Questão de Medicina — Neurologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Neurologia
Código
qq970741
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Neurofisiologia Clínica
Paciente do sexo feminino, 33 anos, apresenta-se com história de dor cervical crônica e em ombros, com piora durante a flexão e a extensão do pescoço, assim como quando tosse ou espirra. Associa ao quadro sintomas intermitentes de parestesias nas pontas dos dedos bilateralmente. Seu exame físico não apresenta déficits neurológicos. Sua ressonância nuclear magnética demonstra a herniação das tonsilas cerebelares associada à siringomielia. Nesse caso, a conduta inicial consistirá em
Adescompressão suboccipital.
Bderivação ventrículo-peritoneal.
Cderivação lombo-peritoneal.
DAcompanhamento clínico radiológico.
Edescompressão suboccipital associada à derivação ventrículo-peritoneal.
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GabaritoA — descompressão suboccipital.
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Malformação de Chiari tipo 1 com siringomielia: conduta inicial
Gabarito: letra A. A paciente apresenta herniação das tonsilas cerebelares (Malformação de Chiari tipo 1) associada a siringomielia e sintomas compressivos (dor cervical, parestesias), o que indica tratamento cirúrgico. A conduta inicial é a descompressão suboccipital (descompressão da fossa posterior), que visa restabelecer o fluxo do líquido cefalorraquidiano (LCR) na junção craniovertebral. As demais opções (derivações) não são o tratamento de primeira linha para esta condição.
A Malformação de Chiari tipo 1 (MC1) é uma condição congênita caracterizada pelo deslocamento das tonsilas cerebelares para baixo, através do forame magno, geralmente mais de 5 mm. Esse deslocamento ocorre devido ao subdesenvolvimento dos ossos da base do crânio e à redução do volume da fossa posterior. O resultado é a obstrução do fluxo normal do LCR, o que pode levar ao desenvolvimento de uma cavidade cística dentro da medula espinhal, chamada siringomielia. A siringomielia, por sua vez, pode causar sintomas como perda sensitiva dissociada (perda da sensibilidade à dor e temperatura com preservação do tato), atrofia muscular e parestesias, que se manifestam na paciente como dormência nas pontas dos dedos.
O tratamento da MC1 sintomática, especialmente quando associada a siringomielia, é cirúrgico. O objetivo da cirurgia é descomprimir a junção craniovertebral, aliviando a obstrução do fluxo de LCR e permitindo que a siringe diminua ou estabilize. A técnica mais comum é a descompressão da fossa posterior, também chamada de descompressão suboccipital, que envolve a remoção de uma porção do osso occipital e, frequentemente, do arco posterior da primeira vértebra cervical (C1). Em alguns casos, pode ser necessária a abertura da dura-máter (duroplastia) para ampliar ainda mais o espaço. A descompressão suboccipital isolada é a conduta inicial padrão, e a associação com derivação ventrículo-peritoneal não é rotineira, sendo reservada para casos específicos de hidrocefalia.
A decisão entre tratamento cirúrgico e acompanhamento clínico depende da presença de sintomas e de achados de imagem. Pacientes assintomáticos, sem siringomielia, podem ser apenas observados. No entanto, a presença de sintomas como dor cervical, parestesias, déficits neurológicos ou siringomielia é indicação de cirurgia. No caso da paciente, a presença de dor cervical crônica, parestesias e siringomielia na ressonância magnética torna a descompressão suboccipital a conduta inicial mais adequada.
É importante distinguir a MC1 de outras condições que podem causar herniação das tonsilas cerebelares, como a hipertensão intracraniana idiopática ou lesões expansivas do sistema nervoso central. A ressonância magnética é o método de escolha para o diagnóstico, e estudos de fluxo de LCR podem ajudar a avaliar a relevância clínica da obstrução. A conduta inicial, portanto, não é uma derivação (que trata hidrocefalia ou hipertensão intracraniana), mas sim a descompressão da fossa posterior, que aborda diretamente a causa da obstrução do fluxo de LCR.
A pegadinha desta questão está em confundir a MC1 com outras condições que cursam com hidrocefalia ou hipertensão intracraniana, para as quais as derivações seriam indicadas. A banca explora a associação automática entre siringomielia e derivação, quando na verdade o tratamento de primeira linha para a MC1 sintomática é a descompressão suboccipital. Guarde a fronteira: MC1 com siringomielia sintomática → descompressão suboccipital; hidrocefalia → derivação ventrículo-peritoneal.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A descompressão suboccipital é o tratamento de escolha para a Malformação de Chiari tipo 1 sintomática, especialmente quando associada a siringomielia. O objetivo é descomprimir a junção craniovertebral, restaurando o fluxo de LCR e aliviando os sintomas. A paciente apresenta dor cervical, parestesias e siringomielia, o que justifica a indicação cirúrgica. A descompressão suboccipital é a conduta inicial padrão, podendo ser associada ou não à duroplastia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A derivação ventrículo-peritoneal é indicada para o tratamento de hidrocefalia, que não é a condição apresentada pela paciente. Na MC1, o problema é a obstrução do fluxo de LCR na junção craniovertebral, e não um acúmulo de LCR nos ventrículos cerebrais. A derivação ventrículo-peritoneal desvia o LCR dos ventrículos para a cavidade peritoneal, mas não aborda a causa da obstrução na base do crânio. Portanto, não é a conduta inicial adequada.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A derivação lombo-peritoneal é uma técnica utilizada em algumas condições, como a hipertensão intracraniana idiopática, para drenar LCR do espaço subaracnóideo lombar. No entanto, não é o tratamento de escolha para a MC1 com siringomielia. A derivação lombo-peritoneal não descomprime a junção craniovertebral e pode até piorar a siringomielia em alguns casos, pois altera a dinâmica do LCR de forma não fisiológica. Portanto, está incorreta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
O acompanhamento clínico radiológico é indicado para pacientes assintomáticos, sem siringomielia ou com sintomas leves e estáveis. No caso da paciente, há sintomas significativos (dor cervical crônica, parestesias) e siringomielia na ressonância magnética, o que contraindica a conduta conservadora. A presença de siringomielia é um fator de risco para progressão neurológica, e o tratamento cirúrgico é recomendado. Portanto, o acompanhamento clínico não é a conduta inicial adequada.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A associação de descompressão suboccipital com derivação ventrículo-peritoneal não é a conduta inicial padrão para a MC1 com siringomielia. A derivação ventrículo-peritoneal é reservada para casos de hidrocefalia concomitante, que não está presente na paciente. A descompressão suboccipital isolada é o tratamento de primeira linha, e a adição de uma derivação não é necessária e pode aumentar a morbidade cirúrgica. Portanto, a alternativa está incorreta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta induzir o candidato a associar a siringomielia à necessidade de uma derivação (ventrículo-peritoneal ou lombo-peritoneal), como se o tratamento fosse drenar o líquido. Na verdade, a siringomielia na MC1 é consequência da obstrução do fluxo de LCR na junção craniovertebral, e o tratamento correto é a descompressão suboccipital, que remove a obstrução. Lembre-se: MC1 sintomática → descompressão; hidrocefalia → derivação.
PEGA ESSA DICA!
Para questões sobre Malformação de Chiari, foque na tríade: (1) herniação das tonsilas cerebelares, (2) sintomas de compressão do tronco ou medula, (3) siringomielia. Se houver sintomas ou siringomielia, a conduta é cirúrgica (descompressão suboccipital). Se assintomático e sem siringe, pode-se observar. As derivações são para hidrocefalia, não para MC1.