Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2019
Português›Interpretação de Textos
Código
vu049149
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de Olímpia - SP
Ano
2019
Nível
Médio
Cargo
Guarda Civil Municipal
Leia o texto, para responder à questão.
Piscina
Era uma esplêndida residência, na Lagoa Rodrigo de
Freitas, cercada de jardins e tendo ao lado uma bela piscina.
Pena que a favela, com seus barracos grotescos se alastrando pela encosta do morro, comprometesse tanto a paisagem.
Diariamente desfilavam diante do portão aquelas mulheres silenciosas e magras, lata d’água na cabeça. De vez em
quando surgia sobre a grade a carinha de uma criança, olhos
grandes e atentos, espiando o jardim. Outras vezes eram as
próprias mulheres que se detinham e ficavam olhando.
Naquela manhã de sábado ele tomava seu gim-tônica no
terraço, e a mulher um banho de sol, estirada de maiô à beira
da piscina, quando perceberam que alguém os observava
pelo portão entreaberto.
Era um ser encardido, cujos molambos em forma de saia
não bastavam para defini-la como mulher. Segurava uma lata
na mão, e estava parada, à espreita, silenciosa como um
bicho. Por um instante as duas mulheres se olharam, separadas pela piscina.
De súbito pareceu à dona da casa que a estranha criatura se esgueirava, portão adentro, sem tirar dela os olhos.
Ergueu-se um pouco, apoiando-se no cotovelo, e viu com
terror que ela se aproximava lentamente: já transpusera o
gramado, atingia a piscina, agachava-se junto à borda de
azulejos, sempre a olhá-la, em desafio, e agora colhia água
com a lata. Depois, sem uma palavra, iniciou uma cautelosa
retirada, meio de lado, equilibrando a lata na cabeça – e em
pouco sumia-se pelo portão.
Lá no terraço o marido, fascinado, viu toda a cena. Não
durou mais de um ou dois minutos, mas lhe pareceu sinistra
como os instantes tensos de silêncio e de paz que antecedem um combate.
Não teve dúvida: na semana seguinte vendeu a casa.
(Fernando Sabino, A mulher do vizinho. Adaptado)
Considerando-se a decisão do proprietário de vender a casa após o acontecimento narrado, é correto afirmar que a frase do primeiro parágrafo – Pena que a favela, com seus barracos grotescos se alastrando pela encosta do morro, comprometesse tanto a paisagem. – expressa, implicitamente,
Ao ponto de vista do narrador, que não compraria uma casa naquele lugar.
Ba confirmação de que se trata de um lugar inadequado para viver.
Cum pensamento preconceituoso que se pode atribuir aos donos da casa.
Da conclusão acertada do narrador de que há muitos bairros cercados de favelas.
Eum julgamento improcedente, haja vista a invasão sofrida.
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GabaritoC — um pensamento preconceituoso que se pode atribuir aos donos da casa.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
A frase "Pena que a favela..." e o ponto de vista dos donos da casa
Gabarito: letra C. A frase do primeiro parágrafo expressa, implicitamente, um pensamento preconceituoso que se pode atribuir aos donos da casa, pois o lamento pela favela que "comprometesse tanto a paisagem" revela uma visão negativa e estereotipada dos moradores, coerente com a decisão final de vender a casa. A pista está na própria construção: o narrador, ao descrever a residência como "esplêndida" e a favela como "grotesca", deixa transparecer o juízo de valor dos proprietários, que enxergam a comunidade como um incômodo estético e social.
A chave de resolução
O comando pede que se identifique o que a frase expressa implicitamente — ou seja, trata-se de uma questão de inferência, não de localização literal. A frase em destaque é:
"Pena que a favela, com seus barracos grotescos se alastrando pela encosta do morro, comprometesse tanto a paisagem."
O termo "Pena que" marca um lamento, e o adjetivo "grotescos" carrega uma avaliação depreciativa. Esse lamento não é neutro: ele revela a perspectiva de quem se incomoda com a presença da favela, ou seja, dos donos da casa. A decisão final de vender a casa — "Não teve dúvida: na semana seguinte vendeu a casa" — confirma que o incômodo com a vizinhança (e com a invasão simbólica da mulher que colhe água) foi decisivo. Assim, a frase inicial já antecipa o preconceito que motiva a venda.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a frase expressa "o ponto de vista do narrador, que não compraria uma casa naquele lugar". O texto não diz que o narrador não compraria a casa; o narrador é apenas o contador da história, e a frase reflete a visão dos personagens (os donos). Além disso, não há qualquer informação sobre a opinião pessoal do narrador a respeito de comprar ou não a casa. Erro: extrapolação — acrescenta uma opinião que não está no texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Afirma que a frase confirma "que se trata de um lugar inadequado para viver". O texto não faz essa afirmação genérica; ele mostra apenas o desconforto dos donos com a favela. A palavra "inadequado" é um julgamento absoluto que não está sustentado. Erro: generalização — amplia o alcance da afirmação.
Alternativa C — ✅ Correta
A frase expressa, implicitamente, um pensamento preconceituoso atribuível aos donos da casa. O lamento "Pena que a favela... comprometesse tanto a paisagem" revela a visão dos proprietários, que consideram a favela um elemento que estraga a beleza do local. O adjetivo "grotescos" e a ideia de "comprometer a paisagem" são marcas de um juízo negativo e estereotipado. A decisão de vender a casa, no final, confirma que esse incômodo era dos donos. Correta — a inferência é ancorada no texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Diz que a frase expressa "a conclusão acertada do narrador de que há muitos bairros cercados de favelas". O texto não menciona "muitos bairros" nem faz qualquer afirmação sobre a quantidade de favelas. Erro: extrapolação — introduz informação que não existe no texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Afirma que a frase expressa "um julgamento improcedente, haja vista a invasão sofrida". O texto não classifica o julgamento como "improcedente"; pelo contrário, a narrativa mostra que a invasão (a mulher que colhe água) foi o estopim para a venda, mas não há avaliação de que o julgamento inicial era injusto. Erro: contradiz o texto — inverte o sentido, pois o texto não condena o preconceito, apenas o apresenta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a diferença entre o que está explícito e o que está implícito. A frase "Pena que..." não diz diretamente "os donos são preconceituosos", mas o lamento e o adjetivo "grotescos" deixam isso subentendido. Cuidado para não confundir o ponto de vista do narrador com o dos personagens.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de inferência, procure as marcas linguísticas que revelam a atitude do autor/personagem: adjetivos, advérbios, interjeições ("Pena que"), verbos de opinião. Elas são as pistas para o que está nas entrelinhas.