Questão de Medicina — Neurologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Neurologia
Código
qq970779
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
EBSERH
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Residência Médica - PRM - Área de Atuação: Neurofisiologia Clínica
Um homem de 42 anos apresenta perda de memória nos últimos meses, com antecedente de artralgia, febre baixa, hiperpigmentação da pele e diarreia frequente. Ao exame, ele apresenta rigidez leve nas extremidades superiores e movimentos pendulares lentos concomitantes dos olhos e contração do masseter. Nesse caso, o diagnóstico mais provável é
Adoença de Wilson.
Bneurossífilis.
Cdoença de Whipple.
Ddoença de Alzheimer de início precoce.
Edemência pelo vírus da imunodeficiência humana.
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GabaritoC — doença de Whipple.
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Doença de Whipple: uma causa tratável de demência com manifestações sistêmicas
Gabarito: letra C. O quadro clínico descrito — perda de memória, artralgia, febre baixa, hiperpigmentação da pele, diarreia, rigidez leve, movimentos pendulares lentos dos olhos (oftalmoplegia supranuclear) e contração do masseter (mioclonia) — é altamente sugestivo de doença de Whipple, uma infecção sistêmica crônica pelo Tropheryma whipplei que pode acometer o sistema nervoso central. A combinação de sintomas gastrointestinais, articulares e neurológicos, com o achado clássico de movimentos oculomastigatórios (oculomastigatory myorhythmia), é praticamente patognomônica dessa condição.
A doença de Whipple é uma infecção bacteriana crônica, rara, causada pelo Tropheryma whipplei, um bacilo gram-positivo. A doença clássica manifesta-se com tríade de diarreia, perda de peso e artralgia, mas pode apresentar envolvimento de múltiplos órgãos. O acometimento do sistema nervoso central (SNC) ocorre em uma parcela dos pacientes e pode ser a manifestação inicial ou surgir anos após o quadro sistêmico. As manifestações neurológicas são variadas e incluem demência, oftalmoplegia supranuclear, mioclonia, ataxia, parkinsonismo e crises epilépticas. O sinal neurológico mais característico e específico é a oculomastigatory myorhythmia (OMM), que consiste em movimentos pendulares lentos e convergentes dos olhos, sincrônicos com contrações rítmicas do masseter (músculo da mastigação). Esse sinal é considerado praticamente patognomônico da doença de Whipple. O diagnóstico é confirmado por biópsia duodenal (que mostra macrófagos PAS-positivos) ou por PCR do líquido cefalorraquidiano. O tratamento é feito com antibióticos de longa duração (inicialmente ceftriaxona ou meropenem, seguidos de sulfametoxazol-trimetoprima por pelo menos um ano).
A importância do reconhecimento dessa condição reside no fato de ser uma causa tratável de demência. Diferentemente da doença de Alzheimer, que é neurodegenerativa e progressiva, a demência da doença de Whipple pode regredir com o tratamento antibiótico adequado. Por isso, na avaliação de um paciente com demência, especialmente quando há sintomas sistêmicos associados, é fundamental considerar as causas reversíveis, como infecções (neurossífilis, HIV, doença de Whipple), deficiências vitamínicas, distúrbios metabólicos e endócrinos.
A questão explora a capacidade de reconhecer uma síndrome neurológica específica a partir de um quadro clínico complexo. O candidato precisa correlacionar os sintomas sistêmicos (artralgia, febre, diarreia, hiperpigmentação) com os sinais neurológicos (demência, oftalmoplegia, mioclonia) e identificar a doença que une esses achados. A presença da oculomastigatory myorhythmia é o achado-chave que direciona o diagnóstico para a doença de Whipple, pois é um sinal altamente específico. As demais alternativas apresentam quadros que podem cursar com demência, mas não explicam a totalidade dos sintomas apresentados, especialmente o sinal oculomastigatório.
