Questão de Medicina — Neurologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Neurologia
Código
qq970171
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Emergência Pediátrica
Homem, 32 anos, procura atendimento por quadro de cefaleia intensa, associada a náuseas e febre aferida em domicílio. Ao exame, apresenta rigidez de nuca e sinais de Kernig e Brudzinski positivos. Sobre as meningoencefalites, assinale a alternativa correta.
AO tratamento precoce da meningoencefalite herpética, com aciclovir, diminui as lesões definitivas.
BNa faixa etária de 2 a 50 anos de idade, dentre as meningoencefalites bacterianas, as bactérias mais prevalentes são a N. meningitidis e a H. influenzae.
CDeve-se aguardar o resultado da tomografia computadorizada de crânio para iniciar o tratamento de forma direcionada.
DNa neurotuberculose, é mandatório para o diagnóstico ter a presença de lesão pulmonar.
ENa neurocriptococose, é raro o quadro evoluir com hipertensão intracraniana.
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GabaritoA — O tratamento precoce da meningoencefalite herpética, com aciclovir, diminui as lesões definitivas.
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Meningoencefalites: diagnóstico e tratamento
Gabarito: letra A. Na meningoencefalite herpética, o tratamento precoce com aciclovir é decisivo para reduzir as lesões neurológicas definitivas, pois o vírus herpes simples (HSV) causa necrose hemorrágica do parênquima cerebral, e a instituição rápida da terapia antiviral limita a extensão do dano. As demais alternativas apresentam erros conceituais sobre etiologia, conduta diagnóstica e complicações das meningoencefalites.
A meningoencefalite é um processo inflamatório que acomete simultaneamente as meninges (meningite) e o parênquima cerebral (encefalite). O quadro clínico clássico inclui a tríade febre, rigidez de nuca e alteração do nível de consciência, além de cefaleia, náuseas e vômitos. Os sinais de Kernig e Brudzinski, presentes no paciente do enunciado, fazem parte da síndrome de irritação meníngea, mas é importante saber que sua sensibilidade é baixa (podendo ser de apenas 5% em adultos), embora a especificidade seja alta (até 95%). Por isso, a ausência desses sinais não exclui meningite, e a presença deles, isoladamente, não a confirma.
A conduta diante da suspeita de meningite bacteriana é emergencial: deve-se iniciar antibioticoterapia empírica imediatamente, sem aguardar o resultado de exames de imagem ou da punção lombar. O atraso na administração da primeira dose de antimicrobiano é uma das principais causas de mortalidade e sequelas. A punção lombar é o exame fundamental para o diagnóstico, mas, se houver contraindicação (como sinais de hipertensão intracraniana ou déficits focais), deve-se coletar hemoculturas e iniciar o tratamento empírico antes mesmo do exame de imagem.
A etiologia das meningites varia conforme a faixa etária e o estado imunológico do paciente. Em recém-nascidos, predominam estreptococos do grupo B e enterobactérias; em crianças e adultos jovens, o meningococo (Neisseria meningitidis) e o pneumococo (Streptococcus pneumoniae) são os principais agentes; em idosos e imunossuprimidos, a Listeria monocytogenes ganha importância. A Haemophilus influenzae tipo b, que era causa frequente em crianças, tornou-se rara após a introdução da vacina conjugada.
A meningoencefalite herpética, causada principalmente pelo HSV-1, é a forma mais comum de encefalite viral esporádica e tem predileção pelo lobo temporal. O diagnóstico é feito pela PCR do HSV no líquor, e o tratamento com aciclovir deve ser iniciado empiricamente diante da suspeita clínica, pois a demora está associada a alta mortalidade e sequelas graves. A neurotuberculose e a neurocriptococose são causas importantes de meningite crônica, especialmente em imunossuprimidos, e apresentam particularidades no diagnóstico e na evolução.
Guarde a fronteira entre o que é correto e o que é distrator nesta questão: o tratamento precoce da encefalite herpética (alternativa A) versus os erros de etiologia bacteriana (B), de conduta diagnóstica (C), de critério diagnóstico da neurotuberculose (D) e de complicação da neurocriptococose (E). É exatamente nesses pontos que as alternativas se dividem.
