Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2019

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu053636
Banca
VUNESP
Órgão
TJ-SP
Ano
2019
Nível
Superior
Cargo
Administrador Judiciário

                                     Assassinos culturais


      Sou um assassino cultural, e você também é. Sei que é romântico chorar quando uma livraria fecha as portas. Mas convém não abusar do romantismo – e da hipocrisia. Fomos nós que matamos aquela livraria e o crime não nos pesa muito na consciência.

      Falo por mim. Os livros físicos que entram lá em casa são cada vez mais ofertas – de amigos ou editoras.

      Aos 20, quando viajava por territórios estranhos, entrava nas livrarias locais como um faminto na capoeira. Comprava tanto e carregava tanto que desconfio que o meu problema de ciática é, na sua essência, um problema livresco.

      Hoje? Gosto da flânerie*. Mas depois, fotografo as capas com o meu celular antes de regressar para o psicanalista – o famoso dr. Kindle. Culpado? Um pouco. E em minha defesa só posso afirmar que pago pelos meus vícios.

      E quem fala em livrarias, fala em todo o resto. Eu também ajudei a matar a Tower Records e a Virgin Megastore. Havia lá dentro uma bizarria chamada CD – você se lembra?

      Hoje, com alguns aplicativos, tenho uma espécie de discoteca de Alexandria onde, a meu bel-prazer, escuto meus clássicos e descubro novos.

      Se juntarmos ao pacote o iTunes e a Netflix, você percebe por que eu também tenho o sangue dos cinemas e dos blockbusters nas mãos.

      Eis a realidade: vivemos a desmaterialização da cultura. Mas não é apenas a cultura que se desmaterializa e tem deixado as nossas salas e estantes mais vazias. É a nossa relação com ela. Não somos mais proprietários de “coisas”; somos apenas consumidores e, palavra importante, assinantes.

      O livro “Subscribed”, de Tien Tzuo, analisa a situação. É uma reflexão sobre a “economia de assinaturas” que conquista a economia global. Conta o autor que mais de metade das empresas da famosa lista da “Fortune” já não existiam em 2017. O que tinham em comum? O objetivo meritório de vender “coisas” – muitas coisas, para muita gente, como sempre aconteceu desde os primórdios do capitalismo.

      Já as empresas que sobreviveram e as novas que entraram na lista souberam se adaptar à economia digital, vendendo serviços (ou, de forma mais precisa, acessos).

      Claro que na mudança algo se perde. O desaparecimento das livrarias não acredito que seja total no futuro (e ainda bem). Além disso, ler no papel não é o mesmo que ler na tela. Mas o interesse do livro de Tzuo não está apenas nos números; está no retrato de uma nova geração para quem a experiência cultural é mais importante do que a mera posse de objetos.

      Há quem veja aqui um retrocesso, mas também é possível ver um avanço – ou, para sermos bem filosóficos, o triunfo do espírito sobre a matéria. E não será essa, no fim das contas, a vocação mais autêntica da cultura?

          (João Pereira Coutinho. Folha de S.Paulo, 28.08.2018. Adaptado)

* Flânerie: ato de passear, de caminhar sem compromisso.

No texto, é correto afirmar que o autor
  1. Adirige-se aos interlocutores para envolvê-los nas reflexões acerca da desmaterialização da cultura.
  2. Blimita-se a descrever a própria experiência como consumidor, não dando voz a pareceres alheios.
  3. Cemprega linguagem sentimentalista e prolixa para justificar seu papel de assassino cultural.
  4. Drecorre a informações acadêmicas para comprovar o avanço do materialismo em nossa sociedade.
  5. Eformula uma série de questionamentos para os quais ainda não encontrou qualquer explicação plausível.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — dirige-se aos interlocutores para envolvê-los nas reflexões acerca da desmaterialização da cultura.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Desmaterialização da cultura e o diálogo com o leitor

Gabarito: letra A. O autor dirige-se aos interlocutores desde a primeira linha — "Sou um assassino cultural, e você também é" — e mantém esse diálogo ao longo do texto, envolvendo o leitor nas reflexões sobre a desmaterialização da cultura. A alternativa A é a única que capta essa estratégia discursiva, confirmada também na passagem "E quem fala em livrarias, fala em todo o resto" e na pergunta retórica final: "não será essa, no fim das contas, a vocação mais autêntica da cultura?".

