Pular para o conteúdo principal

Questão de Medicina — Endocrinologia — INSTITUTO AOCP 2023

MedicinaEndocrinologia
Código
qq970223
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Endocrinologia Pediátrica
Uma jovem de 14 anos é levada para consulta por seu pai que está preocupado por achar que sua filha está “magra demais”. Ele é viúvo e refere que desde o falecimento da esposa, há cerca de um ano e meio, a relação com sua filha não é boa como já foi. O pai, obeso, informa que a paciente apresenta grande medo de ganhar peso, com pesquisas minuciosas sobre informações nutricionais de alimentos. Ao ser perguntada, a paciente informa que sua menstruação aconteceu há mais de dois meses. Durante exame físico, a paciente apresenta-se com IMC de 17,2 kg/m2, sinais vitais normais, assim como estádio puberal, que também é compatível com a idade. Assinale a alternativa que apresenta a hipótese diagnóstica mais provável para esse caso.
  1. APuberdade normal.
  2. BHipertireoidismo.
  3. CBulimia.
  4. DNeofobia.
  5. EAnorexia nervosa.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Anorexia nervosa.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Anorexia nervosa: diagnóstico na adolescência

Gabarito: letra E. O quadro descrito — adolescente com IMC de 17,2 kg/m², medo intenso de ganhar peso, pesquisa obsessiva sobre informações nutricionais e amenorreia secundária — preenche os critérios diagnósticos de anorexia nervosa, transtorno alimentar caracterizado por restrição alimentar persistente, baixo peso e distúrbio da imagem corporal. O diagnóstico é eminentemente clínico, baseado nos critérios do DSM-5, e não depende de exames complementares.

A anorexia nervosa é um transtorno alimentar grave, de etiologia multifatorial, que acomete predominantemente adolescentes e adultos jovens do sexo feminino. O termo "anorexia" significa literalmente "falta de apetite", mas isso é um equívoco: na verdade, a paciente sente fome, mas restringe deliberadamente a ingestão por medo mórbido de engordar. O DSM-5 estabelece três critérios essenciais: (1) restrição da ingestão calórica em relação às necessidades, levando a peso corporal significativamente baixo no contexto da idade, sexo e saúde; (2) medo intenso de ganhar peso ou de engordar, ou comportamento persistente que interfere no ganho de peso, mesmo com peso baixo; e (3) perturbação na forma como o próprio peso ou a forma corporal são vivenciados, influência indevida do peso ou forma na autoavaliação ou falta de reconhecimento da gravidade do baixo peso atual.

No caso apresentado, todos os elementos se encaixam: a paciente tem IMC de 17,2 kg/m² (abaixo do percentil 5 para a idade, configurando baixo peso), apresenta medo intenso de ganhar peso, pesquisa minuciosamente informações nutricionais (comportamento de restrição alimentar) e tem amenorreia secundária (ausência de menstruação por mais de 2 meses, critério que, embora não seja mais obrigatório no DSM-5, é um marcador importante de comprometimento). O contexto familiar — luto materno há 1,5 ano e conflito com o pai — é um gatilho psicossocial clássico para o desenvolvimento do transtorno. O pai obeso pode reforçar a preocupação da filha com o peso, e a dinâmica familiar disfuncional é um fator de risco conhecido.

É importante distinguir a anorexia nervosa de outros transtornos alimentares e condições que cursam com baixo peso. A bulimia nervosa caracteriza-se por episódios de compulsão alimentar seguidos de comportamentos compensatórios (vômitos, laxantes, exercícios), mas o peso costuma estar normal ou acima do normal — não há o baixo peso marcante da anorexia. O hipertireoidismo causa perda de peso, mas com aumento do apetite, taquicardia, intolerância ao calor e outros sinais de hipermetabolismo — a paciente tem sinais vitais normais, o que afasta essa hipótese. A neofobia é a recusa em experimentar alimentos novos, comum em crianças pequenas, mas não cursa com baixo peso, medo de engordar ou amenorreia. A puberdade normal não explicaria o IMC baixo, a amenorreia e o medo de ganhar peso.

