Questão de Medicina — Oncologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Oncologia
Código
qq970312
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Endoscopia Digestiva
Um paciente de 82 anos, lúcido, orientado, ex-tabagista, hipertenso e diabético, com câncer de reto médio/baixo, foi submetido à quimioterapia e radioterapia neoadjuvantes. Ao chegar à consulta pré-operatória, avisa o cirurgião que não quer ficar, de forma alguma, com colostomia nessa cirurgia eletiva. Assinale a alternativa que apresenta a melhor conduta médica diante desse caso.
ANão realizar a cirurgia, tendo em vista que é inviável o tratamento cirúrgico desse paciente sem a confecção de uma colostomia.
BOrientar o paciente sobre seus vários fatores de risco para fístula e que a decisão sobre a colostomia será determinada no momento da cirurgia, realizando a colostomia se a anastomose for muito baixa, já que se deve fornecer o melhor tratamento a ele.
COrientar o paciente sobre seu risco mais elevado de fístula e que a colostomia pode ser importante em seu tratamento, porém, se o paciente ainda não concordar, realizar a cirurgia sem colostomia.
DOrientar o paciente sobre seu risco elevado de fístula e tentar contato com um acompanhante para que assine um termo de consentimento autorizando a realização de uma colostomia caso a anastomose seja muito baixa, confeccionando-a se necessário.
ERealizar uma retossigmoidectomia com anastomose primária e colostomia em alça para melhor aceitação do paciente (por não ser um estoma definitivo), seguindo o dever médico de realizar o tratamento que julgar necessário em casos de risco de complicações
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GabaritoC — Orientar o paciente sobre seu risco mais elevado de fístula e que a colostomia pode ser importante em seu tratamento, porém, se o paciente ainda não concordar, realizar a cirurgia sem colostomia.
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Câncer de reto: autonomia do paciente e decisão sobre colostomia
Gabarito: letra C. O paciente é lúcido, orientado e capaz de decidir; a recusa à colostomia é uma manifestação de autonomia que deve ser respeitada, desde que ele seja devidamente informado sobre os riscos. A conduta correta é orientar sobre o risco elevado de fístula e a importância da colostomia, mas, se o paciente mantiver a recusa, realizar a cirurgia sem colostomia — respeitando a vontade do paciente, que é o titular da decisão sobre o próprio corpo (princípio da autonomia, Código de Ética Médica).
A questão envolve o conflito entre o princípio da beneficência (fazer o melhor para o paciente, que seria a colostomia protetora) e o princípio da autonomia (respeitar a vontade do paciente). No Brasil, o Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018) estabelece que o médico deve respeitar a vontade do paciente, desde que ele seja capaz de decidir e tenha sido devidamente informado. O paciente em questão é lúcido e orientado, portanto capaz de tomar decisões sobre seu tratamento. A recusa à colostomia é uma decisão legítima, e o médico não pode impor um procedimento ao qual o paciente se opõe, mesmo que o considere tecnicamente melhor.
Na prática, o cirurgião deve:
Explicar claramente os riscos de não realizar a colostomia (principalmente o risco de fístula anastomótica, que é maior em anastomoses muito baixas, como no reto médio/baixo).
Explicar os benefícios da colostomia protetora (desviar o trânsito intestinal para proteger a anastomose, reduzindo a gravidade das complicações caso ocorra deiscência).
Respeitar a decisão do paciente, se ele mantiver a recusa, e realizar a cirurgia sem colostomia, documentando a orientação e a recusa no prontuário.
A alternativa C é a única que equilibra corretamente a informação (orientar sobre o risco) e o respeito à autonomia (realizar a cirurgia sem colostomia se o paciente não concordar). As demais alternativas ou ignoram a autonomia do paciente (B, D, E) ou são inviáveis (A).
A pegadinha da banca está em confundir o papel do médico: ele não é o dono da decisão, mas o orientador. O médico deve informar e recomendar, mas a decisão final é do paciente capaz. A alternativa B, por exemplo, parece razoável ao "fornecer o melhor tratamento", mas ignora que o paciente tem o direito de recusar um procedimento, mesmo que ele seja o melhor do ponto de vista técnico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o dever de informar e o dever de decidir. O médico deve informar e recomendar, mas a decisão final é do paciente capaz. Alternativas como B e D parecem "tecnicamente corretas", mas violam a autonomia do paciente. A alternativa E é uma armadilha clássica: o médico não pode impor um procedimento ao qual o paciente se opõe, mesmo que o considere necessário.
Conflito de princípios
1Beneficência (colostomia protetora)
2Autonomia (vontade do paciente)
3Conduta correta (C)
Orientar sobre risco de fístula
Explicar benefício da colostomia
Respeitar recusa do paciente capaz
Realizar cirurgia sem colostomia
Documentar orientação e recusa
4Condutas incorretas
Impor colostomia (B, E)
Consentimento por acompanhante (D)
Recusar cirurgia (A)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que é inviável o tratamento cirúrgico sem colostomia. Isso é falso: a cirurgia pode ser realizada sem colostomia, mesmo com risco aumentado de fístula. A colostomia é uma opção protetora, não uma obrigatoriedade. Além disso, a alternativa ignora completamente a autonomia do paciente, tratando a colostomia como inevitável.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa orienta o paciente sobre os riscos, mas decide por ele: "realizando a colostomia se a anastomose for muito baixa". Isso viola a autonomia do paciente, que já manifestou recusa. O médico não pode decidir unilateralmente, mesmo que seja para "fornecer o melhor tratamento". A decisão deve ser compartilhada, e a recusa do paciente deve ser respeitada.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Esta alternativa equilibra corretamente a informação e a autonomia: orienta o paciente sobre o risco elevado de fístula e a importância da colostomia, mas, se o paciente mantiver a recusa, realiza a cirurgia sem colostomia. Isso respeita a vontade do paciente, que é lúcido e orientado, e cumpre o dever de informar. É a conduta eticamente correta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa tenta contornar a recusa do paciente buscando um acompanhante para assinar o consentimento. Isso é eticamente incorreto: o consentimento deve ser do próprio paciente, que é capaz. Um acompanhante não pode substituir a decisão de um paciente capaz. Além disso, a alternativa desrespeita a autonomia do paciente, que já manifestou sua vontade.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa propõe realizar a cirurgia com colostomia em alça "para melhor aceitação do paciente", mas isso ignora a recusa explícita do paciente. O médico não pode impor um procedimento ao qual o paciente se opõe, mesmo que o considere necessário. A colostomia em alça, embora temporária, ainda é uma colostomia, e o paciente foi claro: "não quer ficar, de forma alguma, com colostomia".