Doença de Whipple
1Causa: Tropheryma whipplei
2Manifestações sistêmicas
Diarreia
Artralgia
Febre
Hiperpigmentação
3Manifestações neurológicas
Demência
Oftalmoplegia supranuclear
Mioclonia
Sinal patognomônico: oculomastigatory myorhythmia
4Diagnóstico
Biópsia duodenal (macrófagos PAS+)
PCR do LCR
5Tratamento
Antibióticos de longa duração
Causa tratável de demência
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Alternativa A — ❌ Incorreta
A doença de Wilson é um distúrbio autossômico recessivo do metabolismo do cobre, que se acumula no fígado, cérebro e outros órgãos. As manifestações neurológicas incluem tremor, distonia, disartria, parkinsonismo e alterações psiquiátricas, podendo haver demência em fases avançadas. No entanto, o quadro descrito não apresenta os sinais típicos da doença de Wilson, como anel de Kayser-Fleischer na córnea, e os sintomas gastrointestinais (diarreia) e articulares (artralgia) não são característicos. A hiperpigmentação da pele pode ocorrer, mas não é um achado proeminente. O sinal oculomastigatório não faz parte da doença de Wilson.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A neurossífilis pode causar demência, mas o quadro clínico típico é diferente. A neurossífilis parenquimatosa (demência paralítica) manifesta-se com alterações de personalidade, delírios de grandeza, disartria, tremor e pupilas de Argyll Robertson. A neurossífilis meningovascular pode causar AVCs. Os sintomas sistêmicos descritos (artralgia, febre, diarreia, hiperpigmentação) não são característicos da neurossífilis, e o sinal oculomastigatório não é descrito nessa condição. Embora a neurossífilis seja uma causa tratável de demência, o quadro clínico apresentado não a sugere como diagnóstico mais provável.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A doença de Whipple é a alternativa que melhor explica o quadro completo. A tríade clássica de diarreia, artralgia e perda de peso, associada a febre e hiperpigmentação da pele, é característica da infecção sistêmica pelo Tropheryma whipplei. O envolvimento do SNC, com demência, oftalmoplegia supranuclear e mioclonia, é uma complicação conhecida. O achado de movimentos pendulares lentos dos olhos com contração do masseter (oculomastigatory myorhythmia) é considerado patognomônico da doença de Whipple, tornando o diagnóstico praticamente certo. A rigidez leve nas extremidades superiores pode ser um sinal de parkinsonismo associado.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A doença de Alzheimer de início precoce (idade < 65 anos) manifesta-se tipicamente com perda progressiva de memória episódica, sem sintomas sistêmicos. O quadro descrito apresenta artralgia, febre, diarreia e hiperpigmentação, que não fazem parte do espectro clínico da doença de Alzheimer. Além disso, os sinais neurológicos focais (oftalmoplegia, mioclonia, rigidez) e o sinal oculomastigatório não são característicos da doença de Alzheimer, que cursa com um declínio cognitivo mais global e progressivo, sem esses achados motores específicos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A demência pelo HIV (complexo demência-AIDS) pode ocorrer em pacientes com infecção avançada pelo vírus. Os sintomas incluem declínio cognitivo, lentificação psicomotora, apatia e dificuldades de concentração. No entanto, o quadro descrito não menciona fatores de risco para HIV, e os sintomas sistêmicos (artralgia, febre, diarreia, hiperpigmentação) não são típicos da demência pelo HIV, embora possam ocorrer em outras infecções oportunistas. O sinal oculomastigatório não é descrito na demência pelo HIV. A diarreia crônica pode ocorrer em pacientes com HIV, mas a combinação com artralgia, febre e hiperpigmentação, juntamente com o sinal neurológico específico, aponta mais fortemente para a doença de Whipple.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a associação automática entre demência e doenças neurodegenerativas (Alzheimer) ou infecções comuns (HIV, sífilis). O candidato que não conhece a oculomastigatory myorhythmia pode não identificar o sinal patognomônico e se perder nos sintomas inespecíficos. A chave é lembrar que a doença de Whipple é uma causa tratável de demência e que o sinal oculomastigatório é altamente específico. Com treino, você reconhece esse padrão de longe 💪.
PEGA ESSA DICA!
Ao se deparar com um caso de demência, sempre pergunte: há sintomas sistêmicos associados? Se sim, pense em causas reversíveis (infecções, deficiências, metabólicas). Memorize os sinais neurológicos específicos de cada causa: Whipple → oculomastigatory myorhythmia; neurossífilis → pupilas de Argyll Robertson; Wilson → anel de Kayser-Fleischer; HIV → sintomas de imunossupressão. Essa tabela mental ajuda a diferenciar as causas na hora da prova.