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Questão de Português — Morfologia — VUNESP 2019

PortuguêsMorfologia
Código
vu053632
Banca
VUNESP
Órgão
TJ-SP
Ano
2019
Nível
Superior
Cargo
Administrador Judiciário

                                     Assassinos culturais


      Sou um assassino cultural, e você também é. Sei que é romântico chorar quando uma livraria fecha as portas. Mas convém não abusar do romantismo – e da hipocrisia. Fomos nós que matamos aquela livraria e o crime não nos pesa muito na consciência.

      Falo por mim. Os livros físicos que entram lá em casa são cada vez mais ofertas – de amigos ou editoras.

      Aos 20, quando viajava por territórios estranhos, entrava nas livrarias locais como um faminto na capoeira. Comprava tanto e carregava tanto que desconfio que o meu problema de ciática é, na sua essência, um problema livresco.

      Hoje? Gosto da flânerie*. Mas depois, fotografo as capas com o meu celular antes de regressar para o psicanalista – o famoso dr. Kindle. Culpado? Um pouco. E em minha defesa só posso afirmar que pago pelos meus vícios.

      E quem fala em livrarias, fala em todo o resto. Eu também ajudei a matar a Tower Records e a Virgin Megastore. Havia lá dentro uma bizarria chamada CD – você se lembra?

      Hoje, com alguns aplicativos, tenho uma espécie de discoteca de Alexandria onde, a meu bel-prazer, escuto meus clássicos e descubro novos.

      Se juntarmos ao pacote o iTunes e a Netflix, você percebe por que eu também tenho o sangue dos cinemas e dos blockbusters nas mãos.

      Eis a realidade: vivemos a desmaterialização da cultura. Mas não é apenas a cultura que se desmaterializa e tem deixado as nossas salas e estantes mais vazias. É a nossa relação com ela. Não somos mais proprietários de “coisas”; somos apenas consumidores e, palavra importante, assinantes.

      O livro “Subscribed”, de Tien Tzuo, analisa a situação. É uma reflexão sobre a “economia de assinaturas” que conquista a economia global. Conta o autor que mais de metade das empresas da famosa lista da “Fortune” já não existiam em 2017. O que tinham em comum? O objetivo meritório de vender “coisas” – muitas coisas, para muita gente, como sempre aconteceu desde os primórdios do capitalismo.

      Já as empresas que sobreviveram e as novas que entraram na lista souberam se adaptar à economia digital, vendendo serviços (ou, de forma mais precisa, acessos).

      Claro que na mudança algo se perde. O desaparecimento das livrarias não acredito que seja total no futuro (e ainda bem). Além disso, ler no papel não é o mesmo que ler na tela. Mas o interesse do livro de Tzuo não está apenas nos números; está no retrato de uma nova geração para quem a experiência cultural é mais importante do que a mera posse de objetos.

      Há quem veja aqui um retrocesso, mas também é possível ver um avanço – ou, para sermos bem filosóficos, o triunfo do espírito sobre a matéria. E não será essa, no fim das contas, a vocação mais autêntica da cultura?

          (João Pereira Coutinho. Folha de S.Paulo, 28.08.2018. Adaptado)

* Flânerie: ato de passear, de caminhar sem compromisso.

Considere os trechos do texto.


• Culpado? Um pouco. (4° parágrafo)

• ... discoteca de Alexandria onde, a meu bel-prazer, escuto meus clássicos e descubro novos. (6° parágrafo)


As expressões destacadas apresentam, correta e respectivamente, as circunstâncias adverbiais de:

  1. AIntensidade, como em: Provavelmente ele concordará com a proposta.
    Afirmação, como em: Disse que, de forma alguma, sairia daquela cidade.
  2. BModo, como em: Saiu às pressas para ir ao banco. Intensidade: Percorreu a pé todo o calçadão da praia.
  3. CModo, como em: Viu-se muito requisitado pelos colegas.
    Lugar, como em: Esperou por ele na entrada do restaurante.
  4. DIntensidade, como em: Ela se sentiu bastante envaidecida com o elogio.
    Modo, como em: Agiu com astúcia ao expor seus planos.
  5. EAfirmação, como em: Evidentemente o governo cederá.
    Lugar, como em: Derrubou todos os papéis no chão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Intensidade, como em: Ela se sentiu bastante envaidecida com o elogio. Modo, como em: Agiu com astúcia ao expor seus planos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Circunstâncias adverbiais: intensidade e modo

Gabarito: letra D. Em "Culpado? Um pouco", a expressão "um pouco" é advérbio de intensidade (indica grau/quantidade da culpa); em "a meu bel-prazer", a locução adverbial expressa modo (a maneira como se escuta os clássicos). A alternativa D é a única que classifica corretamente as duas expressões e ainda oferece exemplos equivalentes: "bastante" (intensidade) e "com astúcia" (modo).

