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Questão de Português — Noções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto — VUNESP 2019

PortuguêsNoções Gerais de Compreensão e Interpretação de Texto
Código
vu056218
Banca
VUNESP
Órgão
Prefeitura de Francisco Morato - SP
Ano
2019
Nível
Superior

      Há povos que gostam de apelidos. Brasileiros, hispanos e norte-americanos estão entre os principais. Quase ninguém imagina que Bill Clinton seja, na verdade, William Jefferson Clinton. Difícil supor que um Pepe mexicano seja José e um Pancho tivesse chegado ao batistério como Francisco. Bem, qual estrangeiro suporá Chico como apelido de Francisco? Em eras pré-politicamente corretas, abundavam os “japas”, os “chinas”, os “gordos” e os “carecas”. Hoje, tudo implica risco.

      Além do apelido, existem apostos que qualificam mais do que uma simples alcunha. Por vezes, são qualificativos positivos: Alexandre, o Grande; Luís XIV, o Rei-Sol; Luís XV, o Bem-Amado; e, no campo republicano, Simon Bolívar, o Libertador. Podem ser eufemismos para defeitos, como a indecisão crônica de Filipe II da Espanha. A história oficial o registra como Filipe, “o Prudente”. Há as diferenças nacionais. A única rainha do Antigo Regime português é conhecida na terrinha como D. Maria I, a Pia. No Brasil, por vários motivos, ela é “a Louca”.

      Os qualificativos para famosos são uma maneira de defesa dos fracos. Não posso derrubar presidente, não tenho a fama de um craque, não tenho o dinheiro de fulano: tasco-lhe um apelido como a vingança do bagre diante do hipopótamo. Rio um pouco, divulgo diante do meu limitado grupo igualmente ressentido e me sinto vingado. Apelidar de forma negativa é, quase sempre, reconhecer minha inferioridade.

      Fazer graça com a característica alheia pode revelar o mico interno de cada um de nós. Nosso macaquinho é inferior aos grandes símios. Em choques, apenas temos a possibilidade de subir rapidamente em galhos mais finos do que os rivais poderosos poderiam. Escalar e gritar: orangotango bobo, gorila vacilão, chimpanzé flácido! Lá de cima, protegido pela nossa fraqueza-força, rimos do maior. Apelidar é defender-se e tentar, ao menos na fala, vencer quem parece superior a nossas forças. Classificar o outro de tonto traz alívio; por exclusão, eu não sou.

(Leandro Karnal, O nome que eu desejo e o apelido que eu tenho. O Estado de S. Paulo, 03 de julho de 2019. Adaptado)

Do ponto de vista do autor, a propensão a apelidar com expressões pejorativas
  1. Arepresenta um momento de vingança efetiva contra poderosos, tentando reverter a impotência para revidar um dano sofrido.
  2. Bexpressa a incapacidade de lidar com condições adversas, que façam sobressair sentimentos mais nobres.
  3. Cconstitui, no fundo, uma espécie de represália, que demonstra ressentimento e disfarça um sentimento de inferioridade.
  4. Dtraduz a busca por um momento de superação de barreiras, reforçando a sensação de injustiça.
  5. Esintetiza vários sentimentos contraditórios do indivíduo que se sente ameaçado pelo poder e pelo sucesso alheio.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — constitui, no fundo, uma espécie de represália, que demonstra ressentimento e disfarça um sentimento de inferioridade.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A propensão a apelidar com expressões pejorativas: represália e ressentimento

Gabarito: letra C. A alternativa C é a única que sintetiza fielmente a tese do autor: apelidar de forma pejorativa é uma espécie de represália que demonstra ressentimento e disfarça um sentimento de inferioridade. Essa leitura está ancorada no 2º parágrafo, quando o autor afirma que os qualificativos negativos são "uma maneira de defesa dos fracos" e que "Apelidar de forma negativa é, quase sempre, reconhecer minha inferioridade". A questão é de interpretação (o enunciado pede "do ponto de vista do autor"), mas a resposta é uma paráfrase de ideias explicitamente defendidas no texto.

