Questão de Medicina — Farmacologia e Anestesiologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Farmacologia e Anestesiologia
Código
qq970693
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Medicina Paliativa
Mulher é admitida na UTI por queixas de palpitações e taquicardia, com episódio semelhante há 3 anos. Ao eletrocardiograma, evidencia taquicardia com QRS estreito, frequência ventricular de 160 bm, não conseguindo visualizar onda P. Após realização de manobra vagal, não teve reversão no pronto-socorro. Considerando o caso apresentado, o médico da UTI solicita a realização, preferencialmente, de qual medicamento para a reversão da arritmia?
AAmiodarona
BDeslanosídeo
CProcainamida
DAdenosina
ECálcio
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GabaritoD — Adenosina
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Taquicardia supraventricular: uso de adenosina
Gabarito: letra D. O caso descreve taquicardia com QRS estreito, frequência ventricular de 160 bpm e ausência de onda P, sem reversão com manobra vagal — quadro típico de taquicardia supraventricular (TSV), cuja droga de primeira escolha para reversão é a adenosina (antiarrítmico classe V, bloqueador do nó atrioventricular). A adenosina é o fármaco preferencial nesse cenário por sua ação rápida e meia-vida curtíssima, sendo o padrão-ouro tanto para diagnóstico quanto para tratamento das taquicardias regulares de QRS estreito.
A taquicardia supraventricular é uma arritmia que se origina acima da bifurcação do feixe de His, envolvendo, na maioria dos casos, um mecanismo de reentrada que utiliza o nó atrioventricular (NAV) como parte do circuito. O ECG típico mostra QRS estreito (duração < 120 ms), frequência elevada (geralmente 150–250 bpm) e, com frequência, ausência de ondas P visíveis — exatamente o padrão descrito no enunciado. A manobra vagal (como a manobra de Valsalva) aumenta o tônus parassimpático e pode interromper a reentrada, mas quando falha, parte-se para a terapia farmacológica.
A adenosina é um nucleosídeo endógeno que age nos receptores A1 do NAV, causando bloqueio atrioventricular transitório e interrompendo o circuito de reentrada. Sua meia-vida é de segundos (menos de 10 segundos), o que a torna extremamente segura — os efeitos colaterais (rubor, dispneia, dor torácica) são fugazes. A dose inicial é de 6 mg em bolus intravenoso rápido, seguida de flush de soro fisiológico; se não houver reversão, pode-se repetir com 12 mg. É importante lembrar que a adenosina também tem papel diagnóstico: ao bloquear o NAV, ela "desmascara" arritmias atriais como flutter ou taquicardia atrial, permitindo visualizar as ondas atriais no ECG.
A escolha da adenosina em detrimento de outras drogas se justifica por sua eficácia superior na TSV regular e por seu perfil de segurança. A amiodarona, por exemplo, é a droga de escolha para taquicardias de QRS largo (como a TV), mas não é a primeira opção na TSV estável. O deslanosídeo (digitálico) e os bloqueadores de canal de cálcio (como verapamil) também podem ser usados, mas têm início de ação mais lento e maior risco de efeitos adversos. A procainamida é mais indicada para arritmias ventriculares ou para TSV com pré-excitação (WPW).
A pegadinha desta questão está em reconhecer que o caso é de taquicardia de QRS estreito — o que direciona o tratamento para a adenosina, e não para a amiodarona, que seria a escolha em QRS largo. O candidato que confunde os dois cenários tende a marcar a amiodarona, mas a diretriz é clara: na TSV regular e estável, a adenosina é a droga preferencial.
1Manobra vagal
2Adenosina 6 mg IV
3Repetir 12 mg se necessário
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A amiodarona é um antiarrítmico classe III, droga de escolha para taquicardias de QRS largo (como a TV estável) e para cardioversão química em certos casos de fibrilação atrial. No entanto, na taquicardia supraventricular regular de QRS estreito, a adenosina é a primeira escolha — a amiodarona fica reservada para casos refratários ou quando há cardiopatia estrutural. Usá-la como primeira opção neste cenário atrasaria a reversão e exporia a paciente a efeitos colaterais desnecessários.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O deslanosídeo é um digitálico (classe dos cardiotônicos) usado principalmente para controle de frequência na fibrilação atrial e na insuficiência cardíaca, não para reversão de taquicardia supraventricular. Seu início de ação é lento (30–60 minutos) e seu perfil de segurança é pior, com risco de intoxicação digitálica. Na TSV aguda, não é a droga preferencial.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A procainamida é um antiarrítmico classe IA, eficaz em taquicardias ventriculares e em taquicardias supraventriculares com pré-excitação (WPW). Porém, não é a primeira escolha na TSV regular de QRS estreito — a adenosina é mais rápida e segura. Além disso, a procainamida não está amplamente disponível no Brasil, o que limita seu uso na prática clínica.
Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A adenosina é o fármaco de primeira escolha para reversão da taquicardia supraventricular regular de QRS estreito, como no caso descrito. Sua ação bloqueia o nó atrioventricular, interrompendo o circuito de reentrada, e sua meia-vida curtíssima (segundos) a torna extremamente segura. A dose inicial é de 6 mg em bolus IV rápido, podendo ser repetida com 12 mg. É a droga preferencial tanto para diagnóstico quanto para tratamento.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O cálcio (na forma de gluconato ou cloreto de cálcio) é usado no tratamento de emergências como hipercalemia, hipocalcemia e intoxicação por bloqueadores de canal de cálcio. Não tem papel na reversão de taquicardia supraventricular — na verdade, o cálcio intravenoso pode até piorar o quadro em certas arritmias. Não há indicação para seu uso neste caso.
Gabarito: letra D — adenosina é a droga preferencial para reversão da taquicardia supraventricular de QRS estreito.