apresenta e se há relação temporal entre a ingestão e o aparecimento das lesões. A exclusão alimentar só se justifica quando há correlação clínica consistente, e deve ser feita de forma orientada, idealmente com acompanhamento e reavaliação periódica.
A exclusão empírica de todos os alimentos com IgE alterada (alternativa A) ou dos principais alergênicos (alternativa B) é prejudicial: pode levar a restrições nutricionais graves em um lactente em fase de crescimento e desenvolvimento, além de não resolver a DA se a causa não for alimentar. A exclusão apenas do ovo (alternativa C) é arbitrária e não se baseia em evidência para este caso. A alternativa E, que descarta todos os exames como falso-positivos, também está incorreta: embora a IgE total elevada possa aumentar a chance de IgE específicas positivas, isso não significa que todos os resultados sejam falso-positivos — alguns podem refletir sensibilização real, e a correlação clínica é que define a relevância.
O ponto central é que o exame laboratorial é um complemento, não o diagnóstico. A história clínica detalhada — incluindo sintomas, alimentos ingeridos, tempo entre exposição e reação, e resposta à exclusão — é a ferramenta mais importante. O teste de desencadeamento oral, realizado em ambiente controlado, é o padrão-ouro para confirmar alergia alimentar quando há dúvida. Na prática, a conduta é individualizada: correlacionar cada IgE específica com a clínica, excluir apenas os alimentos com correlação positiva e reavaliar periodicamente, pois muitas alergias alimentares na infância são transitórias.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre "IgE específica alterada" e "alergia alimentar". O candidato que não domina a diferença entre sensibilização e alergia clínica tende a escolher a alternativa A ou B, que propõem exclusões amplas. A pegadinha está em tratar o exame como diagnóstico definitivo, quando ele é apenas um indicador que precisa ser interpretado com a clínica. Lembre-se: IgE positiva ≠ alergia; é preciso correlação clínica.
IgE específica alterada
1Significa sensibilização
Pode haver tolerância clínica
Não confirma alergia
2Diagnóstico exige correlação
História clínica
Sintomas após exposição
Teste de desencadeamento oral (padrão-ouro)
3Conduta correta
Correlacionar cada IgE com a clínica
Excluir só alimentos com correlação positiva
Reavaliar periodicamente
4Condutas inadequadas
Excluir todos os alimentos com IgE alterada
Excluir principais alergênicos empiricamente
Descartar tudo como falso-positivo
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Excluir todos os alimentos com IgE alterada é conduta inadequada. A positividade da IgE específica indica sensibilização, não alergia clínica. Excluir todos os alimentos sem correlação clínica pode causar restrição nutricional grave e não necessariamente melhora a DA, pois a causa pode não ser alimentar. O erro é tratar o exame como diagnóstico definitivo.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Excluir leite, ovo, soja e trigo — os principais alergênicos — também é empírico e sem base clínica individualizada. Embora esses alimentos sejam os mais frequentemente implicados em alergia alimentar na infância, a exclusão deve ser guiada pela correlação clínica, não por uma lista genérica. A alternativa repete o erro da A, apenas restringindo o grupo de alimentos.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Excluir apenas o ovo é arbitrário. Não há evidência no caso de que o ovo seja o único alimento relevante, nem que a exclusão isolada dele melhore a DA grave. A conduta deve ser baseada na análise individual de cada IgE específica com a clínica, não em suposições sobre o alimento "mais implicado".
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A conduta correta é analisar os valores de IgE específica para cada alimento e correlacioná-los com os sintomas clínicos. Isso permite identificar quais alimentos, se houver, estão realmente associados ao quadro e orientar a exclusão de forma individualizada. A alternativa reflete o princípio de que o diagnóstico de alergia alimentar exige correlação clínico-laboratorial, não apenas a presença de anticorpos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirmar que todos os exames são falso-positivos devido à IgE total elevada é incorreto. Embora a IgE total alta possa aumentar a chance de IgE específicas positivas, isso não invalida todos os resultados. Alguns podem refletir sensibilização real, e a correlação clínica é que define a relevância. A alternativa desconsidera a necessidade de investigação individualizada.
Gabarito: letra D — a conduta apropriada é correlacionar os valores de IgE específica com a clínica para decidir sobre exclusões alimentares.