O texto de Leandro Karnal desenvolve uma tese central: o apelido pejorativo é uma arma dos fracos contra os poderosos. No 2º parágrafo, o autor explica o mecanismo psicológico: quem não pode "derrubar presidente", não tem "a fama de um craque" nem "o dinheiro de fulano", "tasco-lhe um apelido como a vingança do bagre diante do hipopótamo". A imagem é clara: o apelido é uma vingança simbólica, não efetiva. No 3º parágrafo, ele reforça: "Apelidar é defender-se e tentar, ao menos na fala, vencer quem parece superior a nossas forças". Ou seja, a represália ocorre apenas no plano da fala, e o sentimento subjacente é a inferioridade — não a superação real.

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o apelido é uma "vingança efetiva contra poderosos". O texto, porém, diz o contrário: a vingança é simbólica, limitada à fala. O autor escreve: "tento, ao menos na fala, vencer quem parece superior a nossas forças". A palavra "efetiva" extrapola o texto, que insiste na impotência real do apelidador. Além disso, o texto não menciona "revidar um dano sofrido" — o apelido não é resposta a uma agressão específica, mas a uma superioridade percebida. Erro: extrapolação.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "incapacidade de lidar com condições adversas" e em "sentimentos mais nobres". Nada disso está no texto. O autor não discute nobreza de sentimentos nem condições adversas; ele explica o apelido como defesa psicológica diante da inferioridade. A expressão "sentimentos mais nobres" é um acréscimo de opinião — um juízo de valor que o autor não emite. Erro: acrescentar opinião (e tangenciar o tema).

Alternativa C — ✅ Correta

A alternativa C é a paráfrase exata da tese do autor. Vejamos os três elementos:

  • "espécie de represália" → o texto fala em "vingança do bagre diante do hipopótamo" e "defender-se";

  • "demonstra ressentimento" → o autor diz: "Rio um pouco, divulgo diante do meu limitado grupo igualmente ressentido e me sinto vingado";

  • "disfarça um sentimento de inferioridade" → "Apelidar de forma negativa é, quase sempre, reconhecer minha inferioridade".

A alternativa não acrescenta nem suprime nada: é uma reescritura fiel das ideias centrais do 2º parágrafo. Gabarito.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "superação de barreiras" e "reforçando a sensação de injustiça". O texto não menciona barreiras nem injustiça. O autor diz que o apelido é uma "fraqueza-força" — uma tentativa de vencer "ao menos na fala" —, mas isso não equivale a "superação de barreiras". A palavra "superação" extrapola o sentido de "defesa" e "vingança simbólica". Além disso, "sensação de injustiça" é uma ideia fora do texto: o autor fala em inferioridade, não em injustiça. Erro: extrapolação e fuga ao tema.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa fala em "sentimentos contraditórios" e "ameaçado pelo poder e pelo sucesso alheio". O texto não menciona contradição de sentimentos nem a palavra "ameaça". O autor descreve um mecanismo único: o apelido como defesa contra a inferioridade. A ideia de "sentimentos contraditórios" é uma inferência não autorizada — o texto não sugere ambiguidade emocional. Além disso, "poder e sucesso alheio" é uma generalização que não está no texto (o autor cita presidente, craque e rico, mas como exemplos de superioridade, não como ameaça). Erro: extrapolação e generalização.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com palavras sedutoras: "vingança efetiva" (A), "superação" (D), "sentimentos contraditórios" (E). Todas parecem plausíveis, mas o texto é explícito: a vingança é "ao menos na fala" e o sentimento é de inferioridade, não de injustiça ou contradição.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de interpretação, grife as palavras absolutas ("efetiva", "sempre", "apenas") e compare com o texto. Se a alternativa diz mais do que o texto, é extrapolação. A correta é sempre a que parafraseia sem exceder.

Gabarito: letra C.

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