Meningoencefalites
1Etiologia por faixa etária
RN: estreptococo B e enterobactérias
2-50 anos: meningococo e pneumococo
Idosos/imunossuprimidos: Listeria
2Líquor
Bacteriana: neutrófilos, glicose baixa
Viral: linfócitos, glicose normal
Tuberculosa: linfócitos, ADA alto
3Conduta
Iniciar tratamento empírico imediato
TC antes da punção só se contraindicação
4Complicações
Herpética: necrose temporal
Criptococose: hipertensão intracraniana
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A meningoencefalite herpética, causada pelo vírus herpes simples tipo 1 (HSV-1), é uma emergência neurológica. O vírus tem tropismo pelo lobo temporal e causa necrose hemorrágica do parênquima cerebral. O tratamento com aciclovir, quando iniciado precocemente, reduz significativamente a mortalidade (que pode chegar a 70% sem tratamento) e as sequelas neurológicas definitivas, como déficits de memória, alterações de comportamento e epilepsia. A conduta é iniciar aciclovir empírico diante da suspeita clínica, sem aguardar confirmação laboratorial, pois a PCR do HSV no líquor pode levar horas ou dias para ficar pronta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O erro está em incluir a H. influenzae como uma das bactérias mais prevalentes na faixa etária de 2 a 50 anos. Após a introdução da vacina conjugada contra Haemophilus influenzae tipo b, essa bactéria deixou de ser causa frequente de meningite em crianças e adultos. Na faixa etária de 2 a 50 anos, os principais agentes bacterianos são a Neisseria meningitidis (meningococo) e o Streptococcus pneumoniae (pneumococo). A H. influenzae tipo b era prevalente em crianças menores de 5 anos na era pré-vacinal, mas hoje é rara em países com boa cobertura vacinal.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A conduta correta é iniciar o tratamento empírico imediatamente, sem aguardar o resultado da tomografia computadorizada de crânio. O atraso na administração da primeira dose de antimicrobiano é uma das principais causas de mortalidade e sequelas. A TC de crânio deve ser realizada antes da punção lombar apenas quando há contraindicações à punção imediata, como sinais de hipertensão intracraniana, déficits neurológicos focais, rebaixamento do nível de consciência ou papiledema. Nesses casos, coleta-se hemocultura e inicia-se antibioticoterapia empírica antes do exame de imagem, que será feito para afastar lesão expansiva antes da punção.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A neurotuberculose é a forma mais grave de tuberculose extrapulmonar, mas a presença de lesão pulmonar não é mandatória para o diagnóstico. A tuberculose pode ser primariamente extrapulmonar, e a neurotuberculose pode ocorrer sem evidência de doença pulmonar ativa. O diagnóstico é feito pela análise do líquor (pleocitose com predomínio de linfomononucleares, proteína elevada e glicose baixa), pela dosagem de ADA no líquor (com alta sensibilidade e especificidade) e pela PCR para Mycobacterium tuberculosis. A TC de crânio pode mostrar hidrocefalia, espessamento meníngeo basal e granulomas, mas a ausência de lesão pulmonar não exclui o diagnóstico.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Na neurocriptococose, a hipertensão intracraniana é uma complicação frequente e grave, não rara. A síndrome de hipertensão intracraniana (com vômitos, diplopia, confusão, coma e papiledema) está associada a mortalidade de até 90% nas duas primeiras semanas de tratamento. O Cryptococcus neoformans causa meningite crônica com acúmulo de polissacarídeo capsular no espaço subaracnóideo, obstruindo a reabsorção do líquor e elevando a pressão intracraniana. O manejo da HIC é parte essencial do tratamento, incluindo punções lombares de alívio e, em alguns casos, derivação ventricular.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre meningite bacteriana e a tríade clássica de agentes (meningococo, pneumococo e H. influenzae). O candidato que não atualizou o conhecimento sobre o impacto da vacina contra Haemophilus influenzae tipo b marca a alternativa B sem perceber que, na faixa etária de 2 a 50 anos, a H. influenzae foi substituída pelo pneumococo como segundo agente mais prevalente. Fique atento: a vacinação mudou o perfil epidemiológico das meningites bacterianas.
PEGA ESSA DICA!
Para questões de meningite, monte um quadro mental com quatro eixos: (1) etiologia por faixa etária (RN: estreptococo B e enterobactérias; 2-50 anos: meningococo e pneumococo; idosos/imunossuprimidos: Listeria); (2) achados do líquor (bacteriana: turvo, neutrófilos, glicose baixa; viral: linfócitos, glicose normal; tuberculosa: linfócitos, glicose baixa, ADA alto); (3) tratamento empírico imediato, sem esperar exames; (4) complicações específicas (HIC na criptococose, lesão temporal na herpética). Esse quadro resolve a maioria das questões sobre o tema.