Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2019

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu053725
Banca
VUNESP
Órgão
TJ-SP
Ano
2019
Nível
Superior
Cargo
Contador Judiciário

                                       Carta-Poema


                                Excelentíssimo Prefeito

                                Senhor Hildebrando de Góis,

                                Permiti que, rendido o preito

                                A que faz jus por quem sois,


                                Um poeta já sexagenário,

                                Que não tem outra aspiração

                                Senão viver de seu salário

                                Na sua limpa solidão,


                                 Peça vistoria e visita

                                 A este pátio para onde dá

                                 O apartamento que ele habita

                                 No Castelo há dois anos já.


                                  É um pátio, mas é via pública,

                                  E estando ainda por calçar,

                                  Faz a vergonha da República

                                  Junto à Avenida Beira-Mar!


                                   Indiferentes ao capricho

                                   Das posturas municipais,

                                   A ele jogam todo o seu lixo

                                   Os moradores sem quintais.

      (Manuel Bandeira, As cidades e as musas. Org. Antonio Carlos Secchin)

Ao dirigir-se ao Prefeito, o eu lírico o faz com
  1. Acontrolada submissão, como sugerem os versos “Faz a vergonha da República / Junto à Avenida Beira-Mar!”
  2. Bexplícita ofensa, como sugerem os versos “Excelentíssimo Prefeito / Senhor Hildebrando de Góis”.
  3. Cevidente descaso, como sugerem os versos “Indiferentes ao capricho / Das posturas municipais”.
  4. Drespaldo da alegria, como sugerem os versos “Senão viver de seu salário / Na sua limpa solidão”.
  5. Esuposto respeito, como sugerem os versos “Permiti que, rendido o preito / A que faz jus por quem sois”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — suposto respeito, como sugerem os versos “Permiti que, rendido o preito / A que faz jus por quem sois”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A ironia na carta-poema de Manuel Bandeira

Gabarito: letra E. O eu lírico se dirige ao Prefeito com suposto respeito, pois as fórmulas de cortesia — "Excelentíssimo Prefeito", "rendido o preito" — são usadas de forma irônica: a reverência aparente contrasta com a crítica dura que o poema faz à administração pública. A passagem que ancora essa leitura é o verso "Permiti que, rendido o preito / A que faz jus por quem sois", em que o eu lírico se declara submisso, mas o conteúdo do poema — a denúncia do pátio sujo e da vergonha da República — revela que essa submissão é apenas aparente.

A questão pede compreensão (o que o texto afirma), mas exige perceber o tom irônico que perpassa toda a carta. O eu lírico não é realmente submisso; ele usa a linguagem cerimoniosa para criticar o Prefeito. A alternativa E é a única que capta essa dualidade: o respeito é suposto, não real.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o eu lírico demonstra "controlada submissão", citando os versos "Faz a vergonha da República / Junto à Avenida Beira-Mar!". Esses versos, porém, expressam crítica e indignação, não submissão. A expressão "vergonha da República" é uma acusação forte, incompatível com qualquer atitude de submissão. A alternativa contradiz o texto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa diz que há "explícita ofensa" nos versos "Excelentíssimo Prefeito / Senhor Hildebrando de Góis". Esses versos são fórmulas de cortesia, não ofensas. A ofensa, se houver, está na crítica indireta, não nesses vocábulos. A alternativa troca o sentido das palavras: toma a ironia como ofensa direta.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que há "evidente descaso" nos versos "Indiferentes ao capricho / Das posturas municipais". Esses versos descrevem a atitude dos moradores que jogam lixo no pátio, não a atitude do eu lírico em relação ao Prefeito. A alternativa extrapola o texto: atribui ao eu lírico um sentimento que não está expresso nesses versos.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa diz que o eu lírico se dirige ao Prefeito com "respaldo da alegria", citando "Senão viver de seu salário / Na sua limpa solidão". Esses versos expressam modéstia e desejo de tranquilidade, não alegria. A alternativa acrescenta opinião que não está no texto: o eu lírico não demonstra alegria, apenas descreve sua condição simples.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa E é a correta porque capta a ironia do poema. O eu lírico usa fórmulas de respeito — "Permiti que, rendido o preito / A que faz jus por quem sois" — mas o conteúdo do poema é uma crítica severa ao Prefeito. O respeito é suposto, ou seja, aparente, não real. A passagem citada é a prova: "rendido o preito" (preito = homenagem, reverência) é uma expressão de cortesia exagerada, que contrasta com a denúncia do pátio sujo e da "vergonha da República".

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a ironia: o eu lírico usa fórmulas de respeito (Excelentíssimo, rendido o preito) para, na verdade, fazer uma crítica contundente. A alternativa correta capta essa contradição entre a forma respeitosa e a intenção crítica.

PEGA ESSA DICA!

Ao ler um texto, identifique o tom (irônico, crítico, elogioso) antes de responder. Palavras como "Excelentíssimo" e "rendido o preito" podem ser irônicas se o contexto for de crítica. Pergunte-se: o autor realmente sente o que diz, ou está usando a linguagem para criticar?

Gabarito: letra E — a única que reconhece a ironia do eu lírico, que se dirige ao Prefeito com suposto respeito.

Link permanente: /questoes/vu053725