Questão de Medicina — Neurologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Neurologia
Código
qq970048
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Dor
Uma mulher de 32 anos, com 36 semanas de gestação, vai ao consultório para avaliação de dor. Ela descreve uma dor em queimação na coxa direita que está presente há 3 semanas. A dor ocorre principalmente na lateral da coxa e nunca abaixo do joelho; é pior em pé e melhora sentada ou deitada. Seu exame neurológico é normal. Qual das seguintes afirmações é verdadeira sobre essa condição?
AEletromiografia (EMG) e estudos de condução nervosa são necessários para o diagnóstico.
BO tratamento envolve uma injeção de corticosteroide local e anestésico ao redor do nervo femoral.
CFraqueza permanente pode ocorrer se não for tratada.
DO tratamento inclui evitar roupas apertadas.
EA punção lombar é necessária para o diagnóstico.
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GabaritoD — O tratamento inclui evitar roupas apertadas.
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Meralgia parestésica na gestação
Gabarito: letra D. O quadro descrito — dor em queimação na face lateral da coxa, que não ultrapassa o joelho, pior em pé e que melhora ao sentar/deitar, com exame neurológico normal, em gestante — é a meralgia parestésica, uma neuropatia compressiva do nervo cutâneo femoral lateral. O tratamento inicial é conservador e inclui evitar roupas apertadas, além de outras medidas que reduzam a compressão do nervo. O diagnóstico é essencialmente clínico, não exigindo eletromiografia, punção lombar ou injeções locais de rotina, e a condição raramente causa fraqueza permanente.
A meralgia parestésica é uma mononeuropatia que acomete o nervo cutâneo femoral lateral, um nervo puramente sensitivo que inerva a pele da face lateral da coxa. Ele emerge da pelve passando sob ou através do ligamento inguinal, próximo à espinha ilíaca ântero-superior, e é particularmente vulnerável à compressão nesse ponto. Na gestação, o aumento do volume abdominal e as alterações posturais e hormonais (como a retenção hídrica e o relaxamento ligamentar) aumentam a pressão sobre esse nervo, tornando a meralgia parestésica uma causa comum de dor na coxa em gestantes.
A apresentação clássica é exatamente a descrita no enunciado: dor em queimação, formigamento ou dormência na face lateral da coxa, que não se estende abaixo do joelho (pois o território do nervo cutâneo femoral lateral termina na coxa). A dor é tipicamente pior em pé ou ao caminhar (posições que aumentam a tensão sobre o nervo) e melhora ao sentar ou deitar (posições que aliviam a compressão). O exame neurológico costuma ser normal, podendo haver apenas hipoestesia na região lateral da coxa, sem déficit motor, já que se trata de um nervo sensitivo.
O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico. Exames complementares como eletromiografia (EMG) e estudos de condução nervosa são reservados para casos atípicos, duvidosos ou que não respondem ao tratamento conservador, não sendo necessários de rotina. A punção lombar não tem qualquer indicação nesse contexto. O tratamento é conservador e inclui: evitar roupas apertadas (como cintos, calças justas ou cintas), evitar ganho de peso excessivo, corrigir a postura, e usar analgésicos simples quando necessário. Em casos refratários, pode-se considerar infiltração local com anestésico e corticosteroide, mas ao redor do nervo cutâneo femoral lateral, e não do nervo femoral, e apenas quando as medidas conservadoras falham.
A meralgia parestésica é uma condição benigna e autolimitada, especialmente na gestação, com resolução espontânea após o parto na grande maioria dos casos. Não há risco de fraqueza permanente, pois o nervo acometido é exclusivamente sensitivo — a fraqueza seria esperada em uma neuropatia motora, como a do nervo femoral. A condição não causa dano motor, e o prognóstico é excelente.
A principal distinção que a banca explora é entre a meralgia parestésica (nervo cutâneo femoral lateral, sensitivo, face lateral da coxa, sem déficit motor) e outras neuropatias que podem causar dor na coxa, como a neuropatia do nervo femoral (mista, com fraqueza do quadríceps e dor na face anterior da coxa) ou a radiculopatia lombar (que pode causar dor irradiada abaixo do joelho, com alterações ao exame neurológico). A ausência de sintomas abaixo do joelho e a normalidade do exame motor são os pontos-chave que direcionam para a meralgia parestésica.
Guarde a fronteira entre o que é sensitivo (meralgia parestésica — sem fraqueza, sem necessidade de exames invasivos) e o que é motor ou radicular (neuropatia femoral, radiculopatia — com fraqueza, alterações de reflexos e possível indicação de exames complementares): é exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Afirmação
Veredito
Justificativa
EMG e condução nervosa são necessários para o diagnóstico
❌ Incorreta
Diagnóstico é clínico; exames eletrofisiológicos são reservados para casos atípicos ou refratários.