A banca explora a associação automática entre "magreza" e "transtorno alimentar", mas o diagnóstico diferencial exige atenção aos detalhes: a presença de medo intenso de ganhar peso e distúrbio da imagem corporal são os elementos que fecham o diagnóstico de anorexia nervosa e afastam as demais hipóteses. Guarde esses dois critérios — são eles que separam a anorexia de outras causas de baixo peso.

Anorexia nervosa (DSM-5)
  • 1Critérios essenciais
    • Restrição alimentar → baixo peso
    • Medo intenso de ganhar peso
    • Distúrbio da imagem corporal
  • 2Sinais clássicos
    • Amenorreia secundária
    • Comportamentos de restrição (pesquisa nutricional)
  • 3Gatilhos psicossociais
    • Luto
    • Conflito familiar
  • 4Diagnóstico diferencial
    • Bulimia: peso normal/alto + compulsão + compensação
    • Hipertireoidismo: hiperfagia + taquicardia
    • Neofobia: recusa de alimentos novos (crianças)
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

A puberdade normal não explica o IMC de 17,2 kg/m² (baixo peso), a amenorreia secundária e o medo intenso de ganhar peso com pesquisa obsessiva sobre alimentos. A paciente apresenta estádio puberal compatível com a idade, mas isso não exclui a presença de um transtorno alimentar — pelo contrário, a anorexia nervosa é mais comum exatamente nessa faixa etária, durante e após o estirão puberal.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O hipertireoidismo causa perda de peso, mas cursa com aumento do apetite (hiperfagia), taquicardia, intolerância ao calor, tremores e bócio. A paciente tem sinais vitais normais e não apresenta esses sintomas. Além disso, o hipertireoidismo não explicaria o medo mórbido de ganhar peso nem a pesquisa obsessiva sobre informações nutricionais — esses são sintomas psiquiátricos, não endócrinos.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A bulimia nervosa caracteriza-se por episódios de compulsão alimentar (ingestão de grande quantidade de alimentos em curto período, com sensação de perda de controle) seguidos de comportamentos compensatórios inadequados (vômitos autoinduzidos, uso de laxantes, diuréticos, jejum ou exercício excessivo). O peso corporal costuma estar normal ou acima do normal, não há o baixo peso marcante da anorexia. A paciente do caso não apresenta episódios de compulsão, e o IMC de 17,2 kg/m² é compatível com anorexia, não com bulimia.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A neofobia alimentar é a recusa ou relutância em experimentar alimentos novos ou desconhecidos, comum em crianças pequenas (entre 2 e 6 anos). Não cursa com baixo peso significativo, medo de ganhar peso, distúrbio da imagem corporal ou amenorreia. A paciente tem 14 anos, IMC baixo e sintomas típicos de transtorno alimentar — a neofobia não se aplica a esse quadro.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A anorexia nervosa é a hipótese diagnóstica mais provável. A paciente preenche os critérios do DSM-5: (1) restrição alimentar persistente (pesquisa obsessiva sobre informações nutricionais, comportamento de restrição) levando a peso significativamente baixo (IMC 17,2 kg/m²); (2) medo intenso de ganhar peso; (3) perturbação da imagem corporal (o pai acha que ela está "magra demais", mas ela tem grande medo de ganhar peso). A amenorreia secundária (mais de 2 meses sem menstruar) é um marcador de comprometimento clínico, e o contexto de luto materno e conflito familiar é um gatilho psicossocial clássico. O diagnóstico é clínico, e a paciente deve ser encaminhada para tratamento multidisciplinar (médico, nutricionista e psicólogo/psiquiatra).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre anorexia e bulimia. Na anorexia, o peso é baixo (IMC < percentil 5) e há restrição alimentar; na bulimia, o peso é normal ou elevado e há compulsão seguida de compensação. A presença de IMC 17,2 kg/m² e medo de ganhar peso fecha o diagnóstico de anorexia — não se deixe levar pela associação automática entre "transtorno alimentar" e "vômitos" (que é da bulimia).

PEGA ESSA DICA!

Para diferenciar anorexia de bulimia na prova, olhe o peso: anorexia = baixo peso + restrição; bulimia = peso normal/alto + compulsão + compensação. E lembre: o DSM-5 não exige mais a amenorreia como critério obrigatório para anorexia, mas sua presença reforça o diagnóstico.

Gabarito: letra E

Link permanente: /questoes/qq970223