A questão pede uma compreensão global do texto: identificar o que o autor faz, não apenas o que ele diz. O comando "é correto afirmar que o autor" exige que você observe a estratégia argumentativa — e a marca mais evidente é o uso da segunda pessoa do plural e de perguntas dirigidas ao leitor.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O texto abre com uma interpelação direta: "Sou um assassino cultural, e você também é". O pronome "você" estabelece um diálogo imediato com o interlocutor. Esse recurso se repete em "você percebe por que eu também tenho o sangue dos cinemas e dos blockbusters nas mãos" e na pergunta final, que convida o leitor a refletir junto: "E não será essa, no fim das contas, a vocação mais autêntica da cultura?".

A tese central — a desmaterialização da cultura — é apresentada de forma explícita: "Eis a realidade: vivemos a desmaterialização da cultura". O autor não apenas descreve sua experiência pessoal; ele a usa como ponto de partida para uma reflexão que inclui o leitor, tanto pelo pronome "você" quanto pelas perguntas retóricas. A alternativa A é uma paráfrase fiel dessa estratégia.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A afirmação de que o autor "limita-se a descrever a própria experiência" contradiz o texto. O autor não se limita: ele cita o livro "Subscribed", de Tien Tzuo, e analisa seus dados — "mais de metade das empresas da famosa lista da 'Fortune' já não existiam em 2017" —, dando voz a um parecer alheio. Além disso, a interpelação ao leitor ("você também é") já mostra que o texto não é uma descrição isolada, mas um convite à reflexão conjunta.

Erro: contradiz o texto (o autor não se limita; ele dialoga e cita fontes).

Alternativa C — ❌ Incorreta

O texto não é "sentimentalista e prolixo". O tom é irônico e autocrítico, mas contido: "Sei que é romântico chorar quando uma livraria fecha as portas. Mas convém não abusar do romantismo – e da hipocrisia". A linguagem é direta, com frases curtas e coloquiais ("Falo por mim", "Culpado? Um pouco"). Não há prolixidade — o texto é enxuto e objetivo. A alternativa acrescenta uma opinião ("sentimentalista e prolixa") que não corresponde ao estilo do autor.

Erro: acrescenta opinião/juízo de valor não sustentado pelo texto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

O autor recorre ao livro de Tien Tzuo, mas isso não é "informação acadêmica" — é uma obra de análise de mercado, citada de forma jornalística. Além disso, o texto não defende o "avanço do materialismo"; ao contrário, celebra a passagem da posse de objetos para a experiência: "o triunfo do espírito sobre a matéria". A alternativa inverte a tese do texto.

Erro: contradiz o texto (o autor vê avanço, não materialismo) e extrapola (chama de "acadêmica" uma fonte que não é).

Alternativa E — ❌ Incorreta

O autor formula perguntas, mas elas são retóricas — têm resposta implícita. A pergunta final "não será essa, no fim das contas, a vocação mais autêntica da cultura?" é claramente afirmativa em sua intenção. O texto apresenta explicações plausíveis ao longo de toda a argumentação (a economia de assinaturas, a mudança de relação com a cultura). A alternativa restringe o alcance do texto, transformando perguntas retóricas em dúvidas reais.

Erro: restringe/interpreta mal a função das perguntas retóricas.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre pergunta retórica (que já traz a resposta embutida) e dúvida genuína. No texto, as perguntas são estratégia de envolvimento, não sinal de incerteza.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler o comando "é correto afirmar que o autor", procure a estratégia discursiva — como ele se dirige ao leitor, que recursos usa. Marque os pronomes de segunda pessoa e as perguntas: eles são pistas fortes de diálogo.

Gabarito: letra A — a única que descreve com precisão a estratégia do autor de envolver o interlocutor na reflexão sobre a desmaterialização da cultura.

Link permanente: /questoes/vu053636