Questão de Medicina — Pneumologia — INSTITUTO AOCP 2023
Medicina›Pneumologia
Código
qq971094
Banca
INSTITUTO AOCP
Órgão
IF-MA
Ano
2023
Nível
Superior
Cargo
Médico
Paciente do sexo feminino, 38 anos, comparece ao pronto atendimento com queixa de dispneia de início agudo com sudorese profusa associada à dor torácica que se iniciou há 30 minutos. Paciente de base apresenta obesidade grau 2, nega outras comorbidades, como medicações de uso contínuo, e relata apenas uso regular de anticoncepcional oral. Também relata que realizou cirurgia ortopédica, por fratura de tíbia esquerda, há aproximadamente 20 dias. Sinais vitais: FC 120bpm; Sat02 88%; FR 25; tax 37,2; PA 120/70; Glasgow 15/15. Você está no plantão e suspeita de tromboembolismo pulmonar. Desse modo, considerando a hipótese diagnóstica, assinale a alternativa correta.
AO padrão S1Q1T3 no eletrocardiograma é patognomônico de tromboembolismo pulmonar.
BTaquicardia sinusal é o achado mais comum no eletrocardiograma nos pacientes com tromboembolismo pulmonar.
CO Dímero D apresenta um alto valor preditivo positivo.
DA tríade de Virchow não faz parte da fisiopatologia da doença.
EO escore Pulmonary Embolism Rule-out Criteria (PERC) foi desenvolvido para diagnosticar os pacientes com alto risco para tromboembolismo pulmonar.
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GabaritoB — Taquicardia sinusal é o achado mais comum no eletrocardiograma nos pacientes com tromboembolismo pulmonar.
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Tromboembolismo Pulmonar: achados eletrocardiográficos e diagnóstico
Gabarito: letra B. No tromboembolismo pulmonar (TEP), o eletrocardiograma (ECG) geralmente apresenta alterações inespecíficas, sendo a taquicardia sinusal o achado mais comum — exatamente o que afirma a alternativa correta. O padrão S1Q1T3, embora clássico, é raro e não é patognomônico; o Dímero D tem alto valor preditivo negativo (e não positivo); a tríade de Virchow é a base fisiopatológica da doença; e o escore PERC serve para excluir (e não diagnosticar) o TEP em pacientes de baixo risco.
O tromboembolismo pulmonar é uma condição potencialmente fatal que resulta da obstrução aguda da circulação arterial pulmonar por trombos, na grande maioria dos casos originados de trombose venosa profunda (TVP) dos membros inferiores. A fisiopatologia da formação desses trombos é explicada pela clássica tríade de Virchow, que descreve três fatores que predispõem à trombose: (1) estase sanguínea (como a imobilização prolongada ou o repouso pós-operatório), (2) lesão endotelial (como a que ocorre em cirurgias ortopédicas) e (3) estado de hipercoagulabilidade (como o uso de anticoncepcionais orais). No caso da paciente, todos os três fatores estão presentes: cirurgia recente de tíbia (lesão endotelial e imobilização) e uso de anticoncepcional oral (hipercoagulabilidade), além da obesidade grau 2, que também é um fator de risco.
O quadro clínico do TEP é extremamente variável, mas a dispneia é o sintoma mais frequente, presente em cerca de 80% dos casos, seguida pela dor torácica. A tríade clássica (dispneia, dor torácica pleurítica e hemoptise) ocorre apenas na minoria dos pacientes. No exame físico, taquicardia, taquipneia e hipoxemia são achados comuns, como na paciente descrita (FC 120 bpm, FR 25, SatO2 88%).
O eletrocardiograma é um exame complementar importante, mas suas alterações são, em sua maioria, inespecíficas. O achado mais frequente é a taquicardia sinusal, que reflete o estresse cardiorrespiratório agudo. Outros achados possíveis incluem alterações da onda T, desvio do eixo para a direita, bloqueio de ramo direito e o clássico padrão S1Q3T3 (onda S em D1, onda Q em D3 e onda T invertida em D3), que sugere sobrecarga aguda do ventrículo direito. No entanto, esse padrão é raro e não patognomônico — pode estar ausente em muitos casos de TEP e pode estar presente em outras condições que cursam com sobrecarga ventricular direita.
O Dímero D é um exame de triagem com excelente valor preditivo negativo: um resultado normal, em paciente de baixa ou intermediária probabilidade pré-teste, torna o TEP muito improvável. Porém, seu valor preditivo positivo é baixo, pois o Dímero D pode estar elevado em diversas outras condições (cirurgias recentes, gestação, doenças inflamatórias, neoplasias, idade avançada). Por isso, ele não confirma o diagnóstico, apenas ajuda a excluí-lo em pacientes selecionados.
O escore PERC (Pulmonary Embolism Rule-out Criteria) é uma ferramenta utilizada para excluir o TEP em pacientes com baixa probabilidade pré-teste, sem a necessidade de exames complementares adicionais. Ele não foi desenvolvido para diagnosticar pacientes de alto risco — pelo contrário, sua aplicação é justamente para evitar investigação desnecessária em pacientes de baixo risco. Para pacientes com probabilidade pré-teste intermediária ou alta, utilizam-se escores como o de Wells, que estima a probabilidade clínica de TEP com base em critérios como sinais de TVP, FC > 100 bpm, imobilização ou cirurgia recente, hemoptise e neoplasia.
Guarde bem a fronteira entre o que confirma e o que exclui o TEP: o Dímero D e o escore PERC são ferramentas de exclusão (alto valor preditivo negativo), enquanto a angiotomografia de artérias pulmonares é o exame de confirmação diagnóstica. É exatamente nessa distinção que as alternativas desta questão se dividem.
