Questão de Medicina — Medicina Intensiva — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Medicina Intensiva
Código
qq970660
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Medicina Intensiva Pediátrica
A presença de acidemia é frequente no paciente crítico, com causas diversas como acidose lática, acidose metabólica hiperclorêmica e acidose respiratória. Assinale a alternativa correta relacionada a alterações nos diferentes sistemas em pacientes com acidemia.
AAumento da resposta cardiovascular às catecolaminas.
BAumenta a captação de glicose pelos tecidos.
CDiminui a resistência vascular pulmonar.
DDiminui a contratilidade miocárdica.
EHipoventilação.
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GabaritoD — Diminui a contratilidade miocárdica.
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Acidemia no paciente crítico: efeitos sistêmicos
Gabarito: letra D. A acidemia (pH < 7,35) exerce efeitos profundos em múltiplos sistemas, e um dos mais importantes é a depressão da contratilidade miocárdica — o coração bombeia com menos força em ambiente ácido, o que pode agravar quadros de choque. As demais alternativas descrevem efeitos opostos ou incorretos: a acidemia diminui a resposta às catecolaminas, reduz a captação de glicose, aumenta a resistência vascular pulmonar e estimula a hiperventilação (não hipoventilação) como mecanismo compensatório.
A acidemia é definida como a redução do pH sanguíneo abaixo de 7,35, e pode resultar de acidose metabólica (acúmulo de ácidos ou perda de bicarbonato) ou acidose respiratória (retenção de CO₂). No paciente crítico, é um distúrbio frequente e associado a piores desfechos, incluindo disfunção miocárdica, instabilidade hemodinâmica e disfunção de múltiplos órgãos. O entendimento dos efeitos da acidemia em cada sistema é essencial para o manejo adequado, pois orienta decisões como a reposição de bicarbonato, ajustes ventilatórios e suporte hemodinâmico.
Os efeitos da acidemia são mediados principalmente pela alteração do pH intracelular e pela influência sobre enzimas, canais iônicos e receptores. No sistema cardiovascular, a acidemia tem ação inotrópica negativa — ou seja, reduz a força de contração do miocárdio. Isso ocorre porque o excesso de íons H⁺ compete com o cálcio nos sítios de ligação das proteínas contráteis e interfere na entrada de cálcio durante o potencial de ação. Além disso, a acidemia diminui a sensibilidade dos receptores adrenérgicos às catecolaminas, o que reduz a eficácia de drogas vasopressoras e inotrópicas — um fenômeno particularmente relevante no choque séptico ou cardiogênico, em que o paciente pode necessitar de doses maiores de noradrenalina ou dobutamina para obter resposta hemodinâmica adequada.
No sistema respiratório, a acidemia estimula os quimiorreceptores centrais e periféricos, resultando em hiperventilação (aumento da frequência e profundidade respiratória) como mecanismo compensatório para eliminar CO₂ e elevar o pH. A hipoventilação, ao contrário, levaria ao acúmulo de CO₂ e agravamento da acidose. Na circulação pulmonar, a acidemia causa vasoconstrição (aumento da resistência vascular pulmonar), o que pode elevar a pressão arterial pulmonar e sobrecarregar o ventrículo direito. No metabolismo da glicose, a acidemia inibe a captação de glicose pelos tecidos e prejudica a utilização de insulina, contribuindo para a hiperglicemia frequentemente observada em pacientes críticos.
A distinção central que a questão explora é entre os efeitos depressores da acidemia sobre o coração e a resposta às catecolaminas, e os efeitos estimuladores sobre a ventilação. Enquanto a acidemia deprime a contratilidade miocárdica e a resposta adrenérgica, ela estimula o centro respiratório. Essa dualidade é uma pegadinha clássica: o candidato pode associar a acidemia a um estado de "hiperatividade" geral, quando na verdade o efeito predominante no coração é de depressão.
Guarde este contraste: acidemia deprime o coração e a resposta às catecolaminas, mas estimula a ventilação e contrai a vasculatura pulmonar. É exatamente nesse contraste que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
Afirma que a acidemia aumenta a resposta cardiovascular às catecolaminas. Na realidade, ocorre o oposto: a acidemia diminui a sensibilidade dos receptores adrenérgicos, tornando o coração e os vasos menos responsivos à noradrenalina, adrenalina e dobutamina. Esse é um dos motivos pelos quais pacientes acidêmicos em choque podem necessitar de doses mais altas de vasopressores. A banca inverte o sentido do efeito — a acidemia não potencializa, mas sim atenua a resposta às catecolaminas.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a acidemia aumenta a captação de glicose pelos tecidos. O efeito real é o contrário: a acidemia inibe a captação de glicose, pois interfere na ação da insulina e no transporte de glicose para dentro das células. Isso contribui para a hiperglicemia de estresse, comum no paciente crítico. A alternativa troca o efeito inibitório por um estimulatório.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Afirma que a acidemia diminui a resistência vascular pulmonar. Na verdade, a acidemia causa vasoconstrição pulmonar, aumentando a resistência vascular pulmonar e a pressão na artéria pulmonar. Esse efeito pode sobrecarregar o ventrículo direito e piorar a função cardíaca em pacientes com disfunção ventricular direita. A alternativa inverte o efeito: a acidemia não dilata, mas contrai a vasculatura pulmonar.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Afirma que a acidemia diminui a contratilidade miocárdica. Este é o efeito correto e bem documentado: o excesso de íons H⁺ interfere na interação entre cálcio e as proteínas contráteis (actina e miosina), reduzindo a força de contração do coração. Esse efeito inotrópico negativo é um dos principais mecanismos pelos quais a acidemia contribui para a disfunção hemodinâmica no paciente crítico, podendo agravar quadros de choque e insuficiência cardíaca. A alternativa espelha exatamente o efeito depressivo da acidemia sobre o miocárdio.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a acidemia causa hipoventilação. O efeito real é o oposto: a acidemia estimula os quimiorreceptores centrais e periféricos, resultando em hiperventilação (aumento da frequência e profundidade respiratória) como mecanismo compensatório para eliminar CO₂ e elevar o pH. A hipoventilação, ao contrário, levaria ao acúmulo de CO₂ e agravamento da acidose respiratória. A alternativa inverte o mecanismo compensatório fisiológico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre os efeitos depressores e estimuladores da acidemia. O candidato pode pensar que a acidemia "acelera" tudo, mas o efeito predominante no coração é de depressão (contratilidade reduzida, resposta às catecolaminas diminuída), enquanto na ventilação o efeito é de estimulação (hiperventilação). Memorize o par: coração deprimido, respiração acelerada.
PEGA ESSA DICA!
Para fixar, monte um quadro mental dos efeitos da acidemia: coração (contratilidade ↓, resposta a catecolaminas ↓), pulmão (vasoconstrição ↑, ventilação ↑), metabolismo (captação de glicose ↓). Se a alternativa trouxer um efeito "aumentado" no coração ou "diminuído" na ventilação, desconfie imediatamente — é a inversão clássica.
Gabarito: letra D — a acidemia diminui a contratilidade miocárdica.