Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Travessão — VUNESP 2019

PortuguêsTravessão
Código
vu050093
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de Ribeirão Preto - SP
Ano
2019
Nível
Superior
Cargo
Professor de Educação Básica III - História
Os imortais


   De vez em quando, ao olhar para o meu filho – de três anos, quase quatro – pergunto retoricamente qual será a longevidade dele.
    Nascido em 2015, ele pode conhecer o próximo século. Mas se a medicina conseguir conquistar o envelhecimento e a morte – não é esse o santo graal do momento? – será que ele vai conhecer o novo milênio?
      Esse pensamento ganhou forma com um ensaio primoroso de Regina Rini, no “Times Literary Supplement”.
        Escreve a autora: em 1900, um cidadão americano tinha uma média de vida de 47 anos. Em 1950, a meta já estava nos 68.  Em 2057, é possível que o limite seja os 100.
      Agora, imagine o seguinte, caro leitor: a ciência anuncia, ainda durante as nossas vidas, que o envelhecimento e a doença serão revertidos em 2119.
      Sim, esse ano já será demasiado tarde para nós. Aliás, será demasiado tarde até para os nossos filhos.
      Mas não será para os nossos netos. Com essa data imaginária, nós seremos os últimos mortais a partilhar a Terra com os primeiros imortais. Que tipo de convivência teremos com eles? Haverá inveja? Sofrimento? Desespero ante o nosso (injusto) destino?
   O ensaio de Rini é um elegante exercício de especulação filosófica. E a autora termina a sua indagação com um pensamento consolador: se as nossas vidas se justificam pelo legado que deixamos aos outros, então devemos olhar para os primeiros imortais como os felizes depositários desse histórico legado.
      Nós seremos o último elo entre a humanidade perecível e a humanidade eterna.
    A páginas tantas, Rini cita um dos meus filmes favoritos: “Feitiço do Tempo”, uma comédia com Bill Murray. No filme, Murray está preso no tempo, condenado a viver o mesmo dia todos os dias.
     Para Rini, o filme é uma boa metáfora sobre o tédio que pode acometer os imortais e para o qual vários filósofos já nos alertaram: quando estamos condenados a viver eternamente, deixamos de ter urgência para fazer alguma coisa.
     Mas existe uma outra dimensão do filme que a autora ignorou: o personagem de Bill Murray só consegue seguir em frente quando encontra um mínimo de sentido para a sua existência.
    E esse sentido não está no hipotético legado que deixará para os vindouros. Está na forma como vive o seu presente.     Quando isso acontece – quando o personagem encontra um propósito para si próprio e na relação com os outros – ele consegue finalmente quebrar o feitiço e despertar na manhã seguinte. Como diria o neurocientista Viktor Frankl, de que vale ter uma vida de eternidade quando não há razões para vivê-la?
    Da próxima vez que olhar para o meu filho, vou desejar-lhe uma vida longa, sem dúvida. Desde que essa vida seja dotada de sentido.

(João Pereira Coutinho.https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereira-
coutinho/2019/05/os-imortais.shtml. Publicado em 15.05.2019. Adaptado)
Os travessões empregados no segundo e no décimo terceiro parágrafo marcam trechos em que o autor, respectivamente:
  1. Arevela um anseio de cunho pessoal; expõe a causa a que se refere o pronome “isso”.
  2. Bconfere a opinião dos leitores sobre o assunto; especifica o tempo cronológico sinalizado pelo pronome “isso”.
  3. Cexpõe sua convicção nas conquistas científicas; define a ideia veiculada pelo pronome “isso”.
  4. Dexpressa um ponto de vista sobre a sociedade atual; explicita a ideia a que o pronome “isso” faz alusão.
  5. Ecritica a busca desmedida pela juventude eterna; retifica ideia retomada pelo pronome “isso”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — expressa um ponto de vista sobre a sociedade atual; explicita a ideia a que o pronome “isso” faz alusão.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função dos travessões e referência do pronome "isso"

Gabarito: letra D. No segundo parágrafo, os travessões isolam a pergunta retórica "não é esse o santo graal do momento?", que expressa um ponto de vista do autor sobre a sociedade atual (a busca científica pela imortalidade como objetivo central). No décimo terceiro parágrafo, os travessões isolam "quando o personagem encontra um propósito para si próprio e na relação com os outros", trecho que explicita a ideia a que o pronome "isso" faz alusão — o momento em que o personagem encontra sentido para a existência. A alternativa D é a única que combina corretamente as duas funções.

