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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2019

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu053637
Banca
VUNESP
Órgão
TJ-SP
Ano
2019
Nível
Superior
Cargo
Administrador Judiciário

                                     Assassinos culturais


      Sou um assassino cultural, e você também é. Sei que é romântico chorar quando uma livraria fecha as portas. Mas convém não abusar do romantismo – e da hipocrisia. Fomos nós que matamos aquela livraria e o crime não nos pesa muito na consciência.

      Falo por mim. Os livros físicos que entram lá em casa são cada vez mais ofertas – de amigos ou editoras.

      Aos 20, quando viajava por territórios estranhos, entrava nas livrarias locais como um faminto na capoeira. Comprava tanto e carregava tanto que desconfio que o meu problema de ciática é, na sua essência, um problema livresco.

      Hoje? Gosto da flânerie*. Mas depois, fotografo as capas com o meu celular antes de regressar para o psicanalista – o famoso dr. Kindle. Culpado? Um pouco. E em minha defesa só posso afirmar que pago pelos meus vícios.

      E quem fala em livrarias, fala em todo o resto. Eu também ajudei a matar a Tower Records e a Virgin Megastore. Havia lá dentro uma bizarria chamada CD – você se lembra?

      Hoje, com alguns aplicativos, tenho uma espécie de discoteca de Alexandria onde, a meu bel-prazer, escuto meus clássicos e descubro novos.

      Se juntarmos ao pacote o iTunes e a Netflix, você percebe por que eu também tenho o sangue dos cinemas e dos blockbusters nas mãos.

      Eis a realidade: vivemos a desmaterialização da cultura. Mas não é apenas a cultura que se desmaterializa e tem deixado as nossas salas e estantes mais vazias. É a nossa relação com ela. Não somos mais proprietários de “coisas”; somos apenas consumidores e, palavra importante, assinantes.

      O livro “Subscribed”, de Tien Tzuo, analisa a situação. É uma reflexão sobre a “economia de assinaturas” que conquista a economia global. Conta o autor que mais de metade das empresas da famosa lista da “Fortune” já não existiam em 2017. O que tinham em comum? O objetivo meritório de vender “coisas” – muitas coisas, para muita gente, como sempre aconteceu desde os primórdios do capitalismo.

      Já as empresas que sobreviveram e as novas que entraram na lista souberam se adaptar à economia digital, vendendo serviços (ou, de forma mais precisa, acessos).

      Claro que na mudança algo se perde. O desaparecimento das livrarias não acredito que seja total no futuro (e ainda bem). Além disso, ler no papel não é o mesmo que ler na tela. Mas o interesse do livro de Tzuo não está apenas nos números; está no retrato de uma nova geração para quem a experiência cultural é mais importante do que a mera posse de objetos.

      Há quem veja aqui um retrocesso, mas também é possível ver um avanço – ou, para sermos bem filosóficos, o triunfo do espírito sobre a matéria. E não será essa, no fim das contas, a vocação mais autêntica da cultura?

          (João Pereira Coutinho. Folha de S.Paulo, 28.08.2018. Adaptado)

* Flânerie: ato de passear, de caminhar sem compromisso.

Na frase do terceiro parágrafo – Comprava tanto e carregava tanto que desconfio que o meu problema de ciática é, na sua essência, um problema livresco. –, o autor
  1. Afaz uma suposição e cita uma consequência.
  2. Bexpressa uma crítica e analisa uma contradição.
  3. Cexpõe uma convicção e faz uma reiteração.
  4. Dlevanta uma hipótese e ressalta uma concessão.
  5. Edesfaz um equívoco e apresenta uma conclusão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — faz uma suposição e cita uma consequência.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A relação de causa e consequência na frase do autor

Gabarito: letra A. Na frase do terceiro parágrafo, o autor faz uma suposição (desconfia que a ciática tem origem livresca) e cita uma consequência (o excesso de compras e carregamento de livros). A pista está na estrutura "Comprava tanto e carregava tanto que...": o "tanto... que" estabelece uma relação de causa e consequência — a causa é o excesso de livros, a consequência é o problema de ciática.

A chave de resolução

O comando pede que você identifique o que o autor faz na frase — ou seja, a relação lógica que a estrutura sintática estabelece. Para isso, é preciso reconhecer o valor do conectivo "que" após "tanto".

"Comprava tanto e carregava tanto que desconfio que o meu problema de ciática é, na sua essência, um problema livresco."

A construção "tanto... que" é uma oração subordinada adverbial consecutiva: a primeira parte (comprar/carregar muito) é a causa; a segunda (ciática) é a consequência. O autor não afirma com certeza — ele usa o verbo "desconfio", que expressa suposição/hipótese, não convicção.

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa A capta exatamente os dois movimentos da frase:

  • Suposição: "desconfio que o meu problema de ciática é..." — o verbo "desconfiar" indica uma hipótese, não uma certeza.

  • Consequência: "Comprava tanto e carregava tanto que..." — o "que" introduz o efeito do excesso de compras.

A relação é de causa e consequência, e a alternativa nomeia corretamente esses dois elementos.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A frase não expressa crítica nem contradição. O autor está apenas relatando um hábito passado e sua possível consequência física. Não há juízo de valor negativo nem oposição de ideias. A palavra "crítica" e "contradição" são extrapolações — não há pista no texto que as sustente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. O autor não expõe uma convicção — ele usa "desconfio", que é o oposto de convicção (certeza). Também não há reiteração (repetição de uma ideia). A alternativa C inverte o sentido: onde há dúvida, ela afirma certeza.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A primeira parte até poderia ser "hipótese" (sinônimo de suposição), mas a segunda parte está errada: não há concessão (ideia de "embora", "apesar de"). A relação é de consequência, não de concessão. A concessão seria algo como "embora comprasse muito, não tinha ciática" — o que não ocorre.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. O autor não desfaz um equívoco (não está corrigindo um erro de interpretação) nem apresenta uma conclusão (a frase não é um fechamento de raciocínio, mas uma constatação dentro de uma narrativa). A alternativa E atribui à frase uma função que ela não tem.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre relações semânticas próximas: "consequência" (A) × "concessão" (D) × "conclusão" (E). A diferença está no conectivo: "tanto... que" é consecutivo; "embora" seria concessivo; "portanto" seria conclusivo.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a relação entre orações, pergunte: "o que o conectivo faz?" Se a segunda oração é o efeito da primeira, é consequência. Se é uma ressalva, é concessão. Se é um fechamento, é conclusão.

Gabarito: letra A.

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