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Questão de Português — Interpretação de Textos — VUNESP 2019

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
vu056925
Banca
VUNESP
Órgão
UFABC
Ano
2019
Nível
Superior

                                       Organograma


      Dizem que em matéria de organização aquele Ministério é de amargar. De vez em quando um processo cai no vazio e desaparece para nunca mais. Por quê? Porque o único Ministro que se lembrou de organizá-lo, segundo me contaram, tinha mania de organização.

      Mania oriunda de uma sensibilidade estética o seu tanto exacerbada, capaz de exteriorizar-se em requintes de planejamento burocrático. Aparentemente, essa marca de sua personalidade condizia com as altas funções que já lhe cabiam.

      Mas só aparentemente: a primazia do fator estético, feito de equilíbrio, proporção e harmonia, passou a ser a determinante principal de todos os seus atos – tudo mais no Ministério que se danasse. Como no remédio para nascer cabelo: não nascia, mas dava brilho.

      Dizem que, quando tomou posse do cargo, a primeira coisa que fez foi encomendar a confecção de um artístico organograma. Quando lhe trouxeram o trabalho, encomendado no Departamento do Pessoal, que por sua vez o encomendou a um desenhista particular, o Ministro não fez mais nada a não ser estudar a galharia daquela árvore geométrica, em função da qual as atividades de sua Pasta passariam a desenvolver-se.

      – Este organograma está uma droga. Não posso dependurar uma coisa destas na parede de meu gabinete.

      Pôs-se imediatamente a inventar novas repartições, serviços disso e daquilo – tudo fictício, irreal, imaginário – para estabelecer o equilíbrio organogramático com departamento disso, departamento daquilo.

      O certo é que o novo organograma foi executado, e todo aquele que tivesse a ventura de penetrar em seu gabinete podia admirá-lo.

      – Tudo isso sob seu controle, Ministro?

      – Para você ver, meu filho: se não fosse eu, todo esse complexo administrativo já teria desabado para um lado, como uma árvore desgalhada.

      Dizem, mesmo, que até hoje o magnífico organograma figura no tal Ministério, como uma das mais importantes realizações de sua gestão.

                                                   (Fernando Sabino, A mulher do vizinho. Adaptado)

No contexto das passagens – Dizem que em matéria de organização... (1°parágrafo) / Dizem que, quando tomou posse do cargo ... (4° parágrafo) –, o efeito de empregar o verbo na 3ª pessoa do plural é expressar a ideia de que
  1. Ao narrador pretende criar efeito de suspense.
  2. Ba informação prestada não é digna de crédito.
  3. Co agente da ação é incerto, não identificado.
  4. Da fonte da afirmação é o próprio narrador.
  5. Ea ação verbal não foi efetivamente praticada.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — o agente da ação é incerto, não identificado.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O efeito da 3ª pessoa do plural em “Dizem que…”

Gabarito: letra C. O emprego da 3ª pessoa do plural em “Dizem que…” expressa a ideia de que o agente da ação é incerto, não identificado — ou seja, trata-se de um sujeito indeterminado, que não se sabe (ou não se quer) nomear. Essa é a função clássica da indeterminação do sujeito, e o texto a confirma ao repetir a estrutura em dois momentos: “Dizem que em matéria de organização…” e “Dizem que, quando tomou posse do cargo…”.

A questão mistura morfologia verbal (flexão de pessoa e número) com sintaxe (indeterminação do sujeito). O verbo “dizer” está na 3ª pessoa do plural, mas não há um sujeito explícito — não se diz quem diz. Essa é a marca do sujeito indeterminado, que em português pode ser expresso por verbo na 3ª pessoa do plural sem referência a um grupo específico (como em “Dizem que vai chover”, “Falam mal dele”).

No texto, o narrador usa essa construção para atribuir a informação a uma fonte vaga, coletiva e anônima — “dizem”, “contaram”, “segundo me contaram” —, o que reforça o tom de boato e afasta a responsabilidade do narrador sobre a veracidade dos fatos. Veja a passagem que ancora a resposta:

“Dizem que em matéria de organização aquele Ministério é de amargar.”

E também:

“Dizem que, quando tomou posse do cargo, a primeira coisa que fez foi encomendar a confecção de um artístico organograma.”

Em ambos os casos, o verbo “dizer” está na 3ª pessoa do plural, mas quem diz não é identificado — não há um sujeito claro como “os funcionários”, “os jornais” etc. O efeito é exatamente o de indeterminar o agente, deixando a fonte da informação no anonimato.

3ª pessoa do plural ("Dizem que")
  • 1Efeito: sujeito indeterminado
    • Agente incerto/não identificado
    • Fonte anônima e coletiva
    • Narrador se distancia da afirmação
  • 2O que NÃO expressa
    • Suspense
    • Descrédito da informação
    • Fonte = narrador
    • Ação não praticada
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. O texto não cria suspense; ele apenas relata, com tom irônico, a mania de organização do Ministro. A repetição de “Dizem que” não tem função de prender a atenção do leitor, mas de indicar que a informação é de origem incerta. Não há nenhuma pista textual de suspense.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação (juízo de valor). A 3ª pessoa do plural não expressa, por si só, que a informação “não é digna de crédito”. Ela apenas não identifica a fonte; o leitor pode até desconfiar da veracidade, mas isso é uma inferência subjetiva, não o efeito gramatical da construção. O texto não afirma que a informação é falsa ou indigna de crédito — apenas a apresenta como vinda de uma fonte anônima.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

É exatamente o efeito da 3ª pessoa do plural sem sujeito explícito. O verbo “dizem” está no plural, mas não se sabe quem diz. Isso caracteriza o sujeito indeterminado, que expressa a ideia de que o agente da ação é incerto, não identificado. O texto reforça isso com outras expressões de fonte vaga: “segundo me contaram”, “Dizem, mesmo, que até hoje…”. A indeterminação é a chave.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto. Se a fonte fosse o próprio narrador, ele diria “eu digo” ou “afirmo”. Ao usar “Dizem que”, o narrador se distancia da afirmação, atribuindo-a a terceiros não identificados. A alternativa inverte a relação: o narrador não é a fonte; ele apenas repete o que outros (anônimos) dizem.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A 3ª pessoa do plural não indica que a ação “não foi efetivamente praticada”. O verbo “dizer” está no presente do indicativo, e a ação de “dizer” é apresentada como algo que ocorre — apenas sem agente identificado. A indeterminação do sujeito não nega a ocorrência da ação; ela apenas oculta quem a pratica.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre indeterminação do sujeito e negação da ação (E) ou descrédito da informação (B). O efeito da 3ª pessoa do plural é puramente sintático-semântico: não identificar o agente — nada além disso.

PEGA ESSA DICA!

Ao ver “Dizem que”, “Falam que”, “Contam que”, pergunte-se: quem? Se a resposta não está no texto, é sujeito indeterminado. Essa é a função da 3ª pessoa do plural sem referente.

Gabarito: letra C.

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