Síndrome da Apneia Obstrutiva do Sono (SAOS) na infância
Gabarito: letra C. Na criança, as apneias obstrutivas são mais frequentes e mais prolongadas durante o sono REM (movimento rápido dos olhos), fase em que há maior atonia da musculatura dilatadora da faringe e maior instabilidade ventilatória — é exatamente essa particularidade fisiológica que a alternativa correta descreve. As demais alternativas erram ao exigir dessaturação obrigatória para definir apneia (A), ao fixar duração mínima de 20 segundos (B), ao citar puberdade precoce como consequência (D) e ao negar o papel da obesidade infantil na fisiopatologia (E).
A SAOS é um distúrbio respiratório do sono caracterizado por episódios repetidos de obstrução parcial ou completa das vias aéreas superiores durante o sono, resultando em apneias (pausas respiratórias) e hipopneias (redução do fluxo aéreo), frequentemente acompanhadas de dessaturação de oxigênio e despertares transitórios. Na criança, o quadro clínico clássico inclui ronco alto, respiração ruidosa, pausas respiratórias observadas pelos pais, sono agitado e, durante o dia, hiperatividade, déficit de atenção e sonolência — sintomas que muitas vezes confundem o diagnóstico com TDAH. A causa mais comum na faixa etária pediátrica é a hipertrofia adenoamigdaliana, como sugere o caso clínico, mas obesidade, rinite alérgica e alterações craniofaciais também contribuem.
A fisiopatologia envolve a redução do calibre da faringe durante o sono, quando há diminuição do tônus muscular. Em crianças, o sono REM é particularmente vulnerável: nessa fase, a atonia fisiológica da musculatura esquelética (incluindo os dilatadores da faringe) é máxima, e há também maior irregularidade do padrão respiratório. Por isso, os eventos obstrutivos tendem a ser mais numerosos e mais longos no REM — exatamente o que a alternativa C afirma. Essa é uma diferença importante em relação ao adulto, em que as apneias costumam ser mais frequentes no sono NREM.
O diagnóstico é clínico e confirmado por polissonografia, que mede o índice de apneia-hipopneia (IAH). Na criança, considera-se patológico um IAH ≥ 1 evento/hora (diferente do adulto, em que o corte é ≥ 5). A oximetria noturna pode ser um exame de triagem, mas não substitui a polissonografia, pois não detecta despertares nem hipopneias sem dessaturação significativa. O tratamento de primeira linha na criança com hipertrofia adenoamigdaliana é a adenotonsilectomia; em casos selecionados, usa-se CPAP ou terapia anti-inflamatória tópica nasal.
A banca explora aqui um tema de pneumologia pediátrica com pegadinhas clássicas: trocar os critérios diagnósticos (duração mínima, necessidade de dessaturação), inverter a relação com o sono REM e negar fatores de risco bem estabelecidos como a obesidade. Guarde a fronteira entre o que define o evento (duração mínima de 5 s na criança, sem exigência de dessaturação para caracterizar apneia) e o que é consequência ou fator de risco — é nela que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a apneia obstrutiva requer dessaturação de oxigênio. Isso é falso: a apneia é definida pela pausa respiratória (redução ou cessação do fluxo aéreo), e a dessaturação é uma consequência frequente, mas não um critério obrigatório. Uma apneia pode ocorrer sem dessaturação significativa, especialmente se for breve. Além disso, a oximetria noturna é um exame de triagem, não o padrão-ouro — a polissonografia é o exame que define o diagnóstico. A banca troca o critério diagnóstico (pausa) por uma consequência (dessaturação).
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erra ao fixar a duração mínima de 20 segundos para caracterizar apneia obstrutiva. Na criança, o critério é de no mínimo 5 segundos (no adulto, 10 segundos). O valor de 20 segundos não corresponde a nenhum critério diagnóstico estabelecido — é um distrator numérico. A duração dos eventos é variável, mas o limiar mínimo é o que define a patologia, e ele é menor na criança do que no adulto.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta é a alternativa correta. Durante o sono REM, há atonia fisiológica da musculatura esquelética, incluindo os músculos dilatadores da faringe, o que aumenta a susceptibilidade ao colapso das vias aéreas superiores. Além disso, o padrão respiratório no REM é mais irregular. Por isso, na criança, as apneias obstrutivas são mais frequentes e mais prolongadas nessa fase do sono. Essa é uma característica bem documentada na literatura e distingue a SAOS pediátrica da do adulto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirma que puberdade precoce pode ser observada em crianças com SAOS. Isso está errado: as consequências neurocognitivas e metabólicas da SAOS na infância incluem dificuldades de aprendizagem, déficit de atenção, hiperatividade e, em casos graves, atraso do crescimento (por alteração do eixo GH/IGF-1) — não puberdade precoce. A banca troca "atraso do crescimento" por "puberdade precoce", invertendo o sentido da complicação endócrina.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que o sobrepeso e a obesidade infantil não têm sido implicados na fisiopatologia da SAOS em crianças. Isso é falso: a obesidade é um fator de risco bem estabelecido para SAOS também na infância, contribuindo para o estreitamento das vias aéreas superiores por deposição de gordura parafaringiana e redução do tônus muscular. A alternativa nega um fator de risco amplamente reconhecido, o que a torna incorreta.
Gabarito: letra C — as apneias obstrutivas em crianças são mais frequentes e mais prolongadas durante o sono REM.