Hanseníase: manifestações neurológicas
Gabarito: letra C. A forma de comprometimento neurológico mais comum na hanseníase é a mononeurite isolada ou múltipla, principalmente em membros superiores, pois o bacilo tem predileção por nervos superficiais em regiões de temperatura mais baixa, como o nervo ulnar. Essa afirmação está alinhada com o padrão de neuropatia descrito na literatura, que varia conforme a resposta imune do hospedeiro.
A hanseníase é uma doença infecciosa crônica causada pelo Mycobacterium leprae, que tem tropismo por pele e nervos periféricos. O espectro clínico da doença é determinado pela resposta imunológica do indivíduo: no polo tuberculoide (TT), há uma resposta celular eficiente (Th1), com poucos bacilos e lesões localizadas; no polo virchowiano (VV), a resposta celular é deficiente, com grande multiplicação bacilar e comprometimento difuso. Essa diferença imunológica explica os diferentes padrões de neuropatia observados.
O comprometimento neural na hanseníase pode se manifestar de várias formas, dependendo da carga bacilar e da resposta imune. Pacientes com boa resposta celular (tuberculoide) tendem a apresentar mononeuropatia ou mononeurite múltipla, pois os bacilos ficam limitados a alguns ramos nervosos. Já pacientes com hanseníase virchowiana, com alta carga bacteriana, apresentam envolvimento mais difuso, evoluindo para polineuropatia. A hanseníase dimorfa (borderline) manifesta-se mais frequentemente com mononeurite múltipla assimétrica, que pode evoluir para polineuropatia confluente se houver redução da resposta imune.
Os nervos mais comumente acometidos são os superficiais, como o ulnar, o mediano, o fibular comum e o auricular magno, o que explica a predominância do comprometimento em membros superiores. O diagnóstico é clínico, baseado nos sinais cardinais (lesão de pele com alteração de sensibilidade, espessamento de nervo periférico e presença do bacilo), e pode ser complementado por exames como baciloscopia, biópsia de pele ou de nervo, ultrassonografia e eletroneuromiograma.
A banca explora a confusão entre os padrões de neuropatia e as características histológicas dos polos da doença. É fundamental distinguir a mononeurite (típica da forma tuberculoide) da polineuropatia (típica da forma virchowiana), além de conhecer a resposta imune predominante em cada polo. A pegadinha está em inverter essas características, como fazem as alternativas B e D.
Característica | Forma Tuberculoide (TT) | Forma Virchowiana (VV) |
|---|
Resposta imune predominante | Celular (Th1 – IL-2, IFN-gama) | Humoral (Th2) |
Carga bacilar | Poucos bacilos | Muitos bacilos |
Padrão histológico | Granulomas bem formados | Infiltrado difuso, macrófagos espumosos (células de Virchow) |
Padrão de neuropatia | Mononeurite isolada ou múltipla | Polineuropatia difusa |
Alternativa A — ❌ Incorreta
A hanseníase não é a segunda principal causa tratável de neuropatia periférica no mundo. As causas mais comuns de neuropatia periférica são o diabetes melito e o alcoolismo. A hanseníase é uma causa importante, mas não ocupa essa posição. A banca tenta confundir com a prevalência de outras neuropatias.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A forma lepromatosa (virchowiana) é caracterizada por uma resposta imune humoral (Th2), com produção de anticorpos, e deficiência na resposta celular (Th1). A resposta celular proeminente com citocinas Th1 (IL-2 e IFN-gama) é típica da forma tuberculoide, que apresenta boa resposta imune celular e poucos bacilos. A alternativa inverte o padrão imunológico dos polos.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A forma de comprometimento neurológico mais comum na hanseníase é a mononeurite isolada ou múltipla, principalmente em membros superiores. Isso ocorre porque o M. leprae tem predileção por nervos superficiais em regiões de temperatura mais baixa, como o nervo ulnar e o fibular comum. Pacientes com boa resposta celular (tuberculoide) apresentam mononeuropatia ou mononeurite múltipla, enquanto a polineuropatia é mais comum na forma virchowiana.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Na forma tuberculoide, histologicamente, encontra-se granulomas bem formados, poucos ou nenhum bacilo e uma reação inflamatória intensa, refletindo a resposta imune celular eficiente. A descrição de "poucos ou nenhum granuloma e muitos bacilos" corresponde à forma virchowiana (lepromatosa), que apresenta infiltrado inflamatório com macrófagos espumosos (células de Virchow) e grande quantidade de bacilos. A alternativa inverte as características histológicas dos polos.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O padrão-ouro para o diagnóstico definitivo da hanseníase é a baciloscopia de esfregaço intradérmico ou a biópsia de pele, mas a biópsia de nervo é mais específica e informativa em casos de forma neural pura, especialmente quando a baciloscopia é negativa. A biópsia de nervo é indicada em casos selecionados, pois é um procedimento mais invasivo e com amostra tecidual limitada. A alternativa superestima o papel da biópsia de pele em relação à de nervo.
Gabarito: letra C