Questão de Medicina — Neurologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Neurologia
Código
qq970052
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Dor
Uma mulher de 37 anos, com esclerose múltipla, recentemente ajustou seu tratamento e, agora, apresenta convulsões de início recente. Qual dos seguintes medicamentos provavelmente foi adicionado, levando à convulsão?
AGlatirâmer.
BFingolimode.
CFampridina.
DFumarato de Dimetila.
ENatalizumabe.
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GabaritoC — Fampridina.
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Fampridina e convulsões na esclerose múltipla
Gabarito: letra C. A fampridina (dalfampridina) é um bloqueador de canais de potássio que melhora a condução nervosa e é usada para melhorar a marcha em pacientes com esclerose múltipla, mas tem como efeito adverso conhecido o aumento do risco de convulsões, especialmente em doses mais altas ou em pacientes com história de epilepsia. Os demais medicamentos listados (glatirâmer, fingolimode, fumarato de dimetila e natalizumabe) são imunomoduladores usados para tratar a doença de base e não são tipicamente associados a convulsões como efeito adverso proeminente.
A fampridina atua bloqueando canais de potássio dependentes de voltagem na membrana dos axônios, o que prolonga a duração do potencial de ação e melhora a condução do impulso nervoso em axônios desmielinizados. Esse mecanismo é o que justifica seu benefício sintomático na melhora da velocidade de marcha. No entanto, o mesmo mecanismo que melhora a condução pode aumentar a excitabilidade neuronal de forma generalizada, reduzindo o limiar para crises epilépticas. Por isso, a fampridina é contraindicada em pacientes com epilepsia ou história prévia de convulsões, e o risco é dose-dependente.
Na prática clínica, a fampridina é prescrita na dose de 10 mg duas vezes ao dia, e a dose máxima diária não deve exceder 20 mg, pois doses maiores aumentam significativamente o risco de convulsões. Em ensaios clínicos, a incidência de convulsões foi maior no grupo que recebeu fampridina em comparação com placebo, e esse risco foi mais pronunciado em pacientes com comprometimento da função renal, pois a droga é excretada principalmente pelos rins e sua concentração plasmática pode se elevar.
É importante distinguir a fampridina dos medicamentos modificadores do curso da doença (MMCD), que são o foco do tratamento de base da esclerose múltipla. Enquanto os MMCD (como fingolimode, natalizumabe, fumarato de dimetila e glatirâmer) atuam no sistema imunológico para reduzir a atividade inflamatória da doença, a fampridina é um tratamento sintomático que visa melhorar a função neurológica residual. Essa distinção é crucial: a questão descreve uma paciente que "recentemente ajustou seu tratamento" e agora apresenta convulsões — o ajuste provavelmente envolveu a adição de um medicamento sintomático, não a troca de um MMCD.
A pegadinha da banca está em associar as convulsões a um efeito adverso de um dos imunomoduladores, quando na verdade o perfil de eventos adversos desses medicamentos é diferente. Por exemplo, o natalizumabe está associado à leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP), o fingolimode a bradicardia e infecções, e o fumarato de dimetila a rubor e sintomas gastrointestinais. Nenhum deles tem convulsões como efeito adverso característico. Já a fampridina, por seu mecanismo de ação neuroexcitatório, é o único que se encaixa no quadro clínico descrito.
Guarde a fronteira entre tratamento modificador da doença e tratamento sintomático: é exatamente nela que as alternativas se dividem. A fampridina é o único medicamento da lista que não é um MMCD, e é justamente por isso que ela é a resposta correta.
Fampridina (dalfampridina): Mecanismo (Bloqueia canais de K+, Aumenta excitabilidade neuronal); Efeito adverso (Convulsões (dose-dependente), Contraindicada em epilepsia); Uso (Melhora marcha na EM, Tratamento sintomático)
Alternativa A — ❌ Incorreta
O glatirâmer é um imunomodulador de primeira linha para esclerose múltipla, composto por uma mistura de polipeptídeos que induz uma resposta imunológica desviada para um perfil anti-inflamatório. Seus principais eventos adversos são reações no local da injeção, dor torácica, rubor e sintomas vasomotores transitórios. Não há associação significativa entre glatirâmer e convulsões; o mecanismo de ação não envolve aumento da excitabilidade neuronal.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O fingolimode é um modulador do receptor de esfingosina-1-fosfato que sequestra linfócitos nos linfonodos, reduzindo a inflamação no sistema nervoso central. Seus efeitos adversos mais relevantes incluem bradicardia, bloqueio atrioventricular, infecções, edema macular e elevação de enzimas hepáticas. Convulsões não fazem parte do perfil de toxicidade característico do fingolimode, e seu mecanismo de ação não é pró-convulsivante.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A fampridina (também chamada dalfampridina) é um bloqueador de canais de potássio que melhora a condução nervosa em axônios desmielinizados, sendo utilizada para melhorar a marcha em pacientes com esclerose múltipla. Seu mecanismo de ação aumenta a excitabilidade neuronal, o que pode reduzir o limiar para crises epilépticas. Por isso, convulsões são um efeito adverso conhecido e dose-dependente, e o medicamento é contraindicado em pacientes com epilepsia ou história prévia de convulsões. Este é o único medicamento da lista que se encaixa no quadro clínico descrito.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O fumarato de dimetila é um imunomodulador de primeira linha que ativa a via Nrf2, com efeitos antioxidantes e anti-inflamatórios. Seus principais eventos adversos são rubor, sintomas gastrointestinais (diarreia, náusea, dor abdominal), linfopenia e aumento de transaminases. Não há associação relevante entre fumarato de dimetila e convulsões; seu mecanismo de ação não é neuroexcitatório.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O natalizumabe é um anticorpo monoclonal anti-integrina α4 que impede a migração de linfócitos para o sistema nervoso central. Seu efeito adverso mais grave é a leucoencefalopatia multifocal progressiva (LEMP), uma infecção oportunista do SNC. Convulsões podem ocorrer como manifestação de LEMP, mas não são um efeito adverso direto e característico do medicamento em si. A questão descreve convulsões de início recente após ajuste de tratamento, e a fampridina é a explicação mais direta e específica.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre medicamentos modificadores do curso da doença (MMCD) e tratamentos sintomáticos. O candidato pode tentar associar as convulsões a um dos imunomoduladores, mas o perfil de eventos adversos deles é diferente. A fampridina é o único medicamento da lista que não é um MMCD e que tem convulsões como efeito adverso conhecido. Lembre-se: na esclerose múltipla, convulsões de início recente após adição de medicamento apontam para fampridina.
PEGA ESSA DICA!
Para questões que associam medicamentos a efeitos adversos, monte uma tabela mental com os principais eventos adversos de cada fármaco. Para a esclerose múltipla, foque nos seguintes: