Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2019
Português›Interpretação de Textos
Código
vu056922
Banca
VUNESP
Órgão
UFABC
Ano
2019
Nível
Superior
Organograma
Dizem que em matéria de organização aquele Ministério
é de amargar. De vez em quando um processo cai no vazio
e desaparece para nunca mais. Por quê? Porque o único Ministro que se lembrou de organizá-lo, segundo me contaram,
tinha mania de organização.
Mania oriunda de uma sensibilidade estética o seu tanto
exacerbada, capaz de exteriorizar-se em requintes de planejamento burocrático. Aparentemente, essa marca de sua personalidade condizia com as altas funções que já lhe cabiam.
Mas só aparentemente: a primazia do fator estético, feito
de equilíbrio, proporção e harmonia, passou a ser a determinante principal de todos os seus atos – tudo mais no Ministério que se danasse. Como no remédio para nascer cabelo:
não nascia, mas dava brilho.
Dizem que, quando tomou posse do cargo, a primeira
coisa que fez foi encomendar a confecção de um artístico
organograma. Quando lhe trouxeram o trabalho, encomendado no Departamento do Pessoal, que por sua vez o encomendou a um desenhista particular, o Ministro não fez mais
nada a não ser estudar a galharia daquela árvore geométrica,
em função da qual as atividades de sua Pasta passariam a
desenvolver-se.
– Este organograma está uma droga. Não posso dependurar uma coisa destas na parede de meu gabinete.
Pôs-se imediatamente a inventar novas repartições, serviços disso e daquilo – tudo fictício, irreal, imaginário – para
estabelecer o equilíbrio organogramático com departamento
disso, departamento daquilo.
O certo é que o novo organograma foi executado, e todo
aquele que tivesse a ventura de penetrar em seu gabinete
podia admirá-lo.
– Tudo isso sob seu controle, Ministro?
– Para você ver, meu filho: se não fosse eu, todo esse
complexo administrativo já teria desabado para um lado,
como uma árvore desgalhada.
Dizem, mesmo, que até hoje o magnífico organograma
figura no tal Ministério, como uma das mais importantes realizações de sua gestão.
(Fernando Sabino, A mulher do vizinho. Adaptado)
Assinale a alternativa em que os verbos destacados nas passagens – Aparentemente, essa marca de sua personalidade condizia com as altas funções que lhe cabiam. / se não fosse eu, todo esse complexo administrativo já teria desabado para um lado... – estão em correlação adequada, segundo a norma-padrão.
Acondisse ... couberam ... formos nós ... desabará
Bcondiz ... couberem ... eram vocês ... desaba
Ccondiria ... cabem ... era eu ... desabava
Dcondirá ... coubessem ... fôramos nós ... desabou
Econdissera ... caberiam ... seriam eles ... desabaria
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GabaritoA — condisse ... couberam ... formos nós ... desabará
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Correlação verbal: condisse ... couberam ... formos nós ... desabará
Gabarito: letra A. A alternativa correta é a A, pois mantém a correlação temporal adequada entre os verbos das duas passagens: no primeiro trecho, o pretérito imperfeito do indicativo (condizia) e o pretérito imperfeito do subjuntivo (cabiam) são substituídos, respectivamente, por condisse (pretérito perfeito do indicativo) e couberam (pretérito mais-que-perfeito do indicativo), ambos no passado, mantendo a relação de simultaneidade. No segundo trecho, a estrutura condicional "se não fosse eu ... já teria desabado" exige, na reescritura, a correlação "se não formos nós ... desabará" (futuro do subjuntivo + futuro do presente do indicativo), que é a única combinação que preserva a relação condicional de possibilidade futura. As demais alternativas quebram essa correlação ao misturar tempos incompatíveis.
O que é correlação verbal e como a banca cobra
Correlação verbal é a harmonia entre os tempos e modos dos verbos de um período, de modo que a sequência temporal faça sentido. Em estruturas condicionais, a correlação clássica é:
Futuro do subjuntivo + futuro do presente do indicativo: "se você estudar, você passará".
Pretérito imperfeito do subjuntivo + futuro do pretérito do indicativo: "se você estudasse, você passaria".
No primeiro trecho do texto, os verbos estão no pretérito imperfeito do indicativo (condizia, cabiam), indicando ações simultâneas no passado. A alternativa A os substitui por condisse (pretérito perfeito) e couberam (pretérito mais-que-perfeito), ambos no passado, mantendo a relação de simultaneidade. No segundo trecho, a estrutura condicional "se não fosse eu ... já teria desabado" exige, na reescritura, a correlação "se não formos nós ... desabará" (futuro do subjuntivo + futuro do presente do indicativo), que é a única combinação que preserva a relação condicional de possibilidade futura. As demais alternativas quebram essa correlação ao misturar tempos incompatíveis.
Análise das passagens
A questão cobra correlação verbal, ou seja, a harmonia temporal e modal entre os verbos de um período. No primeiro trecho, temos:
"Aparentemente, essa marca de sua personalidade condizia com as altas funções que lhe cabiam."
Aqui, condizia (pretérito imperfeito do indicativo) e cabiam (pretérito imperfeito do indicativo) estão no mesmo tempo, expressando ações simultâneas no passado. Na reescritura, a alternativa A usa condisse (pretérito perfeito do indicativo) e couberam (pretérito mais-que-perfeito do indicativo), ambos no passado, mantendo a relação de simultaneidade.
No segundo trecho, temos:
"se não fosse eu, todo esse complexo administrativo já teria desabado para um lado..."
Aqui, a estrutura condicional exige a correlação futuro do subjuntivo + futuro do presente do indicativo: "se não formos nós, todo esse complexo administrativo desabará". Essa é a única combinação que preserva a relação condicional de possibilidade futura.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A apresenta a correlação adequada: condisse (pretérito perfeito do indicativo) e couberam (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) no primeiro trecho, ambos no passado, mantendo a simultaneidade; e formos nós (futuro do subjuntivo) + desabará (futuro do presente do indicativo) no segundo trecho, estabelecendo a relação condicional de possibilidade futura. É a única que respeita a norma-padrão.
Alternativa B — ❌ Incorreta
Erro: mistura tempos incompatíveis. condiz (presente do indicativo) e couberem (futuro do subjuntivo) não mantêm a simultaneidade do original; eram vocês (pretérito imperfeito do indicativo) e desaba (presente do indicativo) quebram a correlação condicional, pois o futuro do subjuntivo exige futuro do presente, não presente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Erro:condiria (futuro do pretérito do indicativo) e cabem (presente do indicativo) não mantêm a relação temporal do original; era eu (pretérito imperfeito do indicativo) e desabava (pretérito imperfeito do indicativo) não formam a correlação condicional adequada, pois o futuro do subjuntivo exige futuro do presente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Erro:condirá (futuro do presente do indicativo) e coubessem (pretérito imperfeito do subjuntivo) não mantêm a simultaneidade do original; fôramos nós (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) e desabou (pretérito perfeito do indicativo) quebram a correlação condicional, pois o futuro do subjuntivo exige futuro do presente.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Erro:condissera (pretérito mais-que-perfeito do indicativo) e caberiam (futuro do pretérito do indicativo) não mantêm a simultaneidade do original; seriam eles (futuro do pretérito do indicativo) e desabaria (futuro do pretérito do indicativo) formam uma correlação condicional, mas não a exigida pelo texto, que pede futuro do subjuntivo + futuro do presente.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre tempos verbais que parecem equivalentes, mas não são. A chave é identificar a estrutura condicional e aplicar a correlação clássica: futuro do subjuntivo + futuro do presente.
PEGA ESSA DICA!
Ao reescrever períodos condicionais, verifique sempre se o verbo da oração principal está no futuro do presente (para "se + futuro do subjuntivo") ou no futuro do pretérito (para "se + pretérito imperfeito do subjuntivo").