Questão de Medicina — Envenenamentos e Acidentes — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Envenenamentos e Acidentes
Código
qq970678
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Medicina Paliativa
Paciente do sexo masculino, 46 anos, em tentativa de suicídio, fez ingesta de uma grande quantidade de etilenoglicol. Qual é o distúrbio ácido-básico consequente?
AAcidose respiratória.
BAlcalose respiratória.
CAcidose metabólica com ânion gap aumentado.
DAcidose metabólica com ânion gap normal.
EAlcalose metabólica.
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GabaritoC — Acidose metabólica com ânion gap aumentado.
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Intoxicação por etilenoglicol: distúrbio ácido-básico
Gabarito: letra C. A ingestão de etilenoglicol, componente de anticongelantes, leva à acidose metabólica com ânion gap aumentado, pois seu metabolismo gera ácidos orgânicos (glicólico, oxálico e fórmico) que se acumulam no sangue. Essa é a assinatura clássica da intoxicação por etilenoglicol e metanol, conforme a fisiopatologia dos distúrbios ácido-básicos.
O etilenoglicol é um álcool tóxico metabolizado pela enzima álcool desidrogenase. Esse metabolismo produz ácidos orgânicos fortes — principalmente ácido glicólico, além de oxálico e fórmico — que se dissociam e liberam íons H⁺, consumindo o bicarbonato plasmático. O resultado é uma acidose metabólica com hiato aniônico (ânion gap) elevado, porque os ânions desses ácidos não são cloreto nem bicarbonato e ficam "invisíveis" no cálculo do gap. O hiato osmolar também aumenta, sendo uma pista diagnóstica importante nesses casos.
Na prática, o paciente que ingere etilenoglicol apresenta inicialmente sintomas neurológicos (embriaguez, convulsões, coma) e, sem tratamento, evolui com taquipneia, edema pulmonar e colapso cardiovascular. Cerca de 24 a 48 horas após a ingestão, pode surgir lesão renal aguda com cristais de oxalato de cálcio na urina. O tratamento envolve suporte, fomepizol (inibidor da álcool desidrogenase) e, em casos graves, hemodiálise.
A distinção crucial é entre acidose metabólica com ânion gap aumentado e com ânion gap normal. No gap normal, a acidose decorre de perda de bicarbonato (diarreia) ou acidose hiperclorêmica (disfunção renal tubular). No gap aumentado, há acúmulo de ácidos endógenos ou exógenos — como cetoácidos, lactato, salicilatos, metanol e etilenoglicol. A banca explora exatamente essa fronteira: o etilenoglicol é um clássico de gap aumentado, e o candidato que confunde com as causas de gap normal erra a questão.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta confundir o candidato com a alternativa D (acidose metabólica com ânion gap normal). A pegadinha está em associar "intoxicação" a "perda de bicarbonato" — mas o etilenoglicol não causa perda de bicarbonato; ele gera ácidos que se acumulam, elevando o ânion gap. Guarde: intoxicações por etilenoglicol, metanol, salicilatos e cetoacidose são causas clássicas de acidose metabólica com ânion gap aumentado.
Acidose metabólica
1Ânion gap aumentado
Etilenoglicol
Metanol
Salicilatos
Cetoacidose
Lactato
2Ânion gap normal
Perda de bicarbonato (diarreia)
Acidose tubular renal
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A acidose respiratória decorre de hipoventilação alveolar com retenção de CO₂, como na DPOC ou na depressão do centro respiratório. No etilenoglicol, o distúrbio primário é metabólico, não respiratório. A taquipneia que pode ocorrer é uma compensação respiratória à acidose metabólica, não a causa do distúrbio.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alcalose respiratória resulta de hiperventilação com eliminação excessiva de CO₂, como na ansiedade, embolia pulmonar ou hipoxemia. Não é o distúrbio consequente à ingestão de etilenoglicol. O paciente pode hiperventilar como compensação, mas o distúrbio primário é a acidose metabólica.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
O etilenoglicol é metabolizado em ácidos glicólico, oxálico e fórmico, que se acumulam e causam acidose metabólica com ânion gap aumentado. É a assinatura clássica da intoxicação, junto com o hiato osmolar elevado. O tratamento com fomepizol inibe a álcool desidrogenase, impedindo a formação desses metabólitos tóxicos.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A acidose metabólica com ânion gap normal (hiperclorêmica) ocorre por perda de bicarbonato (diarreia) ou acidose tubular renal. No etilenoglicol, o gap está aumentado, não normal. Essa é a pegadinha central da questão: confundir as duas formas de acidose metabólica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alcalose metabólica resulta de perda de H⁺ (vômitos) ou ganho de bicarbonato (diuréticos, hiperaldosteronismo). Não é consequência da intoxicação por etilenoglicol, que gera ácidos e causa acidose, não alcalose.
Gabarito: letra C — acidose metabólica com ânion gap aumentado, a assinatura da intoxicação por etilenoglicol.