Tratamento com injeção de corticosteroide e anestésico ao redor do nervo femoral
❌ Incorreta
Nervo acometido é o cutâneo femoral lateral (sensitivo), não o femoral; infiltração é para casos refratários, não inicial.
Fraqueza permanente pode ocorrer se não tratada
❌ Incorreta
Nervo é exclusivamente sensitivo; não há déficit motor nem risco de fraqueza.
Tratamento inclui evitar roupas apertadas
✅ Correta
Medida conservadora de primeira linha que reduz a compressão do nervo cutâneo femoral lateral.
Punção lombar é necessária para o diagnóstico
❌ Incorreta
Sem indicação; condição é neuropatia periférica compressiva, sem envolvimento do liquor.
Meralgia parestésica: Nervo cutâneo femoral lateral (Sensitivo (sem fraqueza), Face lateral da coxa, Não passa do joelho); Diagnóstico clínico (EMG desnecessária, Punção lombar desnecessária); Tratamento conservador (Evitar roupas apertadas, Melhora ao sentar/deitar, Infiltração só se refratário)
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a eletromiografia (EMG) e os estudos de condução nervosa são necessários para o diagnóstico. Na meralgia parestésica, o diagnóstico é clínico, baseado na história típica e no exame físico. Os exames eletrofisiológicos são reservados para casos atípicos, duvidosos ou refratários ao tratamento, não sendo necessários de rotina. A banca explora a associação automática entre "dor neuropática" e "eletroneuromiografia", mas, na prática clínica, a apresentação clássica dispensa esses exames.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que o tratamento envolve injeção de corticosteroide local e anestésico ao redor do nervo femoral. Há dois erros: (1) o nervo acometido é o cutâneo femoral lateral, não o femoral — o nervo femoral é motor e sensitivo para a face anterior da coxa, e sua infiltração não trataria a meralgia parestésica; (2) a infiltração local é uma opção para casos refratários ao tratamento conservador, não o tratamento inicial. A conduta de primeira linha é conservadora, incluindo evitar roupas apertadas.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que fraqueza permanente pode ocorrer se não for tratada. A meralgia parestésica acomete um nervo exclusivamente sensitivo (cutâneo femoral lateral), portanto não causa fraqueza muscular. O risco de sequela motora é inexistente; no máximo, pode haver hipoestesia residual na face lateral da coxa. A fraqueza seria esperada em neuropatias motoras, como a do nervo femoral, que não é o caso.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que o tratamento inclui evitar roupas apertadas. Correto: a meralgia parestésica é uma neuropatia compressiva, e o tratamento conservador visa reduzir a compressão sobre o nervo cutâneo femoral lateral. Evitar roupas apertadas (cintos, calças justas, cintas), evitar ganho de peso excessivo e corrigir a postura são medidas de primeira linha. Essa é a conduta inicial e mais importante, especialmente na gestação, em que a condição tende a resolver após o parto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a punção lombar é necessária para o diagnóstico. A punção lombar é um exame invasivo indicado para investigar processos inflamatórios, infecciosos ou neoplásicos do sistema nervoso central, como meningite ou síndrome de Guillain-Barré. Na meralgia parestésica, não há qualquer indicação de punção lombar, pois o diagnóstico é clínico e a condição é uma neuropatia periférica compressiva, sem envolvimento do líquido cefalorraquidiano.
NÃO CAIA NESSA!
A banca troca o nervo acometido — o cutâneo femoral lateral (sensitivo, face lateral da coxa) pelo nervo femoral (misto, face anterior da coxa, com fraqueza do quadríceps). Essa troca aparece na alternativa B (infiltração ao redor do nervo femoral) e na alternativa C (fraqueza permanente). Lembre-se: na meralgia parestésica, o nervo é sensitivo, então não há déficit motor e o tratamento é conservador. Com treino, você identifica essa troca de longe 💪
PEGA ESSA DICA!
Para diferenciar as neuropatias que causam dor na coxa, foque em dois pontos: (1) território — a meralgia parestésica é lateral e não passa do joelho; a neuropatia femoral é anterior e pode ter fraqueza; (2) déficit motor — se há fraqueza, não é meralgia parestésica. Na prova, leia a descrição da dor e o exame neurológico antes de pensar em exames complementares: quadro típico + exame normal = diagnóstico clínico.
Gabarito: letra D — o tratamento inclui evitar roupas apertadas, medida conservadora que reduz a compressão do nervo cutâneo femoral lateral.