Critério
Dímero D
Escore PERC
Padrão S1Q3T3
Função principal
Excluir TEP (triagem)
Excluir TEP em baixo risco
Sugerir sobrecarga de VD (inespecífico)
Valor preditivo
Alto valor preditivo negativo
Ferramenta de exclusão (não diagnóstico)
Não patognomônico (raro)
Papel no diagnóstico
Não confirma (baixo valor preditivo positivo)
Não diagnostica alto risco
Não confirma isoladamente
TEP: ECG e diagnóstico: ECG (Taquicardia sinusal (mais comum), S1Q3T3 (raro, não patognomônico)); Exames de exclusão (Dímero D (alto VPN), Escore PERC (baixo risco)); Exame de confirmação (Angiotomografia de artérias pulmonares)
Alternativa A — ❌ Incorreta
O padrão S1Q1T3 não é patognomônico de TEP. Embora seja um achado clássico e sugestivo de sobrecarga aguda do ventrículo direito, ele é raro (presente em minoria dos casos) e pode ocorrer em outras condições que cursam com sobrecarga ventricular direita, como infarto agudo do miocárdio de ventrículo direito, pericardite e até mesmo em pacientes sem doença cardíaca estrutural. O termo "patognomônico" significa um sinal ou sintoma que, quando presente, é específico e diagnóstico de uma doença — o que não se aplica ao S1Q3T3 no TEP. A banca explora a associação automática entre o padrão clássico e a doença, mas a realidade clínica é que o ECG no TEP é, na maioria das vezes, inespecífico.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A taquicardia sinusal é, de fato, o achado eletrocardiográfico mais comum no TEP. Ela reflete a resposta fisiológica ao estresse agudo: a obstrução vascular pulmonar leva a hipoxemia, aumento do trabalho respiratório e liberação de catecolaminas, resultando em aumento da frequência cardíaca. No ECG, a taquicardia sinusal é caracterizada por frequência cardíaca > 100 bpm com ondas P normais e regulares, precedendo cada complexo QRS. A paciente do caso apresenta FC de 120 bpm, consistente com esse achado. É importante notar que, embora a taquicardia sinusal seja o achado mais comum, ela é inespecífica — pode estar presente em inúmeras outras condições, como ansiedade, febre, anemia, hipovolemia e outras causas de desconforto respiratório.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O Dímero D apresenta alto valor preditivo negativo, e não positivo. Isso significa que um resultado normal (abaixo do ponto de corte) torna o TEP muito improvável em pacientes com baixa ou intermediária probabilidade pré-teste, permitindo excluir o diagnóstico. Por outro lado, um resultado elevado é inespecífico: pode estar aumentado em diversas situações (cirurgia recente, gestação, neoplasia, inflamação, idade avançada), o que confere ao exame um baixo valor preditivo positivo. Ou seja, o Dímero D elevado não confirma o TEP — apenas indica a necessidade de investigação adicional com exames de imagem. A banca inverte o conceito: troca o valor preditivo negativo (correto) pelo positivo (incorreto).
Alternativa D — ❌ Incorreta
A tríade de Virchow é exatamente a base fisiopatológica do TEP e da trombose venosa profunda. Ela descreve os três fatores que predispõem à formação de trombos: estase sanguínea, lesão endotelial e hipercoagulabilidade. No caso da paciente, todos os três estão presentes: cirurgia ortopédica recente (lesão endotelial e imobilização/estase) e uso de anticoncepcional oral (hipercoagulabilidade). A alternativa afirma que a tríade "não faz parte da fisiopatologia", o que é totalmente incorreto — ela é o alicerce do entendimento da doença. A banca explora a possibilidade de o candidato não conhecer o conceito ou confundi-lo com outra teoria.
Alternativa E — ❌ Incorreta
O escore PERC (Pulmonary Embolism Rule-out Criteria) foi desenvolvido para excluir o TEP em pacientes com baixa probabilidade pré-teste, e não para diagnosticar pacientes de alto risco. Ele é composto por oito critérios (idade < 50 anos, FC < 100 bpm, SatO2 ≥ 95%, sem hemoptise, sem uso de estrogênios, sem TVP prévia, sem cirurgia/trauma recente, sem história de TEP/TVP). Se todos os critérios estiverem presentes, o TEP pode ser excluído sem necessidade de exames complementares. A alternativa inverte completamente a função do escore: ele é uma ferramenta de triagem negativa para baixo risco, não um instrumento diagnóstico para alto risco. Para pacientes de alto risco, o caminho é a investigação com exames de imagem (angiotomografia) e, se indicado, tratamento empírico.
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora inverter o sentido das ferramentas diagnósticas. Aqui, ela troca o valor preditivo negativo do Dímero D pelo positivo (alternativa C) e a função do escore PERC de excluir para diagnosticar (alternativa E). Fique atento: no TEP, o Dímero D e o PERC são ferramentas de exclusão (descartar a doença em baixo risco), enquanto a angiotomografia é o exame de confirmação. Com treino, você enxerga essas inversões de longe 💪
PEGA ESSA DICA!
Para memorizar os achados do ECG no TEP, lembre-se: o achado mais comum é a taquicardia sinusal (inespecífica), e o padrão clássico (mas raro) é o S1Q3T3. Na prova, se a alternativa disser que S1Q3T3 é patognomônico, está errada — patognomônico é um termo forte demais para um achado tão inespecífico. E para o Dímero D, grave: alto valor preditivo NEGATIVO (exclui) e baixo valor preditivo POSITIVO (não confirma).
Gabarito: letra B — a taquicardia sinusal é o achado eletrocardiográfico mais comum no tromboembolismo pulmonar.