Leia um trecho do romance Um certo Capitão Rodrigo , de
Érico Veríssimo, para responder a questão.
Toda gente tinha achado estranha a maneira como o Capitão Rodrigo Cambará entrara na vida de Santa Fé. Um dia
chegou a cavalo, vindo ninguém sabia de onde, com o chapéu
de barbicacho1
puxado para a nuca, a bela cabeça de macho
altivamente erguida, e aquele seu olhar de gavião que irritava
e ao mesmo tempo fascinava as pessoas. Devia andar lá pelo
meio da casa dos trinta, montava um alazão2
, vestia calças
de riscado, botas com chinelas de prata e o busto musculoso
apertado num dólmã3
militar azul, com gola vermelha e botões
de metal. Tinha um violão a tiracolo; sua espada, apresilhada aos arreios, rebrilhava ao sol daquela tarde de outubro de
1828 e o lenço encarnado que trazia ao pescoço esvoaçava
no ar como uma bandeira. Apeou na frente da venda do Ni -
colau, amarrou o alazão no tronco dum cinamomo4
, entrou
arrastando as esporas, batendo na coxa direita com o rebenque5
, e foi logo gritando, assim com ar de velho conhecido:
– Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e
nos grandes dou de talho!
(Um certo Capitão Rodrigo. Editora Abril Cultural, 1981)
1 barbicacho: cordão
2 alazão: cavalo de pelo castanho
3 dólmã: casaco curto
4 cinamomo: tipo de árvore
5 rebenque: pequeno chicote
O sinal indicativo de crase está empregado corretamente na alternativa:
ARodrigo gostava de cantar e por isso trazia às costas seu violão.
BSua espada, à brilhar ao sol, estava presa aos arreios do cavalo.
CChegou misteriosamente à uma cidadezinha situada no sul do país.
DRodrigo surpreendeu à todos ao entrar todo falante na venda de Nicolau.
ECom esse trecho do livro, o autor dá início à histórias de aventura e heroísmo.
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GabaritoA — Rodrigo gostava de cantar e por isso trazia às costas seu violão.
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Crase: identificando o emprego correto
Gabarito: letra A. A alternativa A é a única em que o acento grave é obrigatório, pois ocorre a fusão da preposição a (exigida pela locução "trazia às costas") com o artigo feminino as que precede o substantivo "costas". Como se lê no texto-base, o Capitão Rodrigo "Tinha um violão a tiracolo" — e a expressão "às costas" segue a mesma lógica de locução adverbial feminina, como "à toa", "à deriva". As demais alternativas erram por usar crase antes de verbo, de numeral indefinido, de pronome pessoal ou de substantivo no plural sem artigo.
A questão cobra a aplicação da regra de crase em frases construídas a partir do texto. O comando é direto: "O sinal indicativo de crase está empregado corretamente na alternativa". Para resolver, é preciso testar cada caso: a crase só ocorre quando há preposição "a" + artigo feminino "a(s)" (ou pronome demonstrativo). Se um dos elementos faltar, o acento grave é proibido.
Caso
Exemplo
Crase?
Locução adverbial feminina
"às costas"
✅ Obrigatória
Antes de verbo
"a brilhar"
❌ Proibida
Antes de "uma"
"a uma cidadezinha"
❌ Proibida
Antes de pronome pessoal
"a todos"
❌ Proibida
Antes de plural sem artigo
"a histórias"
❌ Proibida
Crase (regra geral)
1a + artigo feminino a(s)
Locução adverbial feminina
Antes de substantivo feminino
2Proibida antes de
Verbo
Artigo indefinido "uma"
Pronome pessoal
Plural sem artigo
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Rodrigo gostava de cantar e por isso trazia às costas seu violão."
Aqui, "às costas" é uma locução adverbial feminina (equivale a "nas costas"). O verbo "trazia" exige a preposição "a" (quem traz, traz algo a algum lugar), e o substantivo "costas" admite o artigo feminino "as". Há, portanto, a fusão a + as = às, tornando o acento grave obrigatório. É o mesmo caso de locuções como "à toa", "à deriva", "à noite", que a gramática consagra com crase.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Sua espada, à brilhar ao sol, estava presa aos arreios do cavalo."
A crase é proibida antes de verbo. "Brilhar" é um verbo no infinitivo; não há artigo feminino "a" antes dele, apenas a preposição "a" (se houvesse). Portanto, o correto seria "a brilhar", sem acento grave. A banca tenta confundir o candidato com a presença de "ao sol" (que é correto, pois "sol" é masculino e exige "ao"), mas o erro está no "à brilhar".
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Chegou misteriosamente à uma cidadezinha situada no sul do país."
A crase é proibida antes do artigo indefinido "uma". Não há fusão de preposição com artigo definido; "uma" é artigo indefinido e não admite a contração. O correto seria "a uma cidadezinha". A banca explora a confusão com o verbo "chegar", que exige a preposição "a" (quem chega, chega a algum lugar), mas a presença de "uma" impede a crase.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Rodrigo surpreendeu à todos ao entrar todo falante na venda de Nicolau."
A crase é proibida antes de pronome pessoal do caso reto ("todos" é pronome indefinido, mas aqui funciona como pronome pessoal). Não há artigo feminino "a" antes de "todos"; apenas a preposição "a" (se houvesse). O correto seria "a todos". A banca tenta confundir com o verbo "surpreender", que é transitivo direto e não exige preposição, mas o erro está no "à todos".
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Com esse trecho do livro, o autor dá início à histórias de aventura e heroísmo."
A crase é proibida antes de palavra feminina em sentido genérico, sem artigo definido. "Histórias" está no plural, mas sem o artigo "as" (seria "às histórias" se houvesse artigo). O verbo "dar início" exige a preposição "a" (quem dá início, dá início a algo), mas como "histórias" está indeterminado, não há fusão. O correto seria "a histórias". A banca explora a confusão com o plural, mas a ausência de artigo impede a crase.
NÃO CAIA NESSA!
A banca mistura casos de crase obrigatória (locução adverbial) com casos proibidos (antes de verbo, "uma", pronome pessoal, plural genérico). A armadilha clássica é a alternativa C, que parece correta por causa do verbo "chegar" (que pede "a"), mas "uma" bloqueia a crase.
PEGA ESSA DICA!
Para testar a crase, substitua a palavra feminina por uma masculina. Se aparecer "ao", há crase; se aparecer "ao" + artigo, não. Ex.: "trazia às costas" → "trazia ao ombro" (tem crase); "a uma cidadezinha" → "a um povoado" (não tem crase).