A questão é de morfossintaxe: pede que você reconheça a circunstância que o advérbio ou a locução adverbial acrescenta ao verbo. Não há pegadinha de interpretação — o foco é a classificação semântica do adjunto adverbial. Vamos analisar cada trecho e cada alternativa.

Trecho 1: "Culpado? Um pouco."

A palavra "pouco" aqui funciona como advérbio de intensidade, pois modifica o sentido de "culpado" (que, no contexto, funciona como predicativo), indicando grau: não é muito culpado, é um pouco culpado. É o mesmo valor de "bastante", "muito", "demais".

Trecho 2: "... a meu bel-prazer, escuto meus clássicos..."

A locução "a meu bel-prazer" equivale a "com prazer", "ao meu gosto", "como me agrada" — ou seja, expressa a maneira como a ação de escutar é realizada. É advérbio/locução adverbial de modo.

Análise das alternativas

1Intensidade (quanto?)
Muito, pouco, bastante
"Um pouco" (culpado)
2Modo (como?)
Bem, mal, com prazer
"A meu bel-prazer"
3Lugar (onde?)
Aqui, ali, na entrada
4Tempo (quando?)
Hoje, ontem, agora
5Afirmação
Sim, certamente
6Negação
Não, de forma alguma
7Dúvida
Talvez, provavelmente
Advérbio: valor semântico
LEVELsoulevel.com.br
Advérbio: valor semântico: Intensidade (quanto?) (Muito, pouco, bastante, "Um pouco" (culpado)); Modo (como?) (Bem, mal, com prazer, "A meu bel-prazer"); Lugar (onde?) (Aqui, ali, na entrada); Tempo (quando?) (Hoje, ontem, agora); Afirmação (Sim, certamente); Negação (Não, de forma alguma); Dúvida (Talvez, provavelmente)

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erra ao classificar "um pouco" como afirmação. "Um pouco" não afirma nem nega; ele intensifica. O exemplo dado ("Provavelmente ele concordará") é de dúvida, não de intensidade. E "de forma alguma" é locução de negação, não de afirmação. A alternativa mistura tudo.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Acerta ao dizer que "um pouco" é modo? Não — "um pouco" é intensidade, não modo. E "a meu bel-prazer" também não é intensidade; é modo. A alternativa inverte as classificações. O exemplo "Saiu às pressas" é modo (correto para a segunda), mas o primeiro já está errado.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erra ao classificar "um pouco" como modo. "Um pouco" não indica maneira, e sim grau. O exemplo "Viu-se muito requisitado" é de intensidade, não de modo. A segunda parte (lugar) também não corresponde: "a meu bel-prazer" não é lugar.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Classifica corretamente: "um pouco" = intensidade (como "bastante") e "a meu bel-prazer" = modo (como "com astúcia"). Os exemplos são perfeitos: "bastante" intensifica o adjetivo "envaidecida"; "com astúcia" indica a maneira de agir.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erra ao chamar "um pouco" de afirmação. "Um pouco" não afirma nada; é intensidade. E "a meu bel-prazer" não é lugar; é modo. O exemplo "Evidentemente" é de afirmação, mas não corresponde ao trecho.

NÃO CAIA NESSA!

A banca troca as classificações entre as alternativas — oferece "modo" onde é "intensidade" e vice-versa. Decore o valor semântico de cada advérbio: intensidade = grau (muito, pouco, bastante); modo = maneira (bem, mal, com prazer).

PEGA ESSA DICA!

Ao classificar advérbio, pergunte: "o que ele acrescenta ao verbo?" Se responde "quanto?" → intensidade; se responde "como?" → modo; se responde "onde?" → lugar; se responde "quando?" → tempo.

Gabarito: letra D — a única que acerta as duas classificações.

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