Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2019

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu050728
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de São José dos Campos - SP
Ano
2019
Nível
Médio
Cargo
Fiscal de Postura e Ética Urbana

Um pouco de gentileza

    Pessoas bem educadas pedem “por favor”. A ideia prática por trás da polidez sempre foi esta: se você pede com bons modos, tem mais chance de conseguir o que quer. Funcionava.

    Em algum momento, que não consigo localizar no tempo exato da minha vivência, mas calculo que tenha sido pela metade dos anos 1960, o desrespeito, e logo a grosseria, e daí a pouco a arrogância, e já, já a truculência, contrabandeados para a vida civil e aprendidos em culturas de fora, instalaram-se nos modos do morador civilizado das nossas cidades, aquele que dava lugar no bonde às senhoras e aos mais velhos, dizia “bom dia” aos que passavam, pedia licença, não economizava o “por favor”, deixava entrar primeiro as damas, abria a porta do carro para a namorada, e tantas gentilezas extintas ou em extinção.

    Noto, circulando pela cidade, que há sinais de amabilidade por aí, uma cordialidade escrita. Pedidos e avisos delicados, dirigidos aos cidadãos passantes. Pode ser uma retomada, por que não?

    Uma placa bem no centro do muro do estacionamento de uma farmácia na Pompeia: “Este estabelecimento cuida da sua saúde, portanto o aspecto de limpeza é muito importante. Por favor, não piche. Contamos com a sua colaboração”. O muro tem estado limpo de rabiscos nestes dois anos em que venho andando por lá a caminho da hidroginástica.

    Há quem junte humor e ironia ao pedido, sem perder a delicadeza. Em uma aréola na Pompeia (Sabem o que é uma aréola? Pois aprendi que o pequeno ajardinado que circula o pé das árvores nas calçadas se chama aréola. Quem terá posto nome tão delicado quanto apropriado ao jardinzinho?), então, eu dizia, em uma aréola na Pompeia, encontro fincada uma plaquinha com os dizeres: “Senhor Cão, favor não fazer suas necessidades neste local”.

    Bem perto dali, em um ajardinado que contorna um poste, fincaram um repique* com nova dose de humor: “Senhor Cão, favor não deixar seu dono fazer xixi aqui”.

    Quem mora perto de boteco, sabe que não é fácil a convivência. Reclamações resultam inúteis. Quando a iniciativa de serenar os alegrados fregueses parte dos donos, e num tom amável, o resultado é melhor. Está dando certo em um boteco de Belo Horizonte, onde se lê: “Pedimos a colaboração dos frequentadores quanto às palmas, à cantoria etc. para não termos problemas com a vizinhança”.

    Em um posto de gasolina no Pari: “Senhor ladrão, favor passar outra hora. Seu colega já levou tudo”. Será que adianta? Até quem tem mais de 100 anos e boa memória se lembra do aviso nas casas do pequeno comércio de bairro: “Fiado, só amanhã”. Achávamos graça nessa habilidade com as palavras.

    Até nas estradas, lugar de bravatas e desafios, encontro pacíficos. Em um automóvel em Itaboraí, no Rio de Janeiro: “Calma... Eu sou 1000 e ando a gás...”.

(http://vejasp.abril.com.br/materia/ivan-angelo-um-pouco-degentileza-cronica. Publicado em 12.02.2016. Adaptado)

*repique: advertência, aviso

No quinto parágrafo, ao afirmar “então, eu dizia”, o autor
  1. Ademonstra hesitação ao relatar os fatos.
  2. Besclarece o duplo sentido do termo “aréola”.
  3. Cretifica sua opinião a respeito dos jardins.
  4. Dretoma ideia iniciada anteriormente.
  5. Eressalta a ironia presente nas mensagens.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — retoma ideia iniciada anteriormente.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função coesiva de “então, eu dizia” no quinto parágrafo

Gabarito: letra D. Ao escrever “então, eu dizia”, o autor retoma a ideia iniciada anteriormente — a expressão funciona como um mecanismo de coesão referencial que interrompe a digressão sobre o significado de “aréola” e retoma o fio do discurso. A prova está no próprio parágrafo: o autor abre com “Há quem junte humor e ironia ao pedido”, depois abre um parêntese explicativo (“Sabem o que é uma aréola?...”), e então usa “então, eu dizia” para voltar ao assunto que estava desenvolvendo — a plaquinha na aréola.

A questão é de compreensão (o comando pede o que o autor faz, e isso está explícito na estrutura do parágrafo). A chave é perceber que “então, eu dizia” é uma fórmula de retomada, típica da oralidade, usada para retomar o fio do discurso após uma interrupção. Vejamos o trecho:

“Há quem junte humor e ironia ao pedido, sem perder a delicadeza. Em uma aréola na Pompeia (Sabem o que é uma aréola? Pois aprendi que o pequeno ajardinado que circula o pé das árvores nas calçadas se chama aréola. Quem terá posto nome tão delicado quanto apropriado ao jardinzinho?), então, eu dizia, em uma aréola na Pompeia, encontro fincada uma plaquinha...”

A expressão “então, eu dizia” aparece depois do parêntese e antes de retomar a frase que havia sido interrompida (“em uma aréola na Pompeia, encontro fincada uma plaquinha”). Ou seja, ela sinaliza a volta ao assunto principal, retomando a ideia que estava sendo desenvolvida antes da digressão.

  1. 1Ideia iniciada
  2. 2Digressão (aréola)
  3. 3Retomada com 'então, eu dizia'
LEVEL · soulevel.com.br

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. O autor não demonstra hesitação; pelo contrário, a expressão “então, eu dizia” é uma marca de segurança e controle do discurso, usada para retomar o que estava dizendo, não para indicar dúvida. Hesitação seria algo como “não sei se...”, “talvez...”, o que não ocorre no trecho.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. O autor explica o que é “aréola” (dá o significado), mas não esclarece um duplo sentido — não há ambiguidade ou jogo de palavras. A alternativa confunde explicação de significado com esclarecimento de ambiguidade.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. O autor não retifica (corrige) uma opinião sobre os jardins; ele apenas elogia o nome “aréola” (“nome tão delicado quanto apropriado”). Não há mudança de posição — há uma digressão apreciativa e depois a retomada do assunto.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. Como demonstrado, “então, eu dizia” retoma a ideia iniciada anteriormente, interrompida pelo parêntese explicativo. A expressão é um mecanismo de coesão referencial que amarra o discurso, garantindo a continuidade do raciocínio. O trecho prova:

“...então, eu dizia, em uma aréola na Pompeia, encontro fincada uma plaquinha...”

A repetição de “em uma aréola na Pompeia” após a expressão confirma a retomada do que estava sendo dito.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: fora do escopo. A expressão “então, eu dizia” não tem função de ressaltar a ironia; ela apenas retoma o fio do discurso. A ironia está presente nas mensagens citadas (como a do “Senhor Cão”), mas não é destacada por essa expressão específica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca mistura funções discursivas diferentes (hesitação, retificação, ironia) para testar se você percebe que “então, eu dizia” é uma fórmula de retomada, típica da oralidade, e não uma marca de dúvida ou correção.

PEGA ESSA DICA!

Ao encontrar expressões como “então, eu dizia”, “como eu falava”, “voltando ao assunto”, pergunte-se: o que veio antes? Se houve uma interrupção (parêntese, digressão), a expressão provavelmente retoma o fio do discurso.

Gabarito: letra D.

Link permanente: /questoes/vu050728