Análise dos travessões

Segundo parágrafo:

"Mas se a medicina conseguir conquistar o envelhecimento e a morte – não é esse o santo graal do momento? – será que ele vai conhecer o novo milênio?"

Os travessões intercalam uma pergunta retórica do autor. Ele não está apenas revelando um anseio pessoal (A), nem conferindo opinião dos leitores (B), nem expondo convicção nas conquistas científicas (C) — ele questiona ironicamente se vencer a morte é o grande objetivo da sociedade atual. É um ponto de vista sobre o que move a ciência contemporânea.

Décimo terceiro parágrafo:

"Quando isso acontece – quando o personagem encontra um propósito para si próprio e na relação com os outros – ele consegue finalmente quebrar o feitiço..."

O pronome "isso" retoma a ideia anterior: "o personagem de Bill Murray só consegue seguir em frente quando encontra um mínimo de sentido para a sua existência". Os travessões explicitam essa ideia, detalhando o que significa "encontrar um propósito". A alternativa D capta exatamente essa função: explicitar a ideia a que o pronome alude.

Alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

Revela um anseio de cunho pessoal; expõe a causa a que se refere o pronome "isso".

No segundo parágrafo, a pergunta intercalada não é um anseio pessoal, mas uma crítica/reflexão sobre a sociedade. No décimo terceiro, os travessões não expõem a causa do "isso", e sim o conteúdo (a ideia) a que ele se refere. Erro: troca de conceito (causa × conteúdo).

Alternativa B — ❌ Incorreta

Confere a opinião dos leitores sobre o assunto; especifica o tempo cronológico sinalizado pelo pronome "isso".

O autor não confere opinião dos leitores — a pergunta é dele. E "isso" não sinaliza tempo cronológico, mas uma ação/estado (encontrar propósito). Erro: extrapolação e troca de referente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Expõe sua convicção nas conquistas científicas; define a ideia veiculada pelo pronome "isso".

O autor não demonstra convicção nas conquistas científicas; ele as questiona ("será que ele vai conhecer o novo milênio?"). A segunda parte até se aproxima, mas "define" é menos preciso que "explicita". Erro: contradiz o texto na primeira parte.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Expressa um ponto de vista sobre a sociedade atual; explicita a ideia a que o pronome "isso" faz alusão.

Como provado acima, a pergunta retórica do segundo parágrafo é um ponto de vista do autor sobre a obsessão atual pela imortalidade. No décimo terceiro, os travessões explicitam o que "isso" significa: encontrar propósito na vida e nas relações. Perfeita paráfrase das duas funções.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Critica a busca desmedida pela juventude eterna; retifica ideia retomada pelo pronome "isso".

O texto não fala em "juventude eterna", mas em superar o envelhecimento e a morte — conceito diferente. E os travessões não retificam (corrigem) a ideia; eles a explicitam. Erro: troca de termo e fuga ao tema.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca "explicitar" por "retificar" (E) e "ponto de vista" por "convicção" (C) — palavras que parecem sinônimas, mas mudam o sentido. Grife o que os travessões realmente fazem: isolam uma pergunta retórica e detalham o referente de "isso".

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar travessões, retire o trecho intercalado e veja se a frase continua coerente. Depois, pergunte: "o que o pronome retoma?" — a resposta está sempre no texto, nunca fora dele.

Gabarito: letra D.

Link permanente: /